segunda-feira, 10 de abril de 2017

LICITAÇÃO

A polícia acendeu as luzes das viaturas e fez soar as sirenes quando o Cássio abriu a maleta. Não deu nem tempo de eu perceber que só havia dinheiro na fileira de cima e que o que havia embaixo era jornal cortado no formato de cédulas: foi eu virar pra janela que dava pra rua e a porta do escritório se abriu atrás da gente, com os gritos do policial precedendo seu corpo. Tinha caído numa emboscada.

Entrei na política a convite do Gérson Paraná, o secretário. Foi mais na amizade, mesmo: eu nunca tive pretensões de atuar nesse campo.

A gente se conheceu na faculdade de Letras: ele queria ser professor e eu, revisor de texto. Minha vontade era trabalhar com algo que não exigisse muito contato com outras pessoas – o oposto do que acontecia com ele, que de tão desinibido se meteu no movimento estudantil.

Pra ser sincero, o cara era bom mesmo. Votei nele pra presidente do Centro Acadêmico. Todos os estudantes aprovamos a gestão do Paraná: no período de um ano, ele organizou eventos culturais e esportivos, liderou campanhas pra levantar donativos pra pessoas em situação de rua, implementou o departamento de assistência jurídica pros alunos inadimplentes terem respaldo na negociação com a universidade, adquiriu computadores novos pra então capenga sala de informática, encampou a greve dos estudantes contra o reajuste das mensalidades... Enfim, dava pra ver que levava jeito.

Eu não me metia nessas coisas, mas éramos próximos: havia algo que nos unia. Nos primeiros anos do curso, nós dois éramos os únicos torcedores do Coritiba a estudarmos lá naquele tempo. Se bobear, éramos os únicos torcedores do Coritiba a viver na cidade. Hoje em dia não é mais assim, o filho mais velho dele também é coxa-branca. O caçula é bugrino, que nem a mãe dele.

Era só de futebol que a gente conversava – e isso foi o suficiente pro Paraná (que eu chamava de Gérson, ao contrário dos outros) me convidar pra trabalhar na campanha dele pra vereador no ano passado, uns poucos meses depois de nos formarmos.

Lembro bem como foi. Ele me ligou de manhã e me perguntou se a gente podia se encontrar pra tomar uma cerveja. Disse que tinha uma coisa pra me pedir.

Fomos ao mesmo bar onde nos quatro anos de faculdade ficávamos relembrando as defesas do Rafael, os gols do Lela e do Marildo (especialmente aquele de cobertura contra o Flamengo no Maracanã) e as entrevistas do Ênio Andrade, que tornaram inesquecível pra gente a campanha do título brasileiro de 1985 – enquanto esvaziávamos as garrafas de Brahma que o garçom insistia em colocar na nossa mesa.

Mas nesse dia bebi sozinho: o Gérson pediu um suco de laranja.

Como de costume, ele falou sem parar – só que dessa vez aos soluços.

— Preciso de alguém de confiança, Marcão. Tem muita falcatrua na política. Você vai ser o meu escudo, quem não vai deixar a lama me atingir. Quem vai dizer não pros esquemas. A gente vai fazer muita coisa pra quem tá na pior. É nossa chance. É a chance da periferia. Já pensou um cara honesto lá dentro? Vai dar pra fazer muita coisa por quem precisa. Porra, Marcão!

Aceitei com a condição de que ele nunca me pedisse pra exercer cargos no partido (ele quis que eu me filiasse), dar entrevistas, fazer discursos, candidatar-me a alguma coisa.

— Só topo se for pra trabalhar diretamente com você - falei depois da quarta Brahma e já enrolando a língua.

Na campanha, eu, que nunca me dei bem com números, fiquei responsável pelo caixa: criei uma cacetada de tabela, computei todas as doações (que eram pequenas, mas de uma porrada de gente), negociei os preços com as gráficas (sem fazer nada “por fora”), arregimentei e paguei os cabos eleitorais em dia (mesmo sabendo que muitos deles votaram num tal Pastor Emanuel, que fazia sucesso nos bairros mais afastados até que foi flagrado, depois da eleição, torrando o dinheiro dos fiéis com luxo e mulheres – mas se bem que quem sou eu pra falar de flagra com dinheiro dos outros, né?) e no final entreguei as planilhas todas sem que houvesse um centavo de diferença. A prestação de contas foi aprovada.

Ganhamos – mas o Gérson não assumiu o cargo de vereador, pois o prefeito eleito era da coligação que nosso partido compunha e ele foi nomeado secretário de educação.

Se fosse mais esperto, o secretário não teria me levado junto – ele teria sacado logo o motivo pelo qual eu aceitei trabalhar no gabinete da secretaria e teria chamado outra pessoa. Só um cara como o Gérson pra achar que eu acreditaria que seria uma boa dois jovens recém formados tocarem uma pasta tão visada e desejada quanto a da educação, num município deste tamanho, num mandato de um prefeito que negocia cargo de primeiro escalão com os partidos que compuseram sua chapa pra manter o apoio da base de sustentação. Nunca: não foi por idealismo e nem por falta de capacidade de ler o mundo que eu topei. Eu aceitei ser o chefe de gabinete do secretário de educação porque eu não sei dizer não. E ele precisava de alguém que soubesse dizer não.

