Se
aquele japonês e seu amigo brasileiro tivessem entrado no salão quinze dias
antes, com certeza Fabiana já teria se transformado em Shirley e se encaminhado
pra mesa deles usando todas as armas de sedução que julgava possuir – inclusive
o sorriso.
No entanto, aquele japonês e seu
amigo brasileiro entraram no salão na noite em que Fabiana despedia-se de
Shirley – e Fabiana continuou sentada junto ao balcão, sem pressa de largar a
acetona e o esmalte “vermelho paixão” de sua personagem, fingindo não ter
escutado as três palmadas de Geraldo no ar, as mesmas que há duas semanas
vinham lhe causando tantos sobressaltos.
As unhas já estavam prontas havia
mais de meia hora. A moça, porém, ainda segurava o vidro do cosmético importado
enquanto decidia se o jogava fora pra depois acabar com qualquer rastro da
Shirley quando aquela noite chegasse ao fim ou se o guardava na bolsa – afinal
nunca tinha gostado tanto de suas unhas quanto estava gostando naquele momento e
talvez isso de dar cabo a tudo o que foi dela nas duas semanas em que foi outra
não a ajudaria a se sentir mais limpa quando voltasse a ser quem era. Sabia,
porém, que não voltaria a ser quem era.
Veio a segunda sequência de palmadas
no ar de Geraldo, dessa vez mais incisivas. Não dava pra ficar enrolando: ela
era a única das meninas que ainda estava por ali.
Guardou o esmalte na bolsa (e também
a acetona) e dirigiu-se à mesa dos clientes.
-
Hi, boys...
*
Shirley tinha sido concebida por
Fabiana em Uberaba com outro nome: Vivian.
Era dezembro de 2015 quando um
senhor, calvo e com um bigode cheio, bem aparado, aproximou-se da moça do caixa
após dispensar a nota fiscal do perfume que acabara de comprar e, olhando pra
baixo, com o suor brotando na testa apesar de o ar-condicionado da loja estar
funcionando a todo vapor, perguntou-lhe, quase em silêncio, se a jovem
aceitaria tomar um lanche após o expediente.
A diferença de idade entre os dois
era bastante evidente. Alguém que os tivesse visto procurando mesa na praça de
alimentação do shopping, ela de
uniforme, ele vestido a la bancário,
teria induzido que iriam tratar de questões profissionais. Só Fabiana pensou
que essa conversa seria um flerte. Só Fabiana errou, apesar de o assunto do
lanche ter a ver com sexo.
A oferta era a seguinte: passagem
aérea de ida para o Rio e de volta, quinze dias depois, para Uberaba;
hospedagem e alimentação no local, de graça; 5% do que era cobrado de entrada
no salão, 5% do que fosse arrecadado com o aluguel dos quartos, 10% do que os
seus clientes consumissem no bar e mais 70% do valor de cada programa. Em
troca, ela trabalharia na boate oito horas por dia, durante duas semanas.
-
Em dinheiro dá quanto?
-
A entrada custa R$100,00, ou seja, você ganha R$5,00 de qualquer um que entrar.
O aluguel do quarto sai por outros R$100,00. Ou seja, mais R$5,00 por cliente –
de qualquer uma das meninas – que seja convencido a fazer o programa. No bar os caras vão consumir de R$300,00 a
R$500,00 reais facinho. É capaz de os estrangeiros gastarem até uns R$1000,00,
vai depender de você convencê-los. Ou seja, dá pra por aí na sua conta mais uns
R$50,00 por cliente, se a gente for pessimista. O programa sai por R$300,00. Ou
seja, R$210,00 inteirinhos pra você. A média das meninas no salão é de quatro programas
por noite... Agora, com as olimpíadas, com certeza esse número vai mais do que
dobrar... Você vai acabar ganhando, por baixo, uns R$2000,00. Uns R$2500,00 se
trabalhar direitinho. Por dia. São catorze dias, ou seja...
Fabiana não tinha que responder
naquela hora. Ganhou três dias pra pensar. Colocou o cartão no bolso e terminou
de tomar o sundae que tinha escolhido
de sobremesa. Geraldo recolheu as bandejas e eles se despediram com um até
mais.
