domingo, 12 de março de 2017

CARAMUJO

Tudo me irrita nesta merda de lugar. O preço do café, a gordura do croissant, o pato seco que comi no almoço grasnando na minha garganta e o garçom uniformizado que espanta o petit garçon que me pedia um trocado aqui nesta mesinha bamba em que tomo frio – mais do que o conhaque – na calçada.

E pensar que foi por conta de Paris que a gente se aproximou.

*

A Anne adolescente já chamava bem a atenção da rapaziada por conta dos seus, digamos, atributos físicos – mas ela era meio páreo duro: pros mais ousados da nossa turma que tentavam alguma coisa, ela respondia que não saía com criança de oitava série. Eu achava meio estranho essa resposta da Anne contra as investidas mais atrevidas, afinal ela também estava na oitava série (e, portanto, se os meninos éramos crianças ela também seria – aliás, até hoje me dou razão: oitava série é tudo criança), mas o fato é que ela, naquele ano, tinha tido dois namorados – e os dois estavam no colegial. Cada um foi namorado dela durante longos quatro meses, pouco mais, pouco menos. Eu, que sequer de longe era dos mais ousados, não tentava nem dar oi pra ela, quanto mais passar cantada.

Mas aí teve um trabalho de Geografia, um seminário sobre cidades do mundo, e eu escolhi Paris. A gente podia formar grupos, só que fui o único que escolheu a Cidade Luz. A escolhi porque já estava apaixonado pela Anne, claro, e queria conhecer mais sobre o lugar de onde ela tinha vindo. Meus amigos acabaram escolhendo Atenas, Roma, Lisboa e Salvador – porque a gente já tinha estudado essas cidades na aula de História no ano anterior e, imaginando que professores não se comunicam, eles pensaram que poderiam usar o mesmo trabalho daquela disciplina na apresentação (não seria algo como o “copiar e colar” tão comum nos dias de hoje, posto que naquele tempo não tínhamos acesso a computador, mas pros padrões da época seria a maior moleza: era só datilografar em uma folha nova a pesquisa feita pelo Eugênio, e copiada por todos, mudando o cabeçalho HISTÓRIA – 7ª SÉRIE – 1989 pra GEOGRAFIA – 8ª SÉRIE – 1990 e depois ler lá na frente). Não sou o Eugênio, só pra deixar claro. E também copiei o trabalho dele no ano anterior. Esse da oitava série é que decidi fazer de verdade, por causa, repito, de minha, embora platônica, avassaladora paixão pela Anne – que acabou fazendo dupla com uma amiga pra falar de São Paulo mesmo.

Fiz um trabalho do caralho sobre Paris (falei de Chasseanos, Lutécia, São Denis, Vikings, construção da Notre Dame, Peste Negra, Massacre da Noite de São Bartolomeu, Dia das Barricadas, Queda da Bastilha, Comuna...), mas agora constato que ele não serviu pra me fazer conhecer a cidade como eu achava que tivesse servido. Ele só serviu mesmo pra fazer a Anne vir falar comigo. E pra eu tirar o único dez da minha carreira estudantil pós-primário.

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Esse petit garçon que foi escorraçado daqui pelo garçom deve ter os mesmos treze anos que eu tinha naquela época – e duvido que ele saiba tanto quanto eu sabia sobre o Barão Haussmann e a reforma urbana da cidade: mas se eu conhecesse naquele tempo o que ele conhece sobre esta Paris de bosta, jamais eu teria feito a cagada que eu fiz.

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Assim que terminei minha apresentação, abaixei a cabeça e retornei pra minha carteira. Senti minhas bochechas e minha testa arderem enquanto ouvia o professor elogiando minha pesquisa antes de chamar o grupo seguinte e, depois que a temperatura do meu rosto se estabilizou, no final da aula, voltei a senti-lo em chamas quando percebi que quem tocava o meu ombro era a Anne. Ela queria me contar que era de Paris, como se eu não soubesse. E eu fiz de conta que não sabia, o que me deu alguns segundos de conversa com ela, enquanto saíamos juntos da sala, mochila nas costas e olhares (pelo menos o meu) pro chão. No portão da escola estava o namorado dela (o segundo daquele ano), um cara que fazia musculação e, todos sabem, já estava no colegial.

— Amor, Eugênio, Eugênio, Ricardo.

Puta que o pariu: não sou o Eugênio!

— Antônio – murmurei, corrigindo-a sem muita convicção.

