sábado, 20 de janeiro de 2018

ANO NOVO COM ANA

Já havia anos que não se sentava para escrever sua lista de resoluções de ano novo: como quase nunca as cumpria (na verdade, integralmente não havia cumprido nenhuma delas) e normalmente em julho sequer se lembrava de quais haviam sido as promessas e decisões do dezembro anterior, ele desistira de fazê-las. Não tinha sido uma resolução: acabara parando de escrever sua lista meio que sem perceber... Um ano não se animou a pô-la no papel, no seguinte não se lembrou, no subsequente não deu tempo... e assim parou.

Então foi meio sem jeito que se sentou à escrivaninha, em seu primeiro 31 de dezembro solitário, para recuperar aquele hábito por tanto tempo deixado de lado. Escolheu escrever em letra de forma, tamanho grande, na parte de cima da folha sulfite, centralizado, um título: PARA 2018. Usou uma caneta azul, que descartou em seguida: as promessas seriam feitas a lápis – o avançar da idade costuma trazer consigo certas sabedorias.

Afiou a ponta do lápis no estilete e, dois dedos abaixo do título, à esquerda da página, também em letra de forma, mas menor, escreveu 1ª RESOLUÇÃO:

Deixou-a em branco: não se arriscava a colocar no papel algo que não fosse cumprir – porque sim, havia decidido que esta lista cumpriria. E ficou sendo essa a primeira resolução para 2018: cumprir as resoluções que estivessem naquele documento. Mas, como eu disse, deixou-a em branco, não a escreveu: essa era uma resolução muito difícil de cumprir e, como sua coordenação fina já não estava tão boa quanto antes (também dessas coisas tem a idade), ele temeu empregar muita força no lápis e acabar deixando marcas na folha que uma borracha não fosse capaz de apagar no caso de desistir de cumpri-la.

Passou, portanto, para a 2ª RESOLUÇÃO, que escreveu meio dedo abaixo da primeira, sem subidas nem descidas, como se a folha sulfite tivesse linhas para orientar o caminho das letras. Ah, sim, que pilantra: agora vejo bem! Ele colocou uma folha pautada embaixo da folha sulfite e, na contraluz do abajur da escrivaninha, as linhas transpareciam. Malandragem de macaco velho!

Porém... o que era aquilo que tinha escrito? O que pode resolver para o ano novo um velho novato em viuvez?

Só uma coisa não lhe saía da cabeça: precisava voltar a viver com sua Ana. Se as coisas tivessem saído como deveriam ter saído, como seria o justo, o natural, quem estivesse escrevendo esta lista não teria esse problema a resolver: seria ele, cinco anos mais velho do que ela, quem estaria morto – e isso de viverem o ano seguinte lado a lado não seria uma decisão a ser tomada, posto que o suicídio impede a ida ao céu. Muito católica a Ana.

Ele, no entanto, era o vivo. E não era muito católico: tinha suas desconfianças, não acreditava em pecado. Por outro lado, no entanto, tampouco lhe parecia algo dado haver vida após a morte – e matar-se não lhe garantiria cumprir essa decisão de ano novo (caso ela fosse mesmo para o papel): viver 2018 ao lado de Ana. Assim, encontrar-se com Ana não foi a resolução, como poderiam julgar aqueles que encontraram seu corpo estatelado, inerte, no chão da calçada após a queda livre do décimo andar.


O que estava escrito ao lado de 2ª RESOLUÇÃO, em letra cursiva e bem firme, embora fina, era: Pagar pra ver.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FLORES

Ali, deitada, divagou:
se fosse eu,
teria escolhido lírios
Adriana Falcão


Seu semblante parecia atestar tranquilidade, mas era só mais um pouco do que sempre fizera em vida: um esforço para não desagradar os demais.

Não se conformava com o crucifixo acima de sua cabeça. Nem nessa hora respeitavam seu ateísmo! O conforto do caixão também a incomodava: gastarem dinheiro com madeira almofadada? Onde estavam com a cabeça?

Só de uma ou outra pessoa gostou de receber a visita final. De Adriana, sem dúvidas: uma querida, amicíssima de longa data! E decoradora de mão cheia... Como é que não pensaram em chamá-la para arrumar o velório? Com certeza não estaria esta cafonice!

Após o beijo na testa que recebeu de sua querida, sentiu-se cansada e parou de prestar atenção ao entra e sai de gente e aos pormenores da decoração. Passou a pensar no programa que a GNT transmitiria naquela noite, no livro que não conseguiria terminar de ler, na torta de amêndoas da Maria que nunca mais provaria e só na hora que iam fechar o caixão voltou a si e aos detalhes do evento.

Sentiu o nefasto perfume dos crisântemos, recebeu os lábios molhados dos parentes chorosos e ali, deitada, divagou: se fosse eu, teria escolhido lírios.




terça-feira, 13 de junho de 2017

XAROPE


Pro seu aniversário de um ano, o andar térreo do sobrado em que Fiácrio morava foi, em quase sua totalidade, alegremente decorado. Pelas paredes brancas da imensa sala de estar, distribuíram-se imagens em isopor de diversas das personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo: tinha a Emília, o Pedrinho, a Narizinho, o Visconde de Sabugosa, o Rabicó, a Cuca, o Saci Pererê... e até a dona Aranha! Tia Nastácia não tinha, e nem o Tio Barnabé, mas muitos dos convidados acabaram confundindo a empregada da família e seu marido (que foram chamados pra ajudar no evento com um disfarçado convite em papel cartão para a festa, em cujo envelope apareciam seus nomes, o que livrou Ana Maria e Haroldo de pagarem hora extra para ela e uma diária para ele) com os dois.  
             