No terminal, à espera do ônibus, ela
se irritou com o som que vinha de seu iPod.
Desligou-o em seguida, mas não tirou o fone do ouvido – vai que alguém quisesse
puxar papo. Viajou o trajeto todo em pé, como sempre – e, como de seu aparelho
não estava saindo música nenhuma, ela escutou perfeitamente o motorista gritar “caralho”
quando puxou a cordinha do sinal em cima da hora pra descer no seu ponto.
Não quis assistir à novela: deixou
seu pai sozinho no sofá e isolou-se no quarto. Desde outubro seu irmão,
Fabiano, vinha trabalhando no turno da noite na fábrica de bebidas e isso dava
a Fabiana o que mais ela precisava no momento: privacidade. Tirou o uniforme e
vestiu uma camiseta longa. Apesar do calor, não tomou banho.
Abriu a janela pra refrescar e pro
ar circular – o cheiro do inseticida que seu irmão tinha jogado antes de sair
pro serviço empesteava o ambiente e Fabiana era da opinião de que era melhor
ser picada por pernilongo do que morrer intoxicada.
Não conseguiu pegar no sono. Misturou
as caretas e os trejeitos sensuais em frente ao espelho do armário com a lembrança
de todos os trabalhos que já tivera na vida e do quão mal remunerada sempre fora.
“Ralava”, como costumava dizer, desde os catorze anos. Já lá se iam então oito
anos desde o dia em que distribuiu panfletos de uma imobiliária no semáforo a
troco de condução, lanche e uma diária que não daria pra comprar um maço de
cigarros. A partir daí, não parou mais: foi babá, auxiliar de recreação em buffet infantil, faxineira, atendente de
call center, vendedora (primeiro na
rua oferecendo os brigadeiros, as cocadas, os beijinhos e as línguas-de-sogra
que sua vizinha fazia e, depois, trabalhando de carteira assinada numa loja de
chocolates) e, por fim, caixa de uma loja de perfumes no shopping – esse emprego temporário com possibilidades de efetivação
após o período de festas em que Geraldo a encontrou.
Passou a noite indo da gargalhada
diante da própria imagem refletida (caricaturalmente lasciva) ao choro
compulsivo com o rosto enfiado no travesseiro; do sorriso tímido imaginando-se
desejada ao soluço doído temendo-se usada; da boba empolgação à aterrorizante
angústia. No fim, lembrou-se do filme e quis um Edward Lewis para si. Seria
Vivian.
Não gastou os três dias a que teria
direito: ligou pro Geraldo antes de Fabiano voltar e pôs Pretty Woman pra tocar no iPod.
*
Shirley não entendeu o que o japonês
disse. Ela percebeu que foi em Inglês, respondendo a seu cumprimento, mas não
foi capaz de decifrar o que saía da boca do cliente. Algo como “Not now, ruquer”. Era “hooker”, mas as aulas e mais aulas na escola
de idiomas em Uberaba, durante quase meio ano, pareciam não estar lhe servindo
pra muita coisa. O brasileiro era só sorrisos e não estava a fim de ajudá-la.
Os dois rapazes ficaram conversando, sem dar muita bola pra ela, que, ali, em
pé, fazia, sem muita força, e com a mão esquerda um tanto trêmula, um misto de
massagem e carinho (na verdade algo como um aperto desajeitado) no ombro do
oriental: nada que excitasse alguém.
Tinha frequentado as aulas de Inglês
no ano anterior, pra ter um diferencial no currículo. Estudava no período da
manhã, quatro vezes por semana, e de lá saía pra loja de chocolates, onde
ficava das 14h às 22h e ganhava pouca coisa a mais que o valor da mensalidade
do curso.
Sua turma, a “Básico 1 – Intensivo”,
era pequena: ela, duas meninas bastante agitadas e um garoto caladão – todos
com 12 anos de idade e cujos pais eram amigos entre si. Nenhuma das crianças
estava ligando muito pras aulas e Fabiana era a única que parecia estar
aprendendo alguma coisa – embora apresentasse tanta dificuldade nas atividades
orais que tinha se tornado alvo de piadinhas maldosas das duas fedelhas. Pra
completar, o garoto caladão não tirava os olhos de seus seios e a ideia de que
ele se masturbasse pensando nela deixava-a aflita.
