terça-feira, 13 de junho de 2017

XAROPE


Pro seu aniversário de um ano, o andar térreo do sobrado em que Fiácrio morava foi, em quase sua totalidade, alegremente decorado. Pelas paredes brancas da imensa sala de estar, distribuíram-se imagens em isopor de diversas das personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo: tinha a Emília, o Pedrinho, a Narizinho, o Visconde de Sabugosa, o Rabicó, a Cuca, o Saci Pererê... e até a dona Aranha! Tia Nastácia não tinha, e nem o Tio Barnabé, mas muitos dos convidados acabaram confundindo a empregada da família e seu marido (que foram chamados pra ajudar no evento com um disfarçado convite em papel cartão para a festa, em cujo envelope apareciam seus nomes, o que livrou Ana Maria e Haroldo de pagarem hora extra para ela e uma diária para ele) com os dois.  
             
O bolo de milho com calda de chocolate foi encomendado da boleira mais careira da cidade vizinha, uma cidade quase cosmopolita para os padrões da região, com seus quase cinquenta mil habitantes, que o entregou com o Zé Carijó fazendo as vezes de vela pouco antes do horário combinado, num momento em que Ana Maria se arrumava em sua suíte no andar de cima, Haroldo ainda não havia chegado de sua visita ao deputado da região (também conhecido como Amanda), o marido da empregada varria o quintal que se sujara mais do que o previsto com a ventania da manhã, Higino, o irmão mais velho de Fiácrio, brincava de esvaziar o saco ao que o marido da empregada recolhia as folhas de mangueira que varria e a empregada terminava de enrolar os brigadeiros (foi esta, aliás, quem atendeu a boleira e colocou o bolo na mesa da cozinha).

Próximo dali, Álvaro, o doutor, enquanto tomava um antiácido para tentar aplacar a raiva que sentia pelo fato de o filho do amigo fazer aniversário no mês de novembro, interrompendo suas férias na biblioteca de casa, previu que a partir de agora isso ocorreria para todo o sempre e decidiu abrir mais um envelopinho e dissolver seu conteúdo em outro copo de água.
             
Ninguém estava atento ao aniversariante que, aproveitando-se do instante propício, escalou desengonçadamente a grade do berço e a desgalgou pelo lado de fora, soltando-se no chão fofamente atapetado de seu quarto. Não chorou. Não gritou. Não esperneou. Tirou uma pestana rápida e, não mais do que cinco minutos depois de ter sido agraciado com a liberdade, acordou e alocou todos os seus esforços na fuga do quarto. Engatinhando com agilidade (algo, a agilidade, que não seria, no porvir, uma de suas características mais destacadas), cruzou o umbral da porta e alcançou o corredor, dirigindo-se à suíte de seus pais, em cujo banheiro sua mãe secava os cabelos recém-lavados, admirando seu novo brinquedinho: um secador que emitia íons negativos, neutralizando a eletricidade estática e fechando, assim, as cutículas dos fios.
             
No banheiro da suíte, fixado na parede, a um metro e sessenta do solo, dificultando o acesso das crianças, havia um armarinho branco de duas portas chamado por Ana Maria e Haroldo de farmacinha, no qual eles mantinham uma série de medicamentos (xaropes, comprimidos, pastilhas, pomadas...) – para si próprios e para os filhos: Mucosolvan, Melagrião, Aspirina, Dorflex, Advil, Novalgina, Paracetamol, Omeprazol, Cewin, Ponstan, Flogoral, Luftal, Minancora, Hypoglós, Mercúrio Cromo, Nenê Dent...

O Xarope de Ipeca, no entanto, não ficava lá.
          
Comprado às escondidas do marido por Ana Maria, o Xarope de Ipeca era uma das últimas cartadas da professora de dança no combate às gorduras que se acumularam em seu corpo esguio e dele se recusavam a ausentar-se após sua segunda gravidez. Consciente de que, se não o consumisse de forma clandestina, teria que enfrentar discussões homéricas com Haroldo (e perdê-las todas, posto que, ela sabia, os argumentos do marido seriam mais fortes do que os seus, não por méritos dele, mas por serem expressão da verdade), Ana Maria guardava o vidro do medicamento emético na gaveta de baixo de seu criado-mudo.

Fiácrio abriu a gaveta, interessou-se pelo frasco, destampou-o com alguma dificuldade, levou-o à boca e verteu-o, engolindo todo o seu conteúdo. O gosto não lhe aprouve e ele jogou com força o recipiente para baixo da cama dos pais, depois de tornar a tampá-lo e antes de dirigir-se novamente para seu quarto, onde, ao chegar perto do próprio berço, pôs-se a regurgitar.