O bolo de milho com calda de chocolate foi encomendado da boleira mais careira da cidade vizinha, uma cidade quase cosmopolita para os padrões da região, com seus quase cinquenta mil habitantes, que o entregou com o Zé Carijó fazendo as vezes de vela pouco antes do horário combinado, num momento em que Ana Maria se arrumava em sua suíte no andar de cima, Haroldo ainda não havia chegado de sua visita ao deputado da região (também conhecido como Amanda), o marido da empregada varria o quintal que se sujara mais do que o previsto com a ventania da manhã, Higino, o irmão mais velho de Fiácrio, brincava de esvaziar o saco ao que o marido da empregada recolhia as folhas de mangueira que varria e a empregada terminava de enrolar os brigadeiros (foi esta, aliás, quem atendeu a boleira e colocou o bolo na mesa da cozinha).

Próximo dali, Álvaro, o doutor, enquanto tomava um antiácido para tentar aplacar a raiva que sentia pelo fato de o filho do amigo fazer aniversário no mês de novembro, interrompendo suas férias na biblioteca de casa, previu que a partir de agora isso ocorreria para todo o sempre e decidiu abrir mais um envelopinho e dissolver seu conteúdo em outro copo de água.
             
Ninguém estava atento ao aniversariante que, aproveitando-se do instante propício, escalou desengonçadamente a grade do berço e a desgalgou pelo lado de fora, soltando-se no chão fofamente atapetado de seu quarto. Não chorou. Não gritou. Não esperneou. Tirou uma pestana rápida e, não mais do que cinco minutos depois de ter sido agraciado com a liberdade, acordou e alocou todos os seus esforços na fuga do quarto. Engatinhando com agilidade (algo, a agilidade, que não seria, no porvir, uma de suas características mais destacadas), cruzou o umbral da porta e alcançou o corredor, dirigindo-se à suíte de seus pais, em cujo banheiro sua mãe secava os cabelos recém-lavados, admirando seu novo brinquedinho: um secador que emitia íons negativos, neutralizando a eletricidade estática e fechando, assim, as cutículas dos fios.
             
No banheiro da suíte, fixado na parede, a um metro e sessenta do solo, dificultando o acesso das crianças, havia um armarinho branco de duas portas chamado por Ana Maria e Haroldo de farmacinha, no qual eles mantinham uma série de medicamentos (xaropes, comprimidos, pastilhas, pomadas...) – para si próprios e para os filhos: Mucosolvan, Melagrião, Aspirina, Dorflex, Advil, Novalgina, Paracetamol, Omeprazol, Cewin, Ponstan, Flogoral, Luftal, Minancora, Hypoglós, Mercúrio Cromo, Nenê Dent...

O Xarope de Ipeca, no entanto, não ficava lá.
          
Comprado às escondidas do marido por Ana Maria, o Xarope de Ipeca era uma das últimas cartadas da professora de dança no combate às gorduras que se acumularam em seu corpo esguio e dele se recusavam a ausentar-se após sua segunda gravidez. Consciente de que, se não o consumisse de forma clandestina, teria que enfrentar discussões homéricas com Haroldo (e perdê-las todas, posto que, ela sabia, os argumentos do marido seriam mais fortes do que os seus, não por méritos dele, mas por serem expressão da verdade), Ana Maria guardava o vidro do medicamento emético na gaveta de baixo de seu criado-mudo.

Fiácrio abriu a gaveta, interessou-se pelo frasco, destampou-o com alguma dificuldade, levou-o à boca e verteu-o, engolindo todo o seu conteúdo. O gosto não lhe aprouve e ele jogou com força o recipiente para baixo da cama dos pais, depois de tornar a tampá-lo e antes de dirigir-se novamente para seu quarto, onde, ao chegar perto do próprio berço, pôs-se a regurgitar.

Toda essa operação não tardou mais de dois minutos para ser concluída – o tempo que o ruído do secador (ironicamente o mais silencioso do mercado, segundo anunciava-se) manteve seu nível mais alto, impedindo Ana Maria de escutar qualquer coisa que não fosse esse infernal zumbido a que é exposta a cada vez que sai do banho.

Vestindo seu roupão felpudo, ela gritou de lá de cima que era hora de a empregada acordar o aniversariante e vesti-lo para a festa, pois os convidados não tardariam em chegar. Foi então a empregada quem encontrou Fiácrio desacordado, mole no chão, com o pijama todo vomitado.

“DonAna, acode!”

 *

Os convidados, na verdade, haviam começado a chegar pouco antes daquele momento, mais ou menos juntos e cerca de dez minutos antes da hora marcada no convite, o oposto daquilo que Ana Maria considerava (e ainda considera) ser o mais elegante, ou seja, chegar sempre dez minutos depois da hora marcada, caso o compromisso esteja dentro da esfera do social – e o marido da empregada acabou assumindo de improviso o posto de recepcionista para o qual sua esposa se preparara treinando diante do espelho de seu quarto durante a noite anterior e de cuja performance ansiava poder se gabar na próxima vez que se encontrasse com as amigas.

“DonAna, acode!”

Mas DonAna não acudiu a contento. Ao ver seu filho estatelado ao lado do berço, desesperou-se.

Um pouco atrapalhado na recepção dos convidados, o marido da empregada encaminhava-os para a sala de estar e dizia-lhes que se acomodassem, pois logo a patroa desceria para encontrar-se com eles. Embora demonstrando certa contrariedade, quase todos colaboraram com o humilde e cortês criado, atendendo a seu pedido de que se sentassem nos sofás e poltronas espalhados pelo imenso cômodo, que o menos tacanho chamaria, sem cometer nenhum impropério, sejamos justos, de salão – e não de sala de estar (assim conhecido apenas por existir, contíguo à sala de jantar, um outro cômodo, duas vezes maior que este em que todos se encontravam, e onde se realizavam os coquetéis e as festas dos adultos, embalados pelos sons que saíam do piano de cauda, que já se chamava salão).

