segunda-feira, 8 de agosto de 2016

VOCÊ NUNCA MAIS VERÁ ISSO ACONTECER

Felipe abriu a torneira e deixou a água entrar na chaleira. Quatro copos de requeijão, se tivesse contado. Levou a chaleira ao fogo. Nesse momento não foi atacado por subjetividades, pelo contrário: concentrou-se no procedimento. Antes de a água ferver, preparou a mistura no baldinho – um jorro de vinagre, três colheres de soda cáustica, um punhado de sal. A água ferveu, ele a despejou no baldinho. Misturou. Pegou a toalha de rosto e chamou o filho:

- Marcelo, venha aqui.

Esperava por um “já vai” como resposta, mas o “já vai” não veio.

Alterou-se. Endureceu a voz:

- Marcelo, venha aqui agora!

O silêncio que se seguiu enterrou qualquer dúvida: o menino tinha visto o beijo do pai na tia. Sentiu-se ainda mais seguro do que deveria fazer.

Colocou o baldinho e a toalha sobre a pia da cozinha e foi buscar a passos largos, decididos, o filho no quintal.

Foi bom não tê-lo encontrado lá: teve tempo para se recompor. Respirou fundo, controlou o batimento cardíaco e reorganizou o pensamento: não conseguiria convencer Marcelinho pela força – teria que ser no diálogo. Ainda estava firme na resolução e não poderia deixar a raiva atrapalhar o procedimento.

Sabia de suas próprias dificuldades no campo das palavras, mas concordava com a cunhada: mudar a abordagem não significava amolecer – ele tinha que impor o limite, afinal era o adulto da relação, é certo, mas, para que Marcelo entendesse a lição, primeiro Felipe teria que reconquistar sua confiança.

Voltou para dentro da casa e se dirigiu ao quarto do garoto, carregando consigo a imagem que acabara de ver e que lhe ajudara a se acalmar: a grama regular do quintal limpo era a prova de que não errara na educação do filho. A condução a rédeas curtas transformou-o em um menino responsável, disciplinado. Até as roseiras – desejo da mulher ao que acedeu com nariz torcido – bem cuidadas por Marcelo eram um prêmio para Felipe: foram necessárias muitas cintadas no lombo do moleque para que este entendesse o ciclo da rega e o momento da poda.

Golpeou (de leve e compassadamente, com os nós dos dedos) a porta trancada. Após a quinta batida, ouviu um “que é?” irritado vindo de dentro.

- Abre a porta filho. Preciso de um favor.

- Tô querendo dormir.

- Na verdade quem precisa do favor é a sua mãe.

- Que é?

- O cano da cozinha entupiu e ela me pediu pra arrumar. Não tô conseguindo sozinho...

Deu certo. Se havia algo de bom em Marcelo que Felipe reconhecia era seu espírito solidário: e isso parecia algo espontâneo do rapaz – ao menos não aprendera em casa, posto que nem seu pai e nem sua mãe, Ana Letícia, davam muitos exemplos em tal área. Junte-se a isso o fato de mãe e filho viverem grudados, trocando carinhos e cuidados, um sempre tomando o partido do outro em qualquer discussão com ele, Felipe, e pronto: o menino que dizia querer dormir levantou-se da cama, virou a chave, destrancou a porta e a abriu para ver à sua frente o homem que não só traiu a sua mãe como seduziu a tia Cláudia, por quem desde sempre nutrira um amor platônico.

Felipe puxou Marcelo para junto de si, num simulacro de abraço.

- Bóra lá, meu campeão.

A frase não surtiu o efeito que Felipe desejava: ao invés de abrir um sorriso, o garoto olhou para o chão.

Encaminharam-se para a cozinha. Agacharam-se diante do sifão e Felipe tateou o terreno:

- Que que é esse seu mau humor?

Para sua surpresa, Marcelo não se fechou em copas. Na lata, embora baixinho e com lágrimas irrompendo mansamente, respondeu:

- É por causa de ontem à noite. Você e a tia Clau. Eu ouvi um barulho no quartinho de passar e fui olhar o que era. Daí eu vi vocês dois se beijando.

- É isso, então? Quer dizer que esse chororô é por conta disso?

- É. Eu te odeio!

Foi a deixa.

- Olha, filho – começou Felipe tranquilamente a executar o que havia planejado – quem deveria ficar triste aqui era eu. Ter que ficar me explicando? Você sabe muito bem que a sua tia é uma safada! Ela fica se exibindo, se insinuando. Não respeita ninguém, nem sua mãe.

Marcelo passou a chorar de soluçar.

- Escuta, filho: sua tia é uma sirigaita. Eu não tive como escapar do assédio dela. E você me deixou muito triste, tá entendendo? Não percebe o trabalho que me dá? O quanto me custa criar você? Educar você? Você acha que eu mereço um filho bisbilhoteiro, Marcelo? De qualquer maneira, eu garanto que você nunca mais verá isso acontecer.

- Garante? – gaguejou Marcelinho, propenso a perdoá-lo, apesar da facada que sentiu no peito ao ouvir o que ele acabava de falar sobre a tia Clau.

- Deixa de choro, meu filho. Vou te ajudar a lavar esse rosto, que homem não chora.


Embebedou a toalha de rosto na mistura ainda morna e passou-a sobre os olhos do filho, que agora, ao invés de chorar, berrava de dor.