Foram muitos os que se sentiram frustrados com a escolha do prefeito. Ex-reitores da universidade da cidade, professores com longa carreira, doutores em educação... e quem assumiu o posto foi um cara que nem fez trinta anos! Um líder estudantil de meia tigela sem nenhuma experiência na administração pública! Nem a estrondosa votação pra vereador parecia gabaritar meu amigo ao cargo.

E tem muita lama na política, mesmo. E eu não sei dizer não, mesmo.

Não foi pensando na grana, não foi entendendo que aquilo só iria agilizar os trâmites e que no final das contas eu ganharia um justo agrado por ter feito a população ser beneficiada. Não. Eu só concordei em fraudar a licitação porque não sei dizer não.

Quem me apresentou o pessoal da ImpressCorp foi o Cássio, um funcionário de carreira lotado na secretaria há três gestões. Eles apareceram lá no gabinete numa tarde em que o Gérson não estava: um jovem mais magrelo, vestindo terno e suando pacas (acho que tinha uma escuta atrás da gravata, ou dentro do bolso do paletó, agora que penso) e um senhor bem grandão, mais gordo, com os dois botões de cima da camisa de manga curta abertos e também suando pacas. Eles cumprimentaram todos os funcionários do gabinete – sem errar nenhum nome – antes de apertarem a minha mão e sugerirem que ocupássemos a sala reservada do secretário.

— O seu patrão tá na sessão agora, não é mesmo? Acho que ele não vai se importar – disse o gordo, já abrindo a porta.

Não posso negar que o vozeirão de locutor do atrevido me lembrou meu pai me dando bronca toda minha infância por não ter arrumado a cama a contento ou por ter tirado nota baixa na escola ou por qualquer outra razão que ele achasse pertinente...

O que ouvi deles, mais especificamente do gordo, na sala do secretário, foi o seguinte: corria o rumor (aliás era verdade) que a secretaria iria abrir licitação pra comprar impressoras pra mais de quarenta escolas do município. A ImpressCorp já tinha fornecido impressoras pra prefeitura em gestões anteriores, mas na última grande compra foi preterida porque não compactuava com aquele governo comunista que tomou de assalto a cidade (na verdade eu já tinha lido o processo de compra da gestão anterior e a ImpressCorp perdeu por não apresentar o preço mais baixo entre as concorrentes, mas não fiz objeção e o vozeirão continuou tremelicando meus tímpanos, enquanto o magricela ficava movendo a cabeça, assentindo, e eu ficava pensando em se teria adiantado alguma coisa fecharmos a porta) e agora queria voltar a fornecer seus equipamentos da mais alta confiabilidade, com tecnologia de ponta e design arrojado, pras escolas da cidade.

— Que maravilha! Bom saber!

Sim, mas havia um porém. Eles não conseguiriam fazer o preço que a vencedora da licitação anterior (uma empresa do Rio de Janeiro, uns cariocas malandrões que nem geram emprego aqui e que não devem pagar imposto, porque se fossem honestos, se pagassem tudo direitinho, não conseguiriam cobrar tão barato, sabe-se lá se não trabalham com carga roubada) iria, com certeza, informação de fonte segura, oferecer.

— Ah, que pena...

É, mas tinha um jeito.

Não pedi nenhum presentinho pra dar o jeito, mas o mais jovem pareceu se afobar com a careta que eu fiz pra segurar um espirro (aquela sala fechada, cheia de pó, putz, eu tinha que chamar a atenção do pessoal da limpeza) e ofereceu: seriam R$100.000,00 pra eu incluir na licitação uma cláusula exigindo que a empresa concorrente estivesse sediada aqui na cidade.

— Mas e se outra empresa sediada aqui na cidade oferecer um preço melhor que o de vocês?

A ImpressCorp é a única empresa de fornecimento de impressoras sediada aqui na cidade.

Nosso segundo encontro ocorreu no escritório da empresa. Não poderia ser no gabinete do secretário pra não levantar suspeitas, disseram.

O Cássio era funcionário de carreira, é verdade, mas tinha sido alocado no gabinete de educação, havia muito tempo, pelo João Conceição, o prefeito que administrara a cidade durante dois mandatos, na gestão anterior à do comunista que antecedeu o atual. O João botou ele lá porque ele pediu e presenteou-lhe diversas regalias porque ele era do grupo do Dr. Miguel Amay, ex-secretário que estava cotadíssimo pra voltar ao cargo que agora o Gérson ocupava.

O Cássio foi fiel ao Miguel Amay. Eu, que sou trouxa, resolvi ser fiel ao Gérson Paraná também: assumi a bronca sozinho, que, por certo, era minha mesmo; mas pro meu amigo isso de pouco adiantou – dois dias depois de eu ser pego em flagrante (a ação foi filmada e nos jornais da TV só meu rosto aparecia, pois o do Cássio, apresentado como o denunciante, saiu borrado pra ele não ser identificado), ele caiu.

Miguel Amay foi apresentado à imprensa como um secretário experiente que sempre contara com a admiração do prefeito. Quem me contou foi o próprio Gérson, que veio me visitar aqui na cadeia pra me passar um contato de um advogado da confiança dele pra me defender no julgamento. Eu não confio em quem ele confia, mas reconheço que ele é um bom amigo.


E a licitação não foi revogada.