Felipe abriu a torneira e deixou a água entrar na chaleira.
Quatro copos de requeijão, se tivesse contado. Levou a chaleira ao fogo. Nesse
momento não foi atacado por subjetividades, pelo contrário: concentrou-se no
procedimento. Antes de a água ferver, preparou a mistura no baldinho – um jorro
de vinagre, três colheres de soda cáustica, um punhado de sal. A água ferveu,
ele a despejou no baldinho. Misturou. Pegou a toalha de rosto e chamou o filho:
- Marcelo, venha aqui.
Esperava por um “já vai” como resposta, mas o “já vai” não
veio.
Alterou-se. Endureceu a voz:
- Marcelo, venha aqui agora!
O silêncio que se seguiu enterrou qualquer dúvida: o menino
tinha visto o beijo do pai na tia. Sentiu-se ainda mais seguro do que deveria
fazer.
Colocou o baldinho e a toalha sobre a pia da cozinha e foi
buscar a passos largos, decididos, o filho no quintal.
Foi bom não tê-lo encontrado lá: teve tempo para se
recompor. Respirou fundo, controlou o batimento cardíaco e reorganizou o
pensamento: não conseguiria convencer Marcelinho pela força – teria que ser no
diálogo. Ainda estava firme na resolução e não poderia deixar a raiva
atrapalhar o procedimento.
Sabia de suas próprias dificuldades no campo das palavras,
mas concordava com a cunhada: mudar a abordagem não significava amolecer – ele
tinha que impor o limite, afinal era o adulto da relação, é certo, mas, para
que Marcelo entendesse a lição, primeiro Felipe teria que reconquistar sua
confiança.
Voltou para dentro da casa e se dirigiu ao quarto do garoto,
carregando consigo a imagem que acabara de ver e que lhe ajudara a se acalmar:
a grama regular do quintal limpo era a prova de que não errara na educação do
filho. A condução a rédeas curtas transformou-o em um menino responsável,
disciplinado. Até as roseiras – desejo da mulher ao que acedeu com nariz
torcido – bem cuidadas por Marcelo eram um prêmio para Felipe: foram necessárias
muitas cintadas no lombo do moleque para que este entendesse o ciclo da rega e
o momento da poda.
Golpeou (de leve e compassadamente, com os nós dos dedos) a
porta trancada. Após a quinta batida, ouviu um “que é?” irritado vindo de
dentro.
- Abre a porta filho. Preciso de um favor.
- Tô querendo dormir.
- Na verdade quem precisa do favor é a sua mãe.
- Que é?
- O cano da cozinha entupiu e ela me pediu pra arrumar. Não
tô conseguindo sozinho...
Deu certo. Se havia algo de bom em Marcelo que Felipe reconhecia
era seu espírito solidário: e isso parecia algo espontâneo do rapaz – ao menos
não aprendera em casa, posto que nem seu pai e nem sua mãe, Ana Letícia, davam
muitos exemplos em tal área. Junte-se a isso o fato de mãe e filho viverem
grudados, trocando carinhos e cuidados, um sempre tomando o partido do outro em
qualquer discussão com ele, Felipe, e pronto: o menino que dizia querer dormir
levantou-se da cama, virou a chave, destrancou a porta e a abriu para ver à sua
frente o homem que não só traiu a sua mãe como seduziu a tia Cláudia, por quem
desde sempre nutrira um amor platônico.
Felipe puxou Marcelo para junto de si, num simulacro de
abraço.
- Bóra lá, meu campeão.
A frase não surtiu o efeito que Felipe desejava: ao invés de
abrir um sorriso, o garoto olhou para o chão.
Encaminharam-se para a cozinha. Agacharam-se diante do sifão
e Felipe tateou o terreno:
- Que que é esse seu mau humor?
Para sua surpresa, Marcelo não se fechou em copas. Na lata,
embora baixinho e com lágrimas irrompendo mansamente, respondeu:
- É por causa de ontem à noite. Você e a tia Clau. Eu ouvi
um barulho no quartinho de passar e fui olhar o que era. Daí eu vi vocês dois
se beijando.
- É isso, então? Quer dizer que esse chororô é por conta
disso?
- É. Eu te odeio!
Foi a deixa.
- Olha, filho – começou Felipe tranquilamente a executar o
que havia planejado – quem deveria ficar triste aqui era eu. Ter que ficar me
explicando? Você sabe muito bem que a sua tia é uma safada! Ela fica se
exibindo, se insinuando. Não respeita ninguém, nem sua mãe.
Marcelo passou a chorar de soluçar.
- Escuta, filho: sua tia é uma sirigaita. Eu não tive como
escapar do assédio dela. E você me deixou muito triste, tá entendendo? Não
percebe o trabalho que me dá? O quanto me custa criar você? Educar você? Você
acha que eu mereço um filho bisbilhoteiro, Marcelo? De qualquer maneira, eu
garanto que você nunca mais verá isso acontecer.
- Garante? – gaguejou Marcelinho, propenso a perdoá-lo,
apesar da facada que sentiu no peito ao ouvir o que ele acabava de falar sobre
a tia Clau.
- Deixa de choro, meu filho. Vou te ajudar a lavar esse
rosto, que homem não chora.
Embebedou a toalha de rosto na mistura ainda morna e
passou-a sobre os olhos do filho, que agora, ao invés de chorar, berrava de
dor.
Meu Deus! Fiquei arrepiada com a história, final chocante. Você escreve muito bem. Parabéns!
ResponderExcluirObrigado, Vanessa! Que legal que você gostou!
Excluir