— Beleza, Eugênio? – e o Ricardo quase esmaga minha mão.

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Pela vidraça deste café/bistrô de Saint-Germain, bairro ao qual venho uma vez por mês pra tirar selfie e postar no Facebook, vejo que o casal sentado ao meu lado, mas na parte de dentro, calafetada, pediu um prato de escargot. São oito da noite, e ainda não digeri o almoço. Estou enrolando aqui, tomando um conhaque e fingindo que vou jantar.

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Praquele trabalho da oitava série, obviamente pesquisei a culinária francesa – e me foi de ótima ajuda pensar em nojentos caramujos passeando pela boca da Anne toda vez que eu a via beijando o tal do Ricardo: uma maneira meio torta de encontrar alguma vantagem em ser um tímido e sem graça quatro-olhos fadado à solidão – fadado a uma vida sem a Anne.

No entanto, surpreendentemente, minha vida teve a Anne – e eu a troquei por outro caramujo. Pela casca de outro caramujo, pra ser mais exato, posto que, confesso, o que consegui aqui foi viver no 20º arrondissement, apenas. Eu que morava no Higienópolis.

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O namoro da Anne com o Ricardo já estava se aproximando do fim naquela tarde em que eu fui apresentado ao rapaz: ele tinha ido buscá-la na saída do ginásio pra tomarem um lanche e comemorarem o centésimo dia deles juntos – foi isso o que o garotão me explicou, talvez tentando me dar tchau logo após ter me dado oi.

Acontece que aqueles poucos segundos de conversa sobre meu trabalho (e também a imagem que criei em minha cabeça dos caramujos passeando pelos lábios da Anne), meio que me ajudaram a tirar minha francesinha do pedestal em que eu próprio e toda a torcida do Corinthians a havíamos colocado – o que, não de uma hora pra outra, claro, mas, outrossim, de maneira constante, foi acertando o compasso das minhas batidas cardíacas, regulando a temperatura do meu rosto e engrossando a minha voz a cada vez que a tornava a ver – e olha que ela passou a se dirigir a mim com frequência. Ainda estava, no entanto, apaixonado por ela – o que me impelia a tentar impressioná-la com o único assunto sobre o qual eu possivelmente tivesse alguma coisa de seu interesse pra dizer: França e, especialmente, Paris (meus outros assuntos na época eram Engenheiros do Hawaii, lições de casa e cartuchos de videogame).

Foi assim que, fingindo falar de improviso, disse pra Anne, numa tarde em que seu estado civil já indicava a opção “solteira”, que tinha pensado nela na noite anterior. Ela abriu um sorriso inesquecível e me perguntou o porquê.

— É que eu tava vendo um filme do Truffaut e tinha uma atriz parecida com você.

— Jura? Nossa, você vai ter que conhecer o meu pai! Ele adora o Truffaut!

Minha cara quase foi ao chão quando ela me disse onde morava, como eu fazia pra chegar lá e que eu poderia ir almoçar sábado com eles. Era quinta-feira. Cheguei a pensar em recusar o convite, não por que tivesse algum compromisso (não tinha, nunca tinha), mas porque a verdade é que eu apenas havia decorado o nome do diretor durante a pesquisa – não tinha assistido a nenhum filme dele. No entanto, não me senti capaz de recusar um convite desses. Respondi que iria almoçar com eles, sim.

Sorrindo e jogando uma piscadinha de olho, ela me perguntou:

— É a Fanny Ardant, né?

Eu assenti e corri pra locadora, onde aluguei os cinco filmes que vi de madrugada, com o som no mínimo, escondido em meu quarto: Os incompreendidos; Beijos proibidos; A noite americana; De repente, num domingo e A mulher do lado. Porra, ela era mesmo a cara da Fanny Ardant!

No fim das contas minhas noites em claro não serviram pra que eu alcançasse meu objetivo (que era não passar vergonha na frente do Jean-Pierre, o pai da Anne), posto que o velho falou o tempo todo durante o almoço, não me deixando nenhuma brecha – e, por certo, segundo ele, o filme fundamental do Truffaut é o Farenheit 451. Porém, essas noites serviram pra outra coisa: além de ter ficado maravilhado com o que havia conhecido da filmografia do gênio da Nouvelle Vague, o entusiasmo do meu mais novo e improvável compagnon acabou me fascinando e, quando voltei à locadora pra devolver os filmes, aluguei, além do Farenheit 451, Jules e Jim, O amor em fuga, Domicílio conjugal e Masculino, Feminino – que é do Godard, mas acontece que a locadora não tinha mais nenhum do Truffaut.

