terça-feira, 29 de março de 2016

A literatura é o lugar do impossível



Agora são 3h da manhã. Desisti de dormir.

Decidi descrever aqui os fatos ocorridos ontem, 28/3, de maneira objetiva – mesmo que não sucinta. Despenderei todos os meus esforços no intuito de ser o mais imparcial possível: minimizarei ao extremo aquilo que possa ser fruto de minha interpretação ou de conceitos pré-concebidos que eu tenha sobre os envolvidos na tragédia (a rigor apenas um) e os que de alguma forma frequentaram esse meu dia tão diferente. Espero conseguir, assim, organizar meus pensamentos e entender o que de fato ocorreu. E, mais importante, por que ocorreu.

Seguirei a ordem cronológica e não abrirei mão dos detalhes.

Acordei, sozinha, às 7h. Abri os olhos, espreguicei-me e rolei para o outro lado da cama – o lado do meu marido, o Jorge. O lado há cinco dias desocupado.

Na parede de trás do criado-mudo do meu marido há uma tomada: nela deixei meu celular conectado, carregando durante a noite. O primeiro susto do dia: estiquei meu braço para alcançar o aparelho e percebi que ele não estava lá. Senti um calafrio. Moro no oitavo andar de um prédio que conta com segurança 24h; tranco, com chave tetra, inclusive, as duas portas de entrada; e deixo fechadas todas as janelas, travadas, mesmo em noites quentes, pois uso o ar-condicionado – ainda assim, um absurdo e equivocado presságio passou pela minha cabeça: temi que alguém tivesse invadido o apartamento para assaltá-lo.

Em cima do móvel onde deveria estar meu celular, apenas o porta-retratos com a foto do beijo no dia do casamento e meu relógio de pulso. Foi ele, meu relógio, quem me informou que já eram 7h. Eu estava atrasada e por um instante me esqueci do sumiço do celular e de toda essa preocupação infundada de assalto: a constatação de que talvez não desse tempo de me depilar embaralhou de tal maneira minhas ideias que o que fiz foi, de um salto, chegar ao banheiro da suíte. Já estava completamente desperta, consciente.

Virei-me para apoiar o pé esquerdo no bidê e começar a depilação. O segundo susto do dia: vi que meu marido, preso havia quatro dias numa operação da polícia federal, estava sentado junto à parede, a cabeça pendendo para frente. Soltei um grito. Ele não acordou. Chamei-o. Pressenti. Toquei-o e confirmei minha suspeita: Jorge estava morto.

Uma vontade irrefreável de urinar impeliu-me a deixar para resolver depois o que fazer com o corpo dele. Joguei a gilete na pia e levantei a tampa do vaso sanitário. Antes de me sentar, percebi que meu celular estava dentro da privada, afogado – mas não tive tempo para arrancá-lo de lá: mijei e depois, sem querer, no automático, puxei a descarga.

O celular voltou, regurgitado pelo encanamento. Retirei-o e tentei ligá-lo. Queimou.

Quando me dei conta de onde havia enfiado a mão para tentar recuperar o aparelho, senti ojeriza. Lavei as mãos imediatamente, com sabonete e álcool gel.

O fato de ter sujado a mão, porém, trouxe-me coragem para mexer no cadáver do Jorge. Virei-o e revirei-o. Inspecionei-o tintim por tintim. Não tardei muito para terminar a operação: meu marido era minúsculo. O corpo ainda estava quente. Não havia nenhum sinal de corte, nenhuma ferida. Ele não tinha babado, nem espumado, nem nada.

Peguei-o no colo, levei-o até a varanda e joguei-o.

Não esperei Jorge chegar ao térreo: voltei ao banheiro, depilei minhas pernas e fui para a ducha. Esqueci-me de que estava atrasada, demorei.
Sequei meu cabelo com a toalha mesmo: não me arrependo nem por um minuto de tê-lo cortado tão curto.

Vesti a roupa que já tinha deixado preparada antes-de-ontem: calcinha branca, vestido azul, cinto e sapatos marrons. Sem sutiã, claro.

Coloquei o relógio no pulso e aceitei que já não daria tempo de chegar na hora a meu compromisso: eram 8h. Resolvi passar um café e torrar duas fatias de pão de forma, para comê-las com queijo cottage. Só depois do último gole e da última mordida é que o interfone tocou.

- Dona Ana, aconteceu uma desgraça!