Ninguém, no entanto, permaneceu por muito tempo no local. Contra o berro proferido por Ana Maria (“SOCORRO!!!”), o marido da empregada não pôde fazer nada. Atônito, ele colocou-se ao pé da escada – mas o corpo de um não judeu judiado não é barricada suficiente para o exército de fofoqueiros que decidiu atropelá-lo em busca de ter o que contar no dia seguinte. Em coisa de segundos, todos (mães e algum pai de alunas do CCM, a manicure de Ana Maria, a salgadeira de quem haviam encomendado as frituras para a festa e seu filho mais velho, a costureira da cidade e seu marido alfaiate, o tintureiro da região, o casal de donos da padaria da rua de baixo e ainda aqueles que Ana Maria juraria que chegariam até mais do que dez minutos depois da hora marcada no convite – não muito mais também, pois meia hora de atraso já começa a indicar deselegância – tais quais o jovem dentista da cidade e sua namorada fisioterapeuta, a Secretária de Educação e seu marido, Diretor da Escola Municipal – ainda conhecida por lá, carinhosamente, como Grupo Escolar – o jornalista responsável pelas páginas de política, esportes, eventos sociais, passatempo e esoterismo do jornal quinzenal da cidade e o Prefeito Municipal, sua filha pós-adolescente e a amiguinha da filha pós-adolescente do Prefeito Municipal, que era também sua segunda esposa) se encontravam no quarto da criança, que, já sem seu sujo macacãozinho, estava no colo da empregada, enquanto Ana Maria chorava compulsivamente, molhando seu roupão e deixando à mostra sua interminável perna esquerda, por conta da posição que adotou para manter-se sentada junto à parede, embaixo da janela.

Único preocupado, além de sua esposa, em resolver a situação, o marido da empregada, que já havia gasto muito de sua débil faceta proativa na imprevista tarefa de receber e manter entretidos os convidados enquanto a “patroa” e a patroa da “patroa” não desciam para assumir seus postos, não conseguiu pensar em oferecer-se para levar o menino ao Pronto Socorro, apesar de sua Brasília estar estacionada na quadra de trás da casa. O que fez foi correr pro quarto do casal, pegar o anacrônico telefone fixo sem fio na cômoda da Senhora e de lá ligar para o celular do pai de Fiácrio.

Como sói acontecer quando mais precisamos que algo dê certo, tal atitude não funcionou da maneira que o nervoso quase herói esperava. Haroldo, embriagado, estava no volante e não atendeu o celular, em respeito à lei que diz ser proibido falar ao telefone enquanto se está dirigindo.

Diante disso, o marido da empregada viu-se obrigado a deixar um recado, e o fez do jeito menos desastrado que as circunstâncias lhe permitiam:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

Só depois de estacionar o Alfa Romeo, não sem alguma dificuldade, na vaga a ele destinada na garagem coberta de sua casa, é que Haroldo foi ver de que se tratavam os dois avisos de chamada perdida que recebera enquanto conduzia seu carro na estrada que une o lar doce lar de Amanda, que ficava na cidade vizinha, aquela quase cosmopolita e onde também morava a boleira que fornecera o bolo da festa de Fiácrio, e sua própria residência.

Escolheu ouvir primeiro a gravação gerada pelo contato “Deputado”, visto que a outra (vinda do contato “Casa”), ele suspeitava conter a voz alterada de Ana Maria exigindo que se apressasse porque a porra da festa da porra do filho dele já tinha começado:

“Oi, amor... Só queria dizer que esses dez minutos sem você já estão parecendo uma eternidade... Saudades mil! Você continua amando sua Amanda?”

Meio enfastiado pela soma do uísque com a cada vez mais recorrente infantilidade da amiga colorida, Haroldo passou a mão pela testa e deu uma respirada profunda, antes de ouvir o outro recado que a caixa postal de seu celular guardava:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

A castigada voz masculina que chegou aos ouvidos do Secretário fê-lo desconcentrar-se e não entender de imediato o recado. Ele tratou de certificar-se de que o contato era “Casa”, pois chegou a pensar que, dado seu estado de incipiente embriaguez, pudesse ter lido errado o que aparecera no visor do seu telefone móvel. Mas não, era mesmo do contato “Casa” que vinha a chamada. Ouviu de novo:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

Não reconheceu a voz e sua torpeza se dissipou instantaneamente. Ao mesmo tempo, sua pele empapou de suor, pelo qual o corpo passou a expelir o álcool ingerido havia poucos momentos.

Entrou correndo em casa e percebeu o murmurinho – ou, mais que isso, a conversa agitada no andar de cima – e subiu a escada de par em par, valendo-se do corrimão para tomar impulso com a mão esquerda e da parede para fazê-lo com a direita.

Ao ver o amontoado de gente no quarto de seu filho, Haroldo não conteve o desespero. O coração acelerado e a respiração entrecortada não seguraram o berro que emergiu de suas entranhas:

“Tragédia?”

O jornalista, que não escutara a mensagem gravada pelo marido da empregada no celular do Secretário que estimulara este a usar a palavra Tragédia em altos decibéis, mas que sim, por outro lado, já havia notado que o menino respirava e até abria os olhinhos no colo da empregada, sorriu e disse-lhe que não era pra tanto, afirmando que tragédia era maremoto e que aquilo ali não passava de uma insignificante marola.

Sem entender nada, mas julgando perceber no sorriso do afetado periodista um desdém equivalente ao que ele próprio dedicava a quem o emitia, Haroldo bradou ainda mais alto:

“Vai tomar no cu, seu bosta!”

Como são as coisas, no fim Haroldo virou Rita Lee – pra pedir silêncio eu berro – e todos se calaram.

O silêncio (mais do que o grito que o ocasionou) fez com que Ana Maria saísse do torpor em que se enclausurara até aquele instante. Levantando-se com aparente dificuldade, apoiando-se na parede atrás de si, sem tirar os olhos dos olhos do marido, que lhe apareciam por trás do amontoado de gente, ela disse, em baixo tom, mas pausadamente, com firmeza:

“A filha da puta da assassina da empregada derrubou meu filho no chão. Ela matou o meu filho.”