Aprender com Jean-Pierre sobre Truffaut, Godard, Chabrol, Resnais e Rohmer virou o maior prazer da minha vida e transformou Anne, naquele momento, numa simples garota de recados: o que me desestabilizava não eram mais suas longas pernas, nem seu cabelo perfumado, nem muito menos sua postura ereta – o que me deixava ansioso era saber se seu pai estaria ou não disponível pra me receber no sábado.

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Já paguei a conta e saí da mesinha de fora do café/bistrô. Ainda estou em Saint-Germain: vou chutando uma latinha amassada de Coca-Cola (Coca-Cola!) enquanto desço a Rue Bonaparte, desviando dos turistas que fazem fila na porta da confeitaria (gente, já está na hora de jantar!) e busco alguma coisa que me ajude a enrolar o máximo possível pra postergar a minha indesejada chegada à estação do metrô. Chegar ao metrô significa voltar pra casa – voltar pra casca do caramujo. Faz frio e meu casaco me protege menos do que a casca protege o escargot. Mas no Saint-Germain pelo menos tem gente comendo escargot.

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Talvez por ter passado a ser o único, ou ao menos o primeiro, garoto da escola, do bairro, da cidade, quiçá do país, que lhe olhava sem externar uma excitação de cunho sexual, a Anne se apaixonou por mim. Sabe aquilo de querermos o que é difícil de ser conquistado? Pois é, acho que aconteceu com ela. E comigo também, mas ao contrário: quando ela me disse que estava bem afim de mim, eu, um garoto da oitava série, dei-lhe um beijo na boca só pra não perder a chance. Confesso que não pensei em caramujos na hora, o beijo foi bom pra cacete, meu primeiro beijo de língua, mas também admito que começamos a namorar só pra eu poder passar na sua casa mais de uma vez por semana, sem que isso significasse incômodo pro Jean-Pierre.

Nosso namoro durou bem mais do que os longos quatro meses dos fortões. Foram anos. Moramos juntos quando jovens, na casa que era do pai dela: Jean-Pierre morreu aqui, assassinado, na frente da Anne, na manhã do dia 31 de dezembro do ano 2000, enquanto os dois procuravam uma loja que vendesse Champagne. Eles queriam uma Moët Chandon pra estourar na casa da família da mãe da Anne, família com a qual mantinham uma relação amena, apesar de distante. No entanto, o mesmo homem que tinha sido acusado por Jean-Pierre de haver assassinado a Charlotte, sua esposa, estourou seus miolos com um tiro seco, que produziu um pequeno estampido e muita gritaria.

— Este sim fui eu! – disse o cara, quando os policiais se aproximaram.

Seria o quinto réveillon consecutivo que eles passariam junto à família de Charlotte e desde o primeiro eles quebravam a promessa de me trazer junto.

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Em 2005, quando finalmente minha poupança chegou a uma quantia que bancaria umas duas semanas aqui em Paris, Anne me disse que nunca mais viria pra cá – não queria nem saber do lugar em que perdera mãe e pai.

— Aliás, não saio de São Paulo. Amo esta cidade.

Não era à toa que ela tinha feito o trabalho sobre São Paulo na oitava série. Enfim.

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Em 2008, quando eu, incauto, imaginava que a minha poupança já era suficiente pra me sustentar mais do que seis meses como turista por aqui, voltei a tocar no assunto de uma viagem por estas terras tão fedorentas e ao mesmo tempo tão perfumadas. Anne me disse que era Paris ou ela.

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Fiz a escolha errada. Não só porque abri mão de seguir vivendo ao lado da Anne, minha primeira paixão, o amor da minha adolescência, mas também porque a alternativa que escolhi era outra. Eu optei por uma Paris que nunca existiu na minha vida: esta Paris de piqueniques no Champs-de-Mars tão próxima e tão distante de mim. Desde que cheguei economizo o que não tenho e trabalho noite e dia pra poder usufruir da cidade dos meus sonhos – ou dos meus macarons, que seja. São nove os anos que conto como imigrante clandestino.

Ao me decidir por Paris, eu, sem saber, escolhi viver em um apartamento apertado no primeiro andar de um prédio horizontalmente enorme, cuja fachada apresenta ao desavisado visitante inúmeras e minúsculas janelas. Estou indo pra lá agora: cheguei à estação.