Foi isso, acho, que o porteiro disse. Gritou, na verdade. Não vou dizer aqui o que penso sobre esse porteiro, prometi não me valer de meus conceitos e só me ater aos fatos.

Imaginei, obviamente, que ele falaria alguma coisa sobre o corpo do Jorge estatelado na calçada e já ia me preparando para dizer que isso era um absurdo, pois meu marido, como toda a vizinhança já sabia, estava preso, quando ele completou sua fala:

- A cachorrinha da Dona Marie comeu o canário do Seu Manuel.

O Seu Manuel é meu pai. Ele é paraplégico e mora no térreo: transformamos o salão de festas em apartamento para ele. A reforma custou uma fortuna; convencer os demais moradores do prédio a abrirem mão do salão que nunca usavam custou outra. Nada comparável, porém, ao preço do Governador.

- Não tenho coragem de contar pra ele... Será que a senhora não poderia fazer o favor de...

Interrompi-o e contei que estava com pressa: não tinha tempo para conversar com meu pai sobre isso.

Só me faltava.

Liguei do fixo para o Altair, pedi desculpas e disse que não conseguiria chegar no horário por conta de um imprevisto. Ele não foi nada compreensivo e disse que então eu não precisava mais ir. Melhor assim. Tirei minha roupa e voltei para a cama, pelada. 

Ele não foi nada compreensivo mesmo, não é uma interpretação minha.

Não consegui dormir de imediato: comecei a espirrar. Então desliguei o ar-condicionado, o que foi bom para mim. Pouco depois, no entanto, e mesmo nua, comecei a suar de calor. Abri uma janela para entrar uma brisa.

Não foi uma brisa que entrou.

Ainda antes de chegar de volta à cama, o terceiro susto do dia. Recebi uma gravata. Ou quase: alguém que não conseguiu alcançar meu pescoço me apertava com o braço.  Era o Jorge.

Demorei a perceber que aquilo era uma tentativa de me imobilizar: achei que era um abraço. Quando me dei conta, (meu marido gritava “Vagabunda”, “vou matar você”, “você vai ver”, “desgraçada” e coisas do tipo), desvencilhei-me com bastante facilidade. Deixei-o abobado com uma cotovelada no queixo. Novamente, faz-se necessário que eu reforce que não estou interpretando nada: ele ficou mesmo abobado.

Impus-lhe uma conversa, mas não consegui que ele me explicasse o porquê de o meu celular ter sido jogado na privada. Interroguei-o, belisquei-o, estapeei-o, esmurrei-o. E ele, embora seja um fracote, não abriu a boca sobre o telefone móvel. Aguentou firme.

Mudei a tática. Ofereci delação premiada. Não adiantou. Decidi, então, abordar questões periféricas: perguntei-lhe sobre como ele tinha feito, depois de ter despencado oito andares, para entrar pela janela. Jorge permaneceu calado até que eu lambi sua orelha. Ele cedeu e disse que não chegou a cair no térreo: caiu na varanda do vizinho de baixo e depois escalou o andar.

- Por que você escalou o andar? Não sabe que sempre travo a janela? Não teria sido mais fácil avisar o vizinho de que você estava na varanda dele, atravessar seu apartamento, pegar o elevador e tocar a campainha?

- Não.

Sua petulância me irritou. Esqueci-me de indagar-lhe a propósito de sua posição no banheiro (intriga-me, sobremaneira, neste momento em que escrevo, a cabeça dele pendendo para frente naquela hora).

Olhei meu relógio. Eram 8h 30min. Amordacei-o e furei seus olhos com minhas unhas. Quebrei seu pescoço. Fui à cozinha e peguei sua faca de churrasco. Amolei-a. Tentei esquartejá-lo. Não soube, no entanto, como fazê-lo. Foi sangue para todos os lados, mas a cabeça não se separou do corpo. Decidi me desfazer do defunto por inteiro. Mas não ia lançá-lo da varanda novamente: não adianta ficar dando murro em ponto de faca.

Joguei-o na privada e puxei a descarga. O encanamento não o regurgitou: engoliu-o como traga merda. Não estou dizendo que o Jorge é merda – apenas estou sendo objetiva na descrição do trabalho da descarga.

O Jorge não vive mais neste mundo. Dentro de poucas palavras, você também não: sua realidade lhe espera. Isto é ficção.

No fim das contas, de nada adiantou eu escrever este relato: continuo sem entender nada.

Um abraço,


Ana.