Nem a mãe da empregada prestava serviços sexuais nem a empregada tinha derrubado o filho de Ana Maria no chão e nem o filho de Ana Maria tinha morrido, mas ela acreditava piamente nisso quando soltou a recriminação aos hábitos alcoólicos do marido que Fiácrio escutou pelado, enquanto todos os demais estavam vestidos:

“E você enchendo a cara com o imbecil do Deputado enquanto seu filho morria!!!”

Nesse momento, apesar de a porta da sala estar escancarada, soou a campainha: Dr. Álvaro, o mais elegante dos convidados, chegava vinte e cinco minutos depois do horário marcado no convite.

domingo, 14 de maio de 2017

CAMISA 9

Ninguém esperava por uma nova colega em outubro. E muito menos por uma nova colega como a Ana Helena.

No dia em que ela chegou à escola, garoava desde manhãzinha e eu, filho único de precavido pai machista em desconstrução, estava molhado (mais de suor do que chuva, já que me encontrava enfiado em camiseta, blusa, casaco, duas calças, luvas e meias grossas, paramentado para enfrentar o que meu pai julgou se tratar de um dia de inverno na Rússia).

As lentes embaçadas dos meus óculos atrapalharam um pouco minha visão e eu, mesmo estando sentado em uma carteira posicionada na diagonal de quem fala na frente da sala, meio que não notei que a menina que a professora, dona Márcia, pedia pra se apresentar pra turma, tinha os cabelos raspados nas laterais.  

― Bom, sou a Ana Helena, tenho 12 anos e sou centroavante.

Após um silêncio da turma como resposta, a menina se dirigiu à carteira indicada pela professora e a lousa começou a ser preenchida com informações sobre fotossíntese. Tive vontade de ficar olhando pra nova colega, mas minha vergonha me impediu e eu acabei fixando o meu olhar na planta que a professora desenhou.

Na minha escola as turmas estavam organizadas da seguinte maneira: na “A” ficavam os alunos que tiravam as melhores notas; na “B”, os que tiravam as piores. Até hoje não sei quem foi o gênio que teve essa ideia, mas o resultado imediato disso é que nunca tivemos chance de ganhar um único desafio interclasse de esportes: éramos a “6ª Série Tarde A” e nossos troféus vinham das olimpíadas de matemática, dos torneios de xadrez e dos concursos de contos. Em basquete, vôlei, atletismo, handebol, queimada e, principalmente, futebol, perdíamos de goleada.

Digo isso pra explicar que o silêncio que se seguiu à auto apresentação da Ana Helena se deveu mais à perplexidade que a chegada de uma nova aluna naquela altura do ano causou naqueles alunos (que não se desesperam diante da regra de três, mas que se embananam com um “olá, como vai?”), do que a um desinteresse coletivo ou ao céu cinza do dia.

Eu suspeitava estar na turma A não por ser tão bom em notas, mas sim por ser péssimo em esportes. Meus setes e oitos eram suficientes para passar de ano, mas me tornavam diferente do restante da classe, que, quando tirava um nove, parecia que tinha perdido um parente. Assim que a chegada de alguém se apresentando como centroavante me animou, e eu fiquei bem contente de a turma “B” estar lotada enquanto sobravam vagas na turma “A” – era quase inacreditável que no dia seguinte iríamos finalmente entrar em campo com um time completo no desafio do futebol, justo no último jogo da temporada: Ana Helena seria a décima primeira jogadora e receberia a camisa 9, já que era a centroavante.

Como gentileza de boas-vindas, na hora do intervalo me apresentei à garota e lhe disse que cedia a ela meu posto de capitão do time de futebol. E também, se ela quisesse, meu posto de capitão do time de basquete, do de vôlei, do de atletismo e do de handebol.

Comentei depois com meu colega Gabriel que o sorriso que ela me deu ao aceitar a proposta foi a coisa mais linda que já tinha visto na vida e ele me disse que apesar do meu corpo de Sancho Pança eu estava me parecendo mais com o Dom Quixote falando da Dulcineia. Não entendi, mas suspeitei que fosse uma crítica.

Mesmo com a estreia de nossa capitã, porém, perdemos o jogo. Em parte por culpa dela (que, por exemplo, não se dispôs a, como capitã, ficar lembrando o Augusto de que o goleiro pode pegar a bola com as mãos), mas também por conta do juiz, o professor de educação física, que a expulsou depois de ela ter berrado “Porra!” na comemoração do gol que fez de fora da área – o único gol da história da “6ª Série Tarde A”.

Perdemos por honrosos 7 a 1.



  


segunda-feira, 10 de abril de 2017

LICITAÇÃO

A polícia acendeu as luzes das viaturas e fez soar as sirenes quando o Cássio abriu a maleta. Não deu nem tempo de eu perceber que só havia dinheiro na fileira de cima e que o que havia embaixo era jornal cortado no formato de cédulas: foi eu virar pra janela que dava pra rua e a porta do escritório se abriu atrás da gente, com os gritos do policial precedendo seu corpo. Tinha caído numa emboscada.

Entrei na política a convite do Gérson Paraná, o secretário. Foi mais na amizade, mesmo: eu nunca tive pretensões de atuar nesse campo.

A gente se conheceu na faculdade de Letras: ele queria ser professor e eu, revisor de texto. Minha vontade era trabalhar com algo que não exigisse muito contato com outras pessoas – o oposto do que acontecia com ele, que de tão desinibido se meteu no movimento estudantil.

Pra ser sincero, o cara era bom mesmo. Votei nele pra presidente do Centro Acadêmico. Todos os estudantes aprovamos a gestão do Paraná: no período de um ano, ele organizou eventos culturais e esportivos, liderou campanhas pra levantar donativos pra pessoas em situação de rua, implementou o departamento de assistência jurídica pros alunos inadimplentes terem respaldo na negociação com a universidade, adquiriu computadores novos pra então capenga sala de informática, encampou a greve dos estudantes contra o reajuste das mensalidades... Enfim, dava pra ver que levava jeito.

