quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CHAPEUZINHO VERMELHO

Era criança, mas já vivia cheia de culpas. Desejando ser boa menina, à noite pedia anistia, em oração, das faltas do dia: Desculpe-me, Senhor, por isso; perdoe-me, Senhor, por aquilo.

Cantada por seus pais, a solidão de sua avó lhe afetava profundamente – e Chapeuzinho Vermelho sentia-se responsável por ela.

Certa manhã, inspirada pelo Divino, a quem clamara por auxílio pra se tornar uma neta melhor, ela sugeriu à mãe que fizesse uma torta, que lhe serviria como pretexto pra visitar a senhora abandonada.

Seu pai, que lia o jornal encaracolando os pelos da barba enquanto a mãe colocava a assadeira no forno, recomendou-lhe cuidado: nada de ir pelo bosque, minha filha – o caminho por lá é mais curto e bonito, mas também mais perigoso. E nada de falar com estranhos!

Obediente, Chapeuzinho Vermelho foi pelo caminho mais feio e seguro, e também mais longo, cabeça baixa, sem cumprimentar ninguém, levando com cuidado o embrulho quentinho e perfumado que a seu pedido sua mãe preparara.

Não aguentou passar muito tempo com a avó. Amargurada pelo isolamento, a velhinha reclamou do adocicado do presente, que lhe atacava a diabetes e estragava o café.


Sem lhe ocorrer assunto algum e não tendo novidades pra contar à viúva de seu avô, Chapeuzinho Vermelho encurtou a visita, voltando pra casa mais cedo. Lá encontrou seu pai, sua mãe e um amigo dos dois – mas não entendeu o porquê de eles ficarem tão desconcertados ao vê-la.