Quem visse Fiácrio hoje com as mãos no bolso e olhando para
baixo, com a face enrubescida, não reconheceria nele o garoto que, no final do
ano passado, recebeu aos pulos e com um sorriso interminável no rosto a notícia
de que iria mudar de escola.
Agora, no portão do Colégio Novo Mundo, o inseguro rapazola
sentia rios de suor percorrerem suas costas e nenhum assunto dos que havia
preparado para tentar se enturmar nesse primeiro dia de aula lhe parecia suficientemente
interessante para ajudá-lo a vencer a timidez e impulsioná-lo para uma conversa
com algum dos desconhecidos que a partir daquele momento passariam a dividir as
manhãs com ele.
Assim, enquanto o sinal que liberaria a entrada de todos não
tocava, ele começou a intuir que mais uma vez a chance de aprumar os rumos de
sua acidentada vida socioescolar escorreria pelo ralo. Sentiu uma vontade
imensa do colo da mãe e seus olhos marejaram: já faz dois anos da partida dela para
o campo espiritual, lembrou-se.
- Você é novo aqui, né?
Às vezes a vida é boa. Até para Fiácrio. A menina à sua
frente, que com uma voz de chantilly lhe fez a pergunta, olhava-o com ternura e
um sorriso tão encantador que foi capaz de inundar o deslocado e cabeludo
adolescente de confiança. E ele, valendo-se dela, a confiança, coisa nova para
si, decidiu que não perderia a oportunidade de utilizá-la. Percebeu a chegada
do sol que se imiscuía por entre as nuvens, encheu o peito de ar e,
desajeitadamente posto que não estava acostumado a conversas com interlocutores
interessados em sua pessoa, respondeu, soltando uma voz um tantinho, ou,
sejamos sinceros, um tantão mais alta do que teria gostado:
- Sim!
Como a gentil garota, ainda com o sorriso no rosto, pareceu
estar esperando que Fiácrio dissesse mais alguma coisa, embora sua pergunta
inicial tivesse sido completamente respondida, o filho do músico itinerante que
estava começando seus estudos na quinta escola de sua vida sentiu sua velha
conhecida companheira angústia tomar conta de seu ser e instalar uma bola de
tênis em sua garganta. Voltou a olhar para baixo.
Mas às vezes a vida é boa mesmo, até para Fiácrio, e a moça simpática
insistiu:
- Eu sou a Nina! Quem é você?
Quem é você. E por um acaso alguém sabe quem é? Uma pergunta
tão profunda feita assim, de maneira tão leve! Sou a soma de todas as
influências, passadas e presentes, que regem minhas atitudes e definem minhas decisões.
Sou meu pai, sou minha mãe, sou a morte de minha mãe. Sou meu irmão mais velho
e minha irmã mais nova. Sou a tigela de cereais que tomei no café da manhã e o
almoço que já sonho em pagar para você, Nina, no dia em que eu, apaixonado que
estou desde já, tenha coragem de lhe pedir em namoro e receba esse mesmo
sorriso que você me oferta agora, mas, naquele então, como confirmação de seu
aceite.
Tantas palavras que eu tenho no meu repertório de velho
empolado, e agora nenhuma delas me serve... Melhor simplificar, pois não sei
quanto tempo mais ela aguentará esperando.
- Sou o Fiácrio.
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Lista com as características da personagem que inspirou este conto:
CARACTERÍSTICAS FÍSICAS
Gênero: Masculino
Idade: 14
Etnia: Branco
Altura: 1m 65cm
Tipo corporal: Magro
Cor dos cabelos: Castanhos
Cor dos olhos: Castanhos
Características faciais: Sobrancelhas espessas; cabelos
longos encaracolados; boca larga; nariz grande, com a ponta aberta, para baixo
Constituição física: Fraco
CARACTERÍSTICAS SOCIAIS
Local de nascimento: Pirenópolis, GO
Pais: Brasil
Família: Órfão de mãe desde os 12 anos; tem pai, um irmão
mais velho e uma irmã mais nova
Infância: Morou em várias cidades, acompanhando a família
Trabalho: Estudante
Renda: Incerta
Religião: Não tem uma religião específica, mas é bastante
espiritualizado
Inclinação Política: Esquerda
PERSONALIDADE
Hábitos: Ouvir música, tocar violão, ler livros de fantasia
Melhores Qualidades: Sensibilidade, honestidade, senso de
justiça
Piores Defeitos: Desatenção, preguiça, lentidão, insegurança
Comidas Favoritas: Vegetarianas
Destinos de férias favoritos: Cachoeiras
Esportes favoritos: Atletismo
Filmes/Programas de TV favoritos: Filmes em geral
O que o faz feliz? Ouvir música, brincar com jogos de
fantasia
O que o deixa triste? A falta da mãe
O que o enfurece? Injustiça, brincadeiras ofensivas
O que ele mais ama? Talvez sua colega Nina
O que ele mais odeia? Talvez seu colega Leandro
Do que ele mais se orgulha? Das músicas que sabe tocar no
violão
Do que ele mais se envergonha? De sua insegurança
Qual é seu segredo mais escondido? Gosta de brincadeiras e
histórias muito infantis pra sua idade