Eu não me metia nessas coisas, mas éramos próximos: havia algo que nos unia. Nos primeiros anos do curso, nós dois éramos os únicos torcedores do Coritiba a estudarmos lá naquele tempo. Se bobear, éramos os únicos torcedores do Coritiba a viver na cidade. Hoje em dia não é mais assim, o filho mais velho dele também é coxa-branca. O caçula é bugrino, que nem a mãe dele.

Era só de futebol que a gente conversava – e isso foi o suficiente pro Paraná (que eu chamava de Gérson, ao contrário dos outros) me convidar pra trabalhar na campanha dele pra vereador no ano passado, uns poucos meses depois de nos formarmos.

Lembro bem como foi. Ele me ligou de manhã e me perguntou se a gente podia se encontrar pra tomar uma cerveja. Disse que tinha uma coisa pra me pedir.

Fomos ao mesmo bar onde nos quatro anos de faculdade ficávamos relembrando as defesas do Rafael, os gols do Lela e do Marildo (especialmente aquele de cobertura contra o Flamengo no Maracanã) e as entrevistas do Ênio Andrade, que tornaram inesquecível pra gente a campanha do título brasileiro de 1985 – enquanto esvaziávamos as garrafas de Brahma que o garçom insistia em colocar na nossa mesa.

Mas nesse dia bebi sozinho: o Gérson pediu um suco de laranja.

Como de costume, ele falou sem parar – só que dessa vez aos soluços.

— Preciso de alguém de confiança, Marcão. Tem muita falcatrua na política. Você vai ser o meu escudo, quem não vai deixar a lama me atingir. Quem vai dizer não pros esquemas. A gente vai fazer muita coisa pra quem tá na pior. É nossa chance. É a chance da periferia. Já pensou um cara honesto lá dentro? Vai dar pra fazer muita coisa por quem precisa. Porra, Marcão!

Aceitei com a condição de que ele nunca me pedisse pra exercer cargos no partido (ele quis que eu me filiasse), dar entrevistas, fazer discursos, candidatar-me a alguma coisa.

— Só topo se for pra trabalhar diretamente com você - falei depois da quarta Brahma e já enrolando a língua.

Na campanha, eu, que nunca me dei bem com números, fiquei responsável pelo caixa: criei uma cacetada de tabela, computei todas as doações (que eram pequenas, mas de uma porrada de gente), negociei os preços com as gráficas (sem fazer nada “por fora”), arregimentei e paguei os cabos eleitorais em dia (mesmo sabendo que muitos deles votaram num tal Pastor Emanuel, que fazia sucesso nos bairros mais afastados até que foi flagrado, depois da eleição, torrando o dinheiro dos fiéis com luxo e mulheres – mas se bem que quem sou eu pra falar de flagra com dinheiro dos outros, né?) e no final entreguei as planilhas todas sem que houvesse um centavo de diferença. A prestação de contas foi aprovada.

Ganhamos – mas o Gérson não assumiu o cargo de vereador, pois o prefeito eleito era da coligação que nosso partido compunha e ele foi nomeado secretário de educação.

Se fosse mais esperto, o secretário não teria me levado junto – ele teria sacado logo o motivo pelo qual eu aceitei trabalhar no gabinete da secretaria e teria chamado outra pessoa. Só um cara como o Gérson pra achar que eu acreditaria que seria uma boa dois jovens recém formados tocarem uma pasta tão visada e desejada quanto a da educação, num município deste tamanho, num mandato de um prefeito que negocia cargo de primeiro escalão com os partidos que compuseram sua chapa pra manter o apoio da base de sustentação. Nunca: não foi por idealismo e nem por falta de capacidade de ler o mundo que eu topei. Eu aceitei ser o chefe de gabinete do secretário de educação porque eu não sei dizer não. E ele precisava de alguém que soubesse dizer não.

Foram muitos os que se sentiram frustrados com a escolha do prefeito. Ex-reitores da universidade da cidade, professores com longa carreira, doutores em educação... e quem assumiu o posto foi um cara que nem fez trinta anos! Um líder estudantil de meia tigela sem nenhuma experiência na administração pública! Nem a estrondosa votação pra vereador parecia gabaritar meu amigo ao cargo.

E tem muita lama na política, mesmo. E eu não sei dizer não, mesmo.

Não foi pensando na grana, não foi entendendo que aquilo só iria agilizar os trâmites e que no final das contas eu ganharia um justo agrado por ter feito a população ser beneficiada. Não. Eu só concordei em fraudar a licitação porque não sei dizer não.

Quem me apresentou o pessoal da ImpressCorp foi o Cássio, um funcionário de carreira lotado na secretaria há três gestões. Eles apareceram lá no gabinete numa tarde em que o Gérson não estava: um jovem mais magrelo, vestindo terno e suando pacas (acho que tinha uma escuta atrás da gravata, ou dentro do bolso do paletó, agora que penso) e um senhor bem grandão, mais gordo, com os dois botões de cima da camisa de manga curta abertos e também suando pacas. Eles cumprimentaram todos os funcionários do gabinete – sem errar nenhum nome – antes de apertarem a minha mão e sugerirem que ocupássemos a sala reservada do secretário.

— O seu patrão tá na sessão agora, não é mesmo? Acho que ele não vai se importar – disse o gordo, já abrindo a porta.

Não posso negar que o vozeirão de locutor do atrevido me lembrou meu pai me dando bronca toda minha infância por não ter arrumado a cama a contento ou por ter tirado nota baixa na escola ou por qualquer outra razão que ele achasse pertinente...

O que ouvi deles, mais especificamente do gordo, na sala do secretário, foi o seguinte: corria o rumor (aliás era verdade) que a secretaria iria abrir licitação pra comprar impressoras pra mais de quarenta escolas do município. A ImpressCorp já tinha fornecido impressoras pra prefeitura em gestões anteriores, mas na última grande compra foi preterida porque não compactuava com aquele governo comunista que tomou de assalto a cidade (na verdade eu já tinha lido o processo de compra da gestão anterior e a ImpressCorp perdeu por não apresentar o preço mais baixo entre as concorrentes, mas não fiz objeção e o vozeirão continuou tremelicando meus tímpanos, enquanto o magricela ficava movendo a cabeça, assentindo, e eu ficava pensando em se teria adiantado alguma coisa fecharmos a porta) e agora queria voltar a fornecer seus equipamentos da mais alta confiabilidade, com tecnologia de ponta e design arrojado, pras escolas da cidade.