Toda essa operação não tardou mais de dois minutos para ser concluída – o tempo que o ruído do secador (ironicamente o mais silencioso do mercado, segundo anunciava-se) manteve seu nível mais alto, impedindo Ana Maria de escutar qualquer coisa que não fosse esse infernal zumbido a que é exposta a cada vez que sai do banho.

Vestindo seu roupão felpudo, ela gritou de lá de cima que era hora de a empregada acordar o aniversariante e vesti-lo para a festa, pois os convidados não tardariam em chegar. Foi então a empregada quem encontrou Fiácrio desacordado, mole no chão, com o pijama todo vomitado.

“DonAna, acode!”

 *

Os convidados, na verdade, haviam começado a chegar pouco antes daquele momento, mais ou menos juntos e cerca de dez minutos antes da hora marcada no convite, o oposto daquilo que Ana Maria considerava (e ainda considera) ser o mais elegante, ou seja, chegar sempre dez minutos depois da hora marcada, caso o compromisso esteja dentro da esfera do social – e o marido da empregada acabou assumindo de improviso o posto de recepcionista para o qual sua esposa se preparara treinando diante do espelho de seu quarto durante a noite anterior e de cuja performance ansiava poder se gabar na próxima vez que se encontrasse com as amigas.

“DonAna, acode!”

Mas DonAna não acudiu a contento. Ao ver seu filho estatelado ao lado do berço, desesperou-se.

Um pouco atrapalhado na recepção dos convidados, o marido da empregada encaminhava-os para a sala de estar e dizia-lhes que se acomodassem, pois logo a patroa desceria para encontrar-se com eles. Embora demonstrando certa contrariedade, quase todos colaboraram com o humilde e cortês criado, atendendo a seu pedido de que se sentassem nos sofás e poltronas espalhados pelo imenso cômodo, que o menos tacanho chamaria, sem cometer nenhum impropério, sejamos justos, de salão – e não de sala de estar (assim conhecido apenas por existir, contíguo à sala de jantar, um outro cômodo, duas vezes maior que este em que todos se encontravam, e onde se realizavam os coquetéis e as festas dos adultos, embalados pelos sons que saíam do piano de cauda, que já se chamava salão).

Ninguém, no entanto, permaneceu por muito tempo no local. Contra o berro proferido por Ana Maria (“SOCORRO!!!”), o marido da empregada não pôde fazer nada. Atônito, ele colocou-se ao pé da escada – mas o corpo de um não judeu judiado não é barricada suficiente para o exército de fofoqueiros que decidiu atropelá-lo em busca de ter o que contar no dia seguinte. Em coisa de segundos, todos (mães e algum pai de alunas do CCM, a manicure de Ana Maria, a salgadeira de quem haviam encomendado as frituras para a festa e seu filho mais velho, a costureira da cidade e seu marido alfaiate, o tintureiro da região, o casal de donos da padaria da rua de baixo e ainda aqueles que Ana Maria juraria que chegariam até mais do que dez minutos depois da hora marcada no convite – não muito mais também, pois meia hora de atraso já começa a indicar deselegância – tais quais o jovem dentista da cidade e sua namorada fisioterapeuta, a Secretária de Educação e seu marido, Diretor da Escola Municipal – ainda conhecida por lá, carinhosamente, como Grupo Escolar – o jornalista responsável pelas páginas de política, esportes, eventos sociais, passatempo e esoterismo do jornal quinzenal da cidade e o Prefeito Municipal, sua filha pós-adolescente e a amiguinha da filha pós-adolescente do Prefeito Municipal, que era também sua segunda esposa) se encontravam no quarto da criança, que, já sem seu sujo macacãozinho, estava no colo da empregada, enquanto Ana Maria chorava compulsivamente, molhando seu roupão e deixando à mostra sua interminável perna esquerda, por conta da posição que adotou para manter-se sentada junto à parede, embaixo da janela.

Único preocupado, além de sua esposa, em resolver a situação, o marido da empregada, que já havia gasto muito de sua débil faceta proativa na imprevista tarefa de receber e manter entretidos os convidados enquanto a “patroa” e a patroa da “patroa” não desciam para assumir seus postos, não conseguiu pensar em oferecer-se para levar o menino ao Pronto Socorro, apesar de sua Brasília estar estacionada na quadra de trás da casa. O que fez foi correr pro quarto do casal, pegar o anacrônico telefone fixo sem fio na cômoda da Senhora e de lá ligar para o celular do pai de Fiácrio.