Foi Thiago, o professor de Inglês,
quem passou o contato de Fabiana pro Geraldo, ela veio a saber quando telefonou
pra ele naquela manhã de dezembro aceitando a proposta.
-
Ele me disse que você era muito linda e que talvez estivesse precisando de
dinheiro, ou seja...
Fabiana sabia que o professor de Inglês
a achava bonita: foram inúmeras as suas investidas, com cantadas bem
espirituosas e convites animados – e realmente era bem provável que ele
pensasse que “talvez ela estivesse precisando de dinheiro”, já que ela sempre
justificava suas recusas e negativas contando-lhe que estava cansada com a
correria e economizando qualquer trocado, precisando ficar em casa, dormindo,
pra poder acordar no dia seguinte.
Quando o japonês apertou com força sua bunda e
o brasileiro se levantou dirigindo-se ao bar, ela entendeu que era hora.
*
O cliente, que não era um frequentador
habitual da casa, não sabia que todos
os dez quartos estavam vagos e nem passou por sua cabeça que poderia escolher
em qual iriam transar. Consciente disso, Shirley encaminhou-se com ele para a
suíte 4, evitando a suíte 1, em tese a melhor de todas. Ela tomou essa decisão
pensando em si própria, mas também ele saiu ganhando: na suíte 1 com certeza
Shirley não conseguiria trabalhar.
Nada de errado havia na suíte 1,
realmente a melhor de todas: espaçosa, arejada, com banheira de hidromassagem,
televisão LED de 32’’, cama king size
com molas ensacadas... A decoração era simples, quase clean: apenas uma tela, uma réplica da Composition VIII, do
Kandinsky, sem moldura, dependurada na parede em que a cabeceira da cama ficava
encostada. Não fosse o que foi, Shirley teria levado o japonês pra lá.
Não. Na verdade, não fosse o que
foi, Shirley não estaria trabalhando ainda: por conta do que aconteceu na suíte
1 em sua primeira noite de trabalho, em seu segundo dia no Rio a jovem mineira
não conseguiu sair do quarto da pensão em que viveu aquelas duas semanas na
companhia de uma estudante de fisioterapia, de uma auxiliar de necropsia, de
uma empregada doméstica e de uma comissária de voo (as demais meninas novatas
contratadas pra se juntarem ao time de profissionais da casa de prostituição
gerenciada por Geraldo durante os XXXI Jogos Olímpicos da Era Moderna) e, por
isso, teve que compensar a falta comparecendo ao salão na última noite do
bordel – última noite mesmo, pra todos, já que, em razão dos altos
investimentos e do frustrante retorno financeiro com a procura muito abaixo das
sinceras expectativas do calvo bigodudo, o prostíbulo estava falindo. Todas as
meninas tinham sido dispensadas – menos ela, pra não sair devendo.
-
Você vem trabalhar que eu não gosto de ser passado pra trás, ou seja...
Enfim, na suíte 4 o trabalho foi
feito. Nada de espetacular, que a Shirley parecia estar no automático – como
sempre, aliás. Só depois de o cliente se aproximar da porta, já vestido,
dizendo “Thank you” e, quando ela fez
menção de se levantar, “Keep sleeping”,
foi que Fabiana voltou a assumir seu próprio corpo e se deu conta de que tinha
acabado de perder a oportunidade de matar sua curiosidade sobre o tamanho do
pinto dos japoneses: ela não tinha prestado atenção.
*
O primeiro trabalho de Shirley foi o
último dela na suíte 1.
Naquela noite, por conta da
hierarquia (as meninas mais antigas da casa eram as primeiras a irem atender às
palmadas no ar de Geraldo), ela estava sozinha no bar – como na derradeira,
embora com outro estado de ânimo: uma mistura de alegria com ansiedade, medo e
tesão.
Não foram as três palmadas de
Geraldo que a convocaram para o serviço: ela foi ser buscada por uma de suas
colegas – a Ana, justamente a culpada por Shirley não ser Vivian.
Ana era a única com quem Fabiana não
estava se dando naquele começo: ex-farmacêutica de quase quarenta anos, grossa
e desbocada, ela, por ser a mais antiga da casa, sentia-se no direito de
usufruir de regalias como, por exemplo, deixar reservada pra si a suíte 1 mesmo
antes de os clientes chegarem.