— Que maravilha! Bom saber!

Sim, mas havia um porém. Eles não conseguiriam fazer o preço que a vencedora da licitação anterior (uma empresa do Rio de Janeiro, uns cariocas malandrões que nem geram emprego aqui e que não devem pagar imposto, porque se fossem honestos, se pagassem tudo direitinho, não conseguiriam cobrar tão barato, sabe-se lá se não trabalham com carga roubada) iria, com certeza, informação de fonte segura, oferecer.

— Ah, que pena...

É, mas tinha um jeito.

Não pedi nenhum presentinho pra dar o jeito, mas o mais jovem pareceu se afobar com a careta que eu fiz pra segurar um espirro (aquela sala fechada, cheia de pó, putz, eu tinha que chamar a atenção do pessoal da limpeza) e ofereceu: seriam R$100.000,00 pra eu incluir na licitação uma cláusula exigindo que a empresa concorrente estivesse sediada aqui na cidade.

— Mas e se outra empresa sediada aqui na cidade oferecer um preço melhor que o de vocês?

A ImpressCorp é a única empresa de fornecimento de impressoras sediada aqui na cidade.

Nosso segundo encontro ocorreu no escritório da empresa. Não poderia ser no gabinete do secretário pra não levantar suspeitas, disseram.

O Cássio era funcionário de carreira, é verdade, mas tinha sido alocado no gabinete de educação, havia muito tempo, pelo João Conceição, o prefeito que administrara a cidade durante dois mandatos, na gestão anterior à do comunista que antecedeu o atual. O João botou ele lá porque ele pediu e presenteou-lhe diversas regalias porque ele era do grupo do Dr. Miguel Amay, ex-secretário que estava cotadíssimo pra voltar ao cargo que agora o Gérson ocupava.

O Cássio foi fiel ao Miguel Amay. Eu, que sou trouxa, resolvi ser fiel ao Gérson Paraná também: assumi a bronca sozinho, que, por certo, era minha mesmo; mas pro meu amigo isso de pouco adiantou – dois dias depois de eu ser pego em flagrante (a ação foi filmada e nos jornais da TV só meu rosto aparecia, pois o do Cássio, apresentado como o denunciante, saiu borrado pra ele não ser identificado), ele caiu.

Miguel Amay foi apresentado à imprensa como um secretário experiente que sempre contara com a admiração do prefeito. Quem me contou foi o próprio Gérson, que veio me visitar aqui na cadeia pra me passar um contato de um advogado da confiança dele pra me defender no julgamento. Eu não confio em quem ele confia, mas reconheço que ele é um bom amigo.


E a licitação não foi revogada.   

domingo, 12 de março de 2017

CARAMUJO

Tudo me irrita nesta merda de lugar. O preço do café, a gordura do croissant, o pato seco que comi no almoço grasnando na minha garganta e o garçom uniformizado que espanta o petit garçon que me pedia um trocado aqui nesta mesinha bamba em que tomo frio – mais do que o conhaque – na calçada.

E pensar que foi por conta de Paris que a gente se aproximou.

*

A Anne adolescente já chamava bem a atenção da rapaziada por conta dos seus, digamos, atributos físicos – mas ela era meio páreo duro: pros mais ousados da nossa turma que tentavam alguma coisa, ela respondia que não saía com criança de oitava série. Eu achava meio estranho essa resposta da Anne contra as investidas mais atrevidas, afinal ela também estava na oitava série (e, portanto, se os meninos éramos crianças ela também seria – aliás, até hoje me dou razão: oitava série é tudo criança), mas o fato é que ela, naquele ano, tinha tido dois namorados – e os dois estavam no colegial. Cada um foi namorado dela durante longos quatro meses, pouco mais, pouco menos. Eu, que sequer de longe era dos mais ousados, não tentava nem dar oi pra ela, quanto mais passar cantada.

Mas aí teve um trabalho de Geografia, um seminário sobre cidades do mundo, e eu escolhi Paris. A gente podia formar grupos, só que fui o único que escolheu a Cidade Luz. A escolhi porque já estava apaixonado pela Anne, claro, e queria conhecer mais sobre o lugar de onde ela tinha vindo. Meus amigos acabaram escolhendo Atenas, Roma, Lisboa e Salvador – porque a gente já tinha estudado essas cidades na aula de História no ano anterior e, imaginando que professores não se comunicam, eles pensaram que poderiam usar o mesmo trabalho daquela disciplina na apresentação (não seria algo como o “copiar e colar” tão comum nos dias de hoje, posto que naquele tempo não tínhamos acesso a computador, mas pros padrões da época seria a maior moleza: era só datilografar em uma folha nova a pesquisa feita pelo Eugênio, e copiada por todos, mudando o cabeçalho HISTÓRIA – 7ª SÉRIE – 1989 pra GEOGRAFIA – 8ª SÉRIE – 1990 e depois ler lá na frente). Não sou o Eugênio, só pra deixar claro. E também copiei o trabalho dele no ano anterior. Esse da oitava série é que decidi fazer de verdade, por causa, repito, de minha, embora platônica, avassaladora paixão pela Anne – que acabou fazendo dupla com uma amiga pra falar de São Paulo mesmo.

Fiz um trabalho do caralho sobre Paris (falei de Chasseanos, Lutécia, São Denis, Vikings, construção da Notre Dame, Peste Negra, Massacre da Noite de São Bartolomeu, Dia das Barricadas, Queda da Bastilha, Comuna...), mas agora constato que ele não serviu pra me fazer conhecer a cidade como eu achava que tivesse servido. Ele só serviu mesmo pra fazer a Anne vir falar comigo. E pra eu tirar o único dez da minha carreira estudantil pós-primário.

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Esse petit garçon que foi escorraçado daqui pelo garçom deve ter os mesmos treze anos que eu tinha naquela época – e duvido que ele saiba tanto quanto eu sabia sobre o Barão Haussmann e a reforma urbana da cidade: mas se eu conhecesse naquele tempo o que ele conhece sobre esta Paris de bosta, jamais eu teria feito a cagada que eu fiz.

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Assim que terminei minha apresentação, abaixei a cabeça e retornei pra minha carteira. Senti minhas bochechas e minha testa arderem enquanto ouvia o professor elogiando minha pesquisa antes de chamar o grupo seguinte e, depois que a temperatura do meu rosto se estabilizou, no final da aula, voltei a senti-lo em chamas quando percebi que quem tocava o meu ombro era a Anne. Ela queria me contar que era de Paris, como se eu não soubesse. E eu fiz de conta que não sabia, o que me deu alguns segundos de conversa com ela, enquanto saíamos juntos da sala, mochila nas costas e olhares (pelo menos o meu) pro chão. No portão da escola estava o namorado dela (o segundo daquele ano), um cara que fazia musculação e, todos sabem, já estava no colegial.

— Amor, Eugênio, Eugênio, Ricardo.

Puta que o pariu: não sou o Eugênio!

— Antônio – murmurei, corrigindo-a sem muita convicção.

— Beleza, Eugênio? – e o Ricardo quase esmaga minha mão.

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Pela vidraça deste café/bistrô de Saint-Germain, bairro ao qual venho uma vez por mês pra tirar selfie e postar no Facebook, vejo que o casal sentado ao meu lado, mas na parte de dentro, calafetada, pediu um prato de escargot. São oito da noite, e ainda não digeri o almoço. Estou enrolando aqui, tomando um conhaque e fingindo que vou jantar.

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Praquele trabalho da oitava série, obviamente pesquisei a culinária francesa – e me foi de ótima ajuda pensar em nojentos caramujos passeando pela boca da Anne toda vez que eu a via beijando o tal do Ricardo: uma maneira meio torta de encontrar alguma vantagem em ser um tímido e sem graça quatro-olhos fadado à solidão – fadado a uma vida sem a Anne.

No entanto, surpreendentemente, minha vida teve a Anne – e eu a troquei por outro caramujo. Pela casca de outro caramujo, pra ser mais exato, posto que, confesso, o que consegui aqui foi viver no 20º arrondissement, apenas. Eu que morava no Higienópolis.

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O namoro da Anne com o Ricardo já estava se aproximando do fim naquela tarde em que eu fui apresentado ao rapaz: ele tinha ido buscá-la na saída do ginásio pra tomarem um lanche e comemorarem o centésimo dia deles juntos – foi isso o que o garotão me explicou, talvez tentando me dar tchau logo após ter me dado oi.

Acontece que aqueles poucos segundos de conversa sobre meu trabalho (e também a imagem que criei em minha cabeça dos caramujos passeando pelos lábios da Anne), meio que me ajudaram a tirar minha francesinha do pedestal em que eu próprio e toda a torcida do Corinthians a havíamos colocado – o que, não de uma hora pra outra, claro, mas, outrossim, de maneira constante, foi acertando o compasso das minhas batidas cardíacas, regulando a temperatura do meu rosto e engrossando a minha voz a cada vez que a tornava a ver – e olha que ela passou a se dirigir a mim com frequência. Ainda estava, no entanto, apaixonado por ela – o que me impelia a tentar impressioná-la com o único assunto sobre o qual eu possivelmente tivesse alguma coisa de seu interesse pra dizer: França e, especialmente, Paris (meus outros assuntos na época eram Engenheiros do Hawaii, lições de casa e cartuchos de videogame).

Foi assim que, fingindo falar de improviso, disse pra Anne, numa tarde em que seu estado civil já indicava a opção “solteira”, que tinha pensado nela na noite anterior. Ela abriu um sorriso inesquecível e me perguntou o porquê.

— É que eu tava vendo um filme do Truffaut e tinha uma atriz parecida com você.

— Jura? Nossa, você vai ter que conhecer o meu pai! Ele adora o Truffaut!

Minha cara quase foi ao chão quando ela me disse onde morava, como eu fazia pra chegar lá e que eu poderia ir almoçar sábado com eles. Era quinta-feira. Cheguei a pensar em recusar o convite, não por que tivesse algum compromisso (não tinha, nunca tinha), mas porque a verdade é que eu apenas havia decorado o nome do diretor durante a pesquisa – não tinha assistido a nenhum filme dele. No entanto, não me senti capaz de recusar um convite desses. Respondi que iria almoçar com eles, sim.

Sorrindo e jogando uma piscadinha de olho, ela me perguntou:

— É a Fanny Ardant, né?

Eu assenti e corri pra locadora, onde aluguei os cinco filmes que vi de madrugada, com o som no mínimo, escondido em meu quarto: Os incompreendidos; Beijos proibidos; A noite americana; De repente, num domingo e A mulher do lado. Porra, ela era mesmo a cara da Fanny Ardant!

No fim das contas minhas noites em claro não serviram pra que eu alcançasse meu objetivo (que era não passar vergonha na frente do Jean-Pierre, o pai da Anne), posto que o velho falou o tempo todo durante o almoço, não me deixando nenhuma brecha – e, por certo, segundo ele, o filme fundamental do Truffaut é o Farenheit 451. Porém, essas noites serviram pra outra coisa: além de ter ficado maravilhado com o que havia conhecido da filmografia do gênio da Nouvelle Vague, o entusiasmo do meu mais novo e improvável compagnon acabou me fascinando e, quando voltei à locadora pra devolver os filmes, aluguei, além do Farenheit 451, Jules e Jim, O amor em fuga, Domicílio conjugal e Masculino, Feminino – que é do Godard, mas acontece que a locadora não tinha mais nenhum do Truffaut.

Aprender com Jean-Pierre sobre Truffaut, Godard, Chabrol, Resnais e Rohmer virou o maior prazer da minha vida e transformou Anne, naquele momento, numa simples garota de recados: o que me desestabilizava não eram mais suas longas pernas, nem seu cabelo perfumado, nem muito menos sua postura ereta – o que me deixava ansioso era saber se seu pai estaria ou não disponível pra me receber no sábado.

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Já paguei a conta e saí da mesinha de fora do café/bistrô. Ainda estou em Saint-Germain: vou chutando uma latinha amassada de Coca-Cola (Coca-Cola!) enquanto desço a Rue Bonaparte, desviando dos turistas que fazem fila na porta da confeitaria (gente, já está na hora de jantar!) e busco alguma coisa que me ajude a enrolar o máximo possível pra postergar a minha indesejada chegada à estação do metrô. Chegar ao metrô significa voltar pra casa – voltar pra casca do caramujo. Faz frio e meu casaco me protege menos do que a casca protege o escargot. Mas no Saint-Germain pelo menos tem gente comendo escargot.

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Talvez por ter passado a ser o único, ou ao menos o primeiro, garoto da escola, do bairro, da cidade, quiçá do país, que lhe olhava sem externar uma excitação de cunho sexual, a Anne se apaixonou por mim. Sabe aquilo de querermos o que é difícil de ser conquistado? Pois é, acho que aconteceu com ela. E comigo também, mas ao contrário: quando ela me disse que estava bem afim de mim, eu, um garoto da oitava série, dei-lhe um beijo na boca só pra não perder a chance. Confesso que não pensei em caramujos na hora, o beijo foi bom pra cacete, meu primeiro beijo de língua, mas também admito que começamos a namorar só pra eu poder passar na sua casa mais de uma vez por semana, sem que isso significasse incômodo pro Jean-Pierre.

Nosso namoro durou bem mais do que os longos quatro meses dos fortões. Foram anos. Moramos juntos quando jovens, na casa que era do pai dela: Jean-Pierre morreu aqui, assassinado, na frente da Anne, na manhã do dia 31 de dezembro do ano 2000, enquanto os dois procuravam uma loja que vendesse Champagne. Eles queriam uma Moët Chandon pra estourar na casa da família da mãe da Anne, família com a qual mantinham uma relação amena, apesar de distante. No entanto, o mesmo homem que tinha sido acusado por Jean-Pierre de haver assassinado a Charlotte, sua esposa, estourou seus miolos com um tiro seco, que produziu um pequeno estampido e muita gritaria.

— Este sim fui eu! – disse o cara, quando os policiais se aproximaram.

Seria o quinto réveillon consecutivo que eles passariam junto à família de Charlotte e desde o primeiro eles quebravam a promessa de me trazer junto.

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Em 2005, quando finalmente minha poupança chegou a uma quantia que bancaria umas duas semanas aqui em Paris, Anne me disse que nunca mais viria pra cá – não queria nem saber do lugar em que perdera mãe e pai.

— Aliás, não saio de São Paulo. Amo esta cidade.

Não era à toa que ela tinha feito o trabalho sobre São Paulo na oitava série. Enfim.

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Em 2008, quando eu, incauto, imaginava que a minha poupança já era suficiente pra me sustentar mais do que seis meses como turista por aqui, voltei a tocar no assunto de uma viagem por estas terras tão fedorentas e ao mesmo tempo tão perfumadas. Anne me disse que era Paris ou ela.

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Fiz a escolha errada. Não só porque abri mão de seguir vivendo ao lado da Anne, minha primeira paixão, o amor da minha adolescência, mas também porque a alternativa que escolhi era outra. Eu optei por uma Paris que nunca existiu na minha vida: esta Paris de piqueniques no Champs-de-Mars tão próxima e tão distante de mim. Desde que cheguei economizo o que não tenho e trabalho noite e dia pra poder usufruir da cidade dos meus sonhos – ou dos meus macarons, que seja. São nove os anos que conto como imigrante clandestino.

Ao me decidir por Paris, eu, sem saber, escolhi viver em um apartamento apertado no primeiro andar de um prédio horizontalmente enorme, cuja fachada apresenta ao desavisado visitante inúmeras e minúsculas janelas. Estou indo pra lá agora: cheguei à estação.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CHAPEUZINHO VERMELHO

Era criança, mas já vivia cheia de culpas. Desejando ser boa menina, à noite pedia anistia, em oração, das faltas do dia: Desculpe-me, Senhor, por isso; perdoe-me, Senhor, por aquilo.

Cantada por seus pais, a solidão de sua avó lhe afetava profundamente – e Chapeuzinho Vermelho sentia-se responsável por ela.

Certa manhã, inspirada pelo Divino, a quem clamara por auxílio pra se tornar uma neta melhor, ela sugeriu à mãe que fizesse uma torta, que lhe serviria como pretexto pra visitar a senhora abandonada.

Seu pai, que lia o jornal encaracolando os pelos da barba enquanto a mãe colocava a assadeira no forno, recomendou-lhe cuidado: nada de ir pelo bosque, minha filha – o caminho por lá é mais curto e bonito, mas também mais perigoso. E nada de falar com estranhos!

Obediente, Chapeuzinho Vermelho foi pelo caminho mais feio e seguro, e também mais longo, cabeça baixa, sem cumprimentar ninguém, levando com cuidado o embrulho quentinho e perfumado que a seu pedido sua mãe preparara.

Não aguentou passar muito tempo com a avó. Amargurada pelo isolamento, a velhinha reclamou do adocicado do presente, que lhe atacava a diabetes e estragava o café.


Sem lhe ocorrer assunto algum e não tendo novidades pra contar à viúva de seu avô, Chapeuzinho Vermelho encurtou a visita, voltando pra casa mais cedo. Lá encontrou seu pai, sua mãe e um amigo dos dois – mas não entendeu o porquê de eles ficarem tão desconcertados ao vê-la.