Como sói acontecer quando mais precisamos que algo dê certo, tal atitude não funcionou da maneira que o nervoso quase herói esperava. Haroldo, embriagado, estava no volante e não atendeu o celular, em respeito à lei que diz ser proibido falar ao telefone enquanto se está dirigindo.

Diante disso, o marido da empregada viu-se obrigado a deixar um recado, e o fez do jeito menos desastrado que as circunstâncias lhe permitiam:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

Só depois de estacionar o Alfa Romeo, não sem alguma dificuldade, na vaga a ele destinada na garagem coberta de sua casa, é que Haroldo foi ver de que se tratavam os dois avisos de chamada perdida que recebera enquanto conduzia seu carro na estrada que une o lar doce lar de Amanda, que ficava na cidade vizinha, aquela quase cosmopolita e onde também morava a boleira que fornecera o bolo da festa de Fiácrio, e sua própria residência.

Escolheu ouvir primeiro a gravação gerada pelo contato “Deputado”, visto que a outra (vinda do contato “Casa”), ele suspeitava conter a voz alterada de Ana Maria exigindo que se apressasse porque a porra da festa da porra do filho dele já tinha começado:

“Oi, amor... Só queria dizer que esses dez minutos sem você já estão parecendo uma eternidade... Saudades mil! Você continua amando sua Amanda?”

Meio enfastiado pela soma do uísque com a cada vez mais recorrente infantilidade da amiga colorida, Haroldo passou a mão pela testa e deu uma respirada profunda, antes de ouvir o outro recado que a caixa postal de seu celular guardava:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

A castigada voz masculina que chegou aos ouvidos do Secretário fê-lo desconcentrar-se e não entender de imediato o recado. Ele tratou de certificar-se de que o contato era “Casa”, pois chegou a pensar que, dado seu estado de incipiente embriaguez, pudesse ter lido errado o que aparecera no visor do seu telefone móvel. Mas não, era mesmo do contato “Casa” que vinha a chamada. Ouviu de novo:

“Doutor, aqui aconteceu uma tragédia. Não sei o que fazer. Venha logo, por favor. Muito obrigado.”

Não reconheceu a voz e sua torpeza se dissipou instantaneamente. Ao mesmo tempo, sua pele empapou de suor, pelo qual o corpo passou a expelir o álcool ingerido havia poucos momentos.

Entrou correndo em casa e percebeu o murmurinho – ou, mais que isso, a conversa agitada no andar de cima – e subiu a escada de par em par, valendo-se do corrimão para tomar impulso com a mão esquerda e da parede para fazê-lo com a direita.

Ao ver o amontoado de gente no quarto de seu filho, Haroldo não conteve o desespero. O coração acelerado e a respiração entrecortada não seguraram o berro que emergiu de suas entranhas:

“Tragédia?”

O jornalista, que não escutara a mensagem gravada pelo marido da empregada no celular do Secretário que estimulara este a usar a palavra Tragédia em altos decibéis, mas que sim, por outro lado, já havia notado que o menino respirava e até abria os olhinhos no colo da empregada, sorriu e disse-lhe que não era pra tanto, afirmando que tragédia era maremoto e que aquilo ali não passava de uma insignificante marola.

Sem entender nada, mas julgando perceber no sorriso do afetado periodista um desdém equivalente ao que ele próprio dedicava a quem o emitia, Haroldo bradou ainda mais alto:

“Vai tomar no cu, seu bosta!”

Como são as coisas, no fim Haroldo virou Rita Lee – pra pedir silêncio eu berro – e todos se calaram.

O silêncio (mais do que o grito que o ocasionou) fez com que Ana Maria saísse do torpor em que se enclausurara até aquele instante. Levantando-se com aparente dificuldade, apoiando-se na parede atrás de si, sem tirar os olhos dos olhos do marido, que lhe apareciam por trás do amontoado de gente, ela disse, em baixo tom, mas pausadamente, com firmeza:

“A filha da puta da assassina da empregada derrubou meu filho no chão. Ela matou o meu filho.”

Nem a mãe da empregada prestava serviços sexuais nem a empregada tinha derrubado o filho de Ana Maria no chão e nem o filho de Ana Maria tinha morrido, mas ela acreditava piamente nisso quando soltou a recriminação aos hábitos alcoólicos do marido que Fiácrio escutou pelado, enquanto todos os demais estavam vestidos:

“E você enchendo a cara com o imbecil do Deputado enquanto seu filho morria!!!”

Nesse momento, apesar de a porta da sala estar escancarada, soou a campainha: Dr. Álvaro, o mais elegante dos convidados, chegava vinte e cinco minutos depois do horário marcado no convite.