Do alto de sua autoridade mais
imposta do que conquistada, Ana proibiu Fabiana de ser Vivian porque achava que
esse nome não pegava.
-
Mas eu escolhi por causa da prostituta mais famosa do mundo!
-
Que prostituta?
-
A do filme da Julia Roberts...
-
Se você gosta de puta de filme, então você vai ser a Shirley.
-
Shirley?
-
É, minha filha. Irma la Douce. E me
agradece. O dia que você ver esse filme, você vai saber quem é que a puta boa
do cinema.
*
Ana – que era Ana na certidão e na
noite porque achava muita frescura isso de escolher nome de guerra –
aproximou-se de Shirley com cara de poucos amigos e, apesar da pequena
distância, perguntou em altos decibéis:
-
Você que é de Uberaba, né?
O cara da primeira mesa da noite
queria uma menina específica – e de nada adiantaram os cinquenta minutos de
agrados e beijinhos e sentadas no colo e mordidinhas na orelha que Ana lhe
infligiu. Ele foi irredutível:
-
Você é mesmo muito gostosa, querida. Mas eu quero a menina nova que veio de Uberaba.
*
Não foi propriamente o desfile da Gisele
Bündchen na abertura das olimpíadas do Rio o que a novata fez entre o bar e a
mesa do cliente, na outra ponta do salão: se, por um lado, assim que entendeu
que o homem tinha dispensado a mais experiente da casa pra passar a noite com
ela, Fabiana levantou-se rapidamente da banqueta alta, repassou as armas de
sedução que treinara em Uberaba, inclusive o sorriso, incorporou Shirley de
forma confiante para a estreia, fez o sinal da cruz e saiu conquistar a
passarela imaginária com passadas firmes e graciosas, por outro lado estancou,
na metade do caminho, assim que percebeu que conhecia quem requeria seus
serviços.
As palmadas insistentes e raivosas
de Geraldo ao pé de seu ouvido fizeram Fabiana abandonar a paralisia e terminar
o trajeto, mas não foram capazes de fazê-la voltar à personagem. Foi como
Fabiana mesmo que ela chegou à mesa de seu primeiro cliente.
-
Oi, Thiago.
Fosse mais perspicaz e talvez
Fabiana não se surpreendesse tanto com o fato de seu antigo professor de Inglês
ser frequentador da casa pra qual ele a indicara.
-
Espertinho você, hein? Hoje vai ter o que sempre quis, né?
Mas a canalhice não tem limites.
Thiago não foi até o Rio de Janeiro pra comer a menina que sempre lhe dera
tocos. Ele foi até lá pra terminar a vingança que preparou pra vadia que um dia
se achou no direito de recusar suas investidas.
-
Não sou eu quem vai te traçar não, Fabi. Um amigo meu que duvidou que você
tinha vindo pro Rio pra dar a bunda é que vai te comer. Ele tá pra chegar.
*
Fabiana não conseguiu falar nada
naquela noite: tampouco conseguiu escolher o que fazer. Apenas seguiu as ordens
de Fabiano, movimentando-se maquinalmente. Na suíte 1, vaga por Ana ter sido recusada,
ele a mandou ficar pelada enquanto lhe dizia que, se ousasse voltar pra Uberaba,
o pai ia ficar sabendo que tipo de estágio ela tinha ido fazer na capital
carioca.
Fabiano colocou-a de quatro e, com
estocadas firmes e constantes, sem camisinha, sem nenhum lubrificante,
estraçalhou o ânus da irmã que, indiferente à dor física, não tirou a vista do
quadro dependurado na parede, nem quando o coito acabou e o animal que a
machucava cuspiu em suas costas. Ela pensava no quadro.
“Esses círculos devem ser o sol que
aparece toda hora. Esses triângulos devem ser as montanhas. Esses quadrados
meio tortos um em cima do outro devem ser os prédios. Ali são os anéis
olímpicos. Acho que tá faltando um. Ali são as nuvens. O jogo da velha acho que
são as calçadas. Isto daqui deve ser o Rio de Janeiro. O meu Rio de Janeiro”.