Era criança, mas já vivia cheia de culpas. Desejando ser boa
menina, à noite pedia anistia, em oração, das faltas do dia: Desculpe-me,
Senhor, por isso; perdoe-me, Senhor, por aquilo.
Cantada por seus pais, a solidão de sua avó lhe afetava
profundamente – e Chapeuzinho Vermelho sentia-se responsável por ela.
Certa manhã, inspirada pelo Divino, a quem clamara por
auxílio pra se tornar uma neta melhor, ela sugeriu à mãe que fizesse uma
torta, que lhe serviria como pretexto pra visitar a senhora abandonada.
Seu pai, que lia o jornal encaracolando os pelos da barba enquanto
a mãe colocava a assadeira no forno, recomendou-lhe cuidado: nada de ir pelo
bosque, minha filha – o caminho por lá é mais curto e bonito, mas também mais
perigoso. E nada de falar com estranhos!
Obediente, Chapeuzinho Vermelho foi pelo caminho mais feio e
seguro, e também mais longo, cabeça baixa, sem cumprimentar ninguém, levando
com cuidado o embrulho quentinho e perfumado que a seu pedido sua mãe
preparara.
Não aguentou passar muito tempo com a avó. Amargurada pelo
isolamento, a velhinha reclamou do adocicado do presente, que lhe atacava a
diabetes e estragava o café.
Sem lhe ocorrer assunto algum e não tendo novidades pra
contar à viúva de seu avô, Chapeuzinho Vermelho encurtou a visita, voltando pra
casa mais cedo. Lá encontrou seu pai, sua mãe e um amigo dos dois – mas não
entendeu o porquê de eles ficarem tão desconcertados ao vê-la.