sábado, 3 de dezembro de 2016

CEIA

Humberto chegou ao apartamento da sua prima Neide antes da hora combinada. Bem antes, questão de quarenta minutos ou mais. Para sua surpresa, porém, todos os outros convidados já estavam presentes e a ceia já tinha começado a ser servida.
           
Deu um boa noite geral, mas ninguém respondeu a seu aceno. Sentou-se na única cadeira livre junto à mesa e serviu-se da sopa fria, enquanto acompanhava a conversa a gritos que era traçada entre os esbaforidos convivas: política.
           
Discordava de todos os argumentos que eram apresentados, mas absteve-se de pronunciar-se: os ânimos estavam muito exaltados.
           
Antes que terminasse de tomar sua sopa, os pratos, à exceção do dele, foram trocados. Eliete, a empregada de Neide que lá trabalhava desde jovem, passou a servir a salada.
           
Ele mentiria se dissesse que não se sentiu incomodado com o desprezo que Eliete lhe dedicou... Conheciam-se havia tanto tempo...
           
A discussão continuava, o que retardava o consumo da salada. Eliete aguardava, em pé, encostada no batente da porta que separava a sala do corredor da cozinha e não fez nem menção de se mexer quando ele terminou sua sopa.
           
Então o relógio-cuco soou, indicando as 22h, horário previsto para o início do encontro. Logo depois, ouviu a campainha tocar.
           
Virou-se para a porta e viu sua prima Neide recebendo-o com um abraço:
           
- Entra, Humberto, querido. Você é o primeiro a chegar.


sábado, 12 de novembro de 2016

BORBOLETA

Ana Lívia e Rafael já namoravam havia dois anos quando decidiram dividir um apartamento. Tinham hábitos parecidos, visões de mundo equivalentes e nutriam um carinho mútuo: não se incomodavam com a presença um do outro. O principal motivo pra juntarem os trapos, no entanto, foi a possibilidade de cortarem custos.

A gravidez ainda esperou mais três anos: foi só quando Rafael conseguiu sua promoção a gerente no banco e passou a ganhar mais do que Ana Lívia, então já estabelecida como professora na escola na qual estagiava na época em que os dois se conheceram num show do Paralamas, que eles se sentiram seguros pra dar esse passo.

Organizaram escalas de acordo com o período fértil de Ana Lívia e se esforçaram pra não marcar nenhum outro compromisso nos dias reservados ao coito sem preservativo (uma novidade pros dois). A fecundação dos óvulos, porém, custou um pouco mais do que haviam previsto.

Duas coisas atrapalhavam Rafael: a primeira é que ele não ficava confortável ao sentir o contato direto entre seu pinto e os fluidos que emergiam de Ana Lívia; a segunda é que, mesmo quando conseguia superar o incômodo, ele imediatamente perdia a ereção ao se lembrar de que estavam ali com o intuito de procriar. De pouco adiantavam as novas posições, os diferentes brinquedos, a variação dos ambientes – tudo isso, aliás, antes mais o atrapalhava do que ajudava: não conseguia verbalizar, mas sentia que o que faziam era sujo. E ele queria que houvesse algo de pureza na concepção. Queria que Ana Lívia fosse Maria.

Nessas condições, Rafael percebeu que sentia um prazer maior ao masturbar-se folheando as revistas da adolescência do que ao transar e passou a temer que talvez estivesse capacitado pra dar vida apenas a grãos de feijão acondicionados em pedaços de algodão humedecidos.

Mas Ana Lívia foi compreensiva e paciente como sempre – e, nessa empreitada, insistente e persuasiva como nunca.

*

Pro Rafael, a emoção do anúncio de que o ultrassom indicava um menino foi diferente daquela provocada pela confirmação da gravidez. Sentiu-se feliz com as duas notícias que Ana Lívia lhe deu, mas não de maneira equivalente.

Quando chegou do serviço no final da tarde em que sua companheira lhe recebeu na porta, chacoalhando três tirinhas azuis, Rafael estava pensando em formas de alcançar a meta de abertura de contas que a cada dia parecia mais distante naquele seu quarto mês como gerente do banco. Saber que tinha conseguido cumprir essa outra tarefa que lhe havia sido imposta naquele momento de sua vida, trouxe-lhe imenso alívio.

Quando recebeu em seu celular, durante uma reunião, a mensagem “É menino”, não foi alívio o que ele sentiu – até porque não estava muito preocupado com isso. O que sentiu foi, de um jeito inesperado, um imenso entusiasmo.

E foi entusiasmado (muito mais entusiasmado do que Ana Lívia teria querido que ele ficasse) que Rafael passou os nove meses seguintes. Fotos da barriga crescendo foram várias: ao menos uma por dia a partir de então. Pessoas às quais ele apresentou a mulher que iria parir seu filho, inúmeras: colegas, clientes, desconhecidos. Presentinhos pro filho, um desmando: quase não cabiam no quarto de parede azul que montaram pra ele.

Ana Lívia sinalizava seu desconforto em várias das situações em que a excitação de Rafael passava dos limites, como quando, por exemplo, ele sugeria a algum amigo que tocasse em sua barriga para sentir os pontapés do futuro centroavante da Ponte Preta. Ele parecia não entender.

Mas ela, por outro lado, também contribuiu para o exagerado arrebatamento do companheiro ao lhe propor, um dia depois da confirmação de que teriam um menino, que o filho se chamasse Rafael Júnior. Foi quase uma epifania.

*

Rafael Júnior nasceu bem, de parto natural – um pouco menor e mais leve do que a média (40 centímetros cravados e 2kg600g), mas de resto nada assustava: boa tonicidade, testículos no interior do escroto, frequência cardíaca ok, respiração a contento, nenhuma fratura (e nem sequer um hematoma) no pescoço ou na clavícula, visão e audição perfeitas, motricidade global e reflexos em ordem. Foi o dia mais feliz da vida de Rafael, que sentia alívio e entusiasmo ao mesmo tempo.

Emendando suas férias à exígua licença paternidade, o bom bancário conseguiu afastar a sogra de sua casa nas primeiras semanas que viveu como pai. E, Ana Lívia concordava, isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido: se, mesmo estando longe, Dona Lurdes os enchia de conselhos (“Só teu leite não basta”, “Se ele tá chorando é que tá com fome”, “Bebê tem que dormir agasalhado”, “Fralda de pano não dá assadura”), estando perto seria um trator.  

Rafael Júnior sorria muito ao ver o pai, que acabava se comovendo a cada vez que o pegava no colo, trocava uma fralda ou o fazia embalar no sono. Ana Lívia se surpreendia com a capacidade de amar que seu companheiro demonstrava, nitidamente sem nenhum esforço, possuir.

A licença e o período de férias não duraram pra sempre, obviamente, e Rafael teve que voltar a trabalhar. Pela primeira vez desde que entrara como escriturário no banco, chegou atrasado. Passou o primeiro dia longe de seu filho olhando pro relógio, como se assim pudesse adiantar as horas. Voltou pra casa na hora do almoço e quase enforcou a tarde. Separar-se de Rafael Júnior era muito sofrido.

*

Tudo correu dentro dos conformes com o bebê, que acabou se transformando em uma criança saudável e sorridente. A única coisa que chamava a atenção é que ele era menor e mais magrinho que os demais pimpolhos de sua idade – mesmo sendo filho de uma mãe e de um pai grandes e pesados.

Talvez não tenha sido por conta de tal característica, mas o certo é que Rafael Júnior continuou mantendo vivo em seu pai um proceder altamente protetor – até que um dia (quando um vizinho perguntou a Rafael sobre o “Chaveirinho” e ele respondeu de atravessado) Ana Lívia pontuou a seu companheiro esse excesso de zelo e ele começou a tentar se controlar. Não queria que o filho sofresse, Ana Lívia entendia isso, mas seria impossível estarem sempre ao lado dele, e, se quisesse ser feliz, o menino deveria aprender desde cedo a se valer.

*

E parecia que sim, que Rafael Júnior foi aprendendo a superar os obstáculos. Sua perspicácia surpreendeu a todos, por exemplo, quando aos quatro anos, na casa de Dona Lurdes, foi posar pruma foto na companhia de seus dois priminhos – um mais velho e o outro mais novo. Estavam os três com roupinha social e alguém encasquetou que fizessem uma escadinha. O problema é que ou faziam uma escadinha por idade (o que para Ana Lívia e Rafael seria o natural), ou se organizavam por altura (o que para a cunhada e o concunhado de Rafael seria o correto) – e Rafael Júnior era menor do que seu primo mais novo. Enquanto os pais discutiam por esse detalhe besta, o menino correu pro quarto da avó e voltou de lá calçando um par de sapatos de salto alto, rindo e dizendo “pronto”.

Percebendo que Rafael Júnior nunca seria o fortão de nenhuma turma, o bancário passou a contar pra todo mundo como seu filho era inteligente. Mas essa fase quase acabou no aniversário de seis anos do garoto.

Por estarem sempre correndo com seus afazeres profissionais, Ana Lívia e Rafael decidiram não organizar uma festinha pro filho em casa. Sem muita grana sobrando, porém, abriram mