Agora são 3h da manhã. Desisti de
dormir.
Decidi descrever aqui os fatos ocorridos
ontem, 28/3, de maneira objetiva – mesmo que não sucinta. Despenderei todos os meus
esforços no intuito de ser o mais imparcial possível: minimizarei ao extremo
aquilo que possa ser fruto de minha interpretação ou de conceitos
pré-concebidos que eu tenha sobre os envolvidos na tragédia (a rigor apenas um)
e os que de alguma forma frequentaram esse meu dia tão diferente. Espero
conseguir, assim, organizar meus pensamentos e entender o que de fato ocorreu.
E, mais importante, por que ocorreu.
Seguirei a ordem cronológica e não
abrirei mão dos detalhes.
Acordei, sozinha, às 7h. Abri os olhos,
espreguicei-me e rolei para o outro lado da cama – o lado do meu marido, o Jorge.
O lado há cinco dias desocupado.
Na parede de trás do criado-mudo do meu
marido há uma tomada: nela deixei meu celular conectado, carregando durante a
noite. O primeiro susto do dia: estiquei meu braço para alcançar o aparelho e
percebi que ele não estava lá. Senti um calafrio. Moro no oitavo andar de um
prédio que conta com segurança 24h; tranco, com chave tetra, inclusive, as duas
portas de entrada; e deixo fechadas todas as janelas, travadas, mesmo em noites
quentes, pois uso o ar-condicionado – ainda assim, um absurdo e equivocado presságio
passou pela minha cabeça: temi que alguém tivesse invadido o apartamento para
assaltá-lo.
Em cima do móvel onde deveria estar meu
celular, apenas o porta-retratos com a foto do beijo no dia do casamento e meu
relógio de pulso. Foi ele, meu relógio, quem me informou que já eram 7h. Eu estava
atrasada e por um instante me esqueci do sumiço do celular e de toda essa
preocupação infundada de assalto: a constatação de que talvez não desse tempo
de me depilar embaralhou de tal maneira minhas ideias que o que fiz foi, de um
salto, chegar ao banheiro da suíte. Já estava completamente desperta,
consciente.
Virei-me para apoiar o pé esquerdo no
bidê e começar a depilação. O segundo susto do dia: vi que meu marido, preso
havia quatro dias numa operação da polícia federal, estava sentado junto à
parede, a cabeça pendendo para frente. Soltei um grito. Ele não acordou.
Chamei-o. Pressenti. Toquei-o e confirmei minha suspeita: Jorge estava morto.
Uma vontade irrefreável de urinar
impeliu-me a deixar para resolver depois o que fazer com o corpo dele. Joguei a
gilete na pia e levantei a tampa do vaso sanitário. Antes de me sentar, percebi
que meu celular estava dentro da privada, afogado – mas não tive tempo para arrancá-lo
de lá: mijei e depois, sem querer, no automático, puxei a descarga.
O celular voltou, regurgitado pelo
encanamento. Retirei-o e tentei ligá-lo. Queimou.
Quando me dei conta de onde havia enfiado a mão para tentar recuperar o aparelho, senti ojeriza. Lavei as mãos imediatamente, com sabonete e álcool gel.
O fato de ter sujado a mão, porém,
trouxe-me coragem para mexer no cadáver do Jorge. Virei-o e revirei-o.
Inspecionei-o tintim por tintim. Não tardei muito para terminar a operação: meu
marido era minúsculo. O corpo ainda estava quente. Não havia nenhum sinal de
corte, nenhuma ferida. Ele não tinha babado, nem espumado, nem nada.
Peguei-o no colo, levei-o até a varanda
e joguei-o.
Não esperei Jorge chegar ao térreo: voltei
ao banheiro, depilei minhas pernas e fui para a ducha. Esqueci-me de que estava
atrasada, demorei.
Sequei meu cabelo com a toalha mesmo:
não me arrependo nem por um minuto de tê-lo cortado tão curto.
Vesti a roupa que já tinha deixado
preparada antes-de-ontem: calcinha branca, vestido azul, cinto e sapatos
marrons. Sem sutiã, claro.
Coloquei o relógio no pulso e aceitei
que já não daria tempo de chegar na hora a meu compromisso: eram 8h. Resolvi
passar um café e torrar duas fatias de pão de forma, para comê-las com queijo
cottage. Só depois do último gole e da última mordida é que o interfone tocou.
- Dona Ana, aconteceu uma desgraça!
Foi isso, acho, que o porteiro disse.
Gritou, na verdade. Não vou dizer aqui o que penso sobre esse porteiro, prometi
não me valer de meus conceitos e só me ater aos fatos.
Imaginei, obviamente, que ele falaria
alguma coisa sobre o corpo do Jorge estatelado na calçada e já ia me preparando
para dizer que isso era um absurdo, pois meu marido, como toda a vizinhança já
sabia, estava preso, quando ele completou sua fala:
- A cachorrinha da Dona Marie comeu o
canário do Seu Manuel.
O Seu Manuel é meu pai. Ele é
paraplégico e mora no térreo: transformamos o salão de festas em apartamento
para ele. A reforma custou uma fortuna; convencer os demais moradores do prédio
a abrirem mão do salão que nunca usavam custou outra. Nada comparável, porém,
ao preço do Governador.
- Não tenho coragem de contar pra ele...
Será que a senhora não poderia fazer o favor de...
Interrompi-o e contei que estava com
pressa: não tinha tempo para conversar com meu pai sobre isso.
Só me faltava.
Liguei do fixo para o Altair, pedi
desculpas e disse que não conseguiria chegar no horário por conta de um
imprevisto. Ele não foi nada compreensivo e disse que então eu não precisava
mais ir. Melhor assim. Tirei minha roupa e voltei para a cama, pelada.
Ele não foi nada compreensivo mesmo, não
é uma interpretação minha.
Não consegui dormir de imediato: comecei
a espirrar. Então desliguei o ar-condicionado, o que foi bom para mim. Pouco
depois, no entanto, e mesmo nua, comecei a suar de calor. Abri uma janela para
entrar uma brisa.
Não foi uma brisa que entrou.
Ainda antes de chegar de volta à cama, o
terceiro susto do dia. Recebi uma gravata. Ou quase: alguém que não conseguiu
alcançar meu pescoço me apertava com o braço. Era o Jorge.
Demorei a perceber que aquilo era uma
tentativa de me imobilizar: achei que era um abraço. Quando me dei conta, (meu
marido gritava “Vagabunda”, “vou matar você”, “você vai ver”, “desgraçada” e
coisas do tipo), desvencilhei-me com bastante facilidade. Deixei-o abobado com
uma cotovelada no queixo. Novamente, faz-se necessário que eu reforce que não
estou interpretando nada: ele ficou mesmo abobado.
Impus-lhe uma conversa, mas não consegui
que ele me explicasse o porquê de o meu celular ter sido jogado na privada. Interroguei-o,
belisquei-o, estapeei-o, esmurrei-o. E ele, embora seja um fracote, não abriu a
boca sobre o telefone móvel. Aguentou firme.
Mudei a tática. Ofereci delação
premiada. Não adiantou. Decidi, então, abordar questões periféricas:
perguntei-lhe sobre como ele tinha feito, depois de ter despencado oito
andares, para entrar pela janela. Jorge permaneceu calado até que eu lambi sua
orelha. Ele cedeu e disse que não chegou a cair no térreo: caiu na varanda do
vizinho de baixo e depois escalou o andar.
- Por que você escalou o andar? Não sabe
que sempre travo a janela? Não teria sido mais fácil avisar o vizinho de que
você estava na varanda dele, atravessar seu apartamento, pegar o elevador e
tocar a campainha?
- Não.
Sua petulância me irritou. Esqueci-me de
indagar-lhe a propósito de sua posição no banheiro (intriga-me, sobremaneira,
neste momento em que escrevo, a cabeça dele pendendo para frente naquela hora).
Olhei meu relógio. Eram 8h 30min. Amordacei-o
e furei seus olhos com minhas unhas. Quebrei seu pescoço. Fui à cozinha e
peguei sua faca de churrasco. Amolei-a. Tentei esquartejá-lo. Não soube, no
entanto, como fazê-lo. Foi sangue para todos os lados, mas a cabeça não se
separou do corpo. Decidi me desfazer do defunto por inteiro. Mas não ia lançá-lo
da varanda novamente: não adianta ficar dando murro em ponto de faca.
Joguei-o na privada e puxei a descarga.
O encanamento não o regurgitou: engoliu-o como traga merda. Não estou dizendo
que o Jorge é merda – apenas estou sendo objetiva na descrição do trabalho da
descarga.
O Jorge não vive mais neste mundo.
Dentro de poucas palavras, você também não: sua realidade lhe espera. Isto é
ficção.
No fim das contas, de nada adiantou eu
escrever este relato: continuo sem entender nada.
Um abraço,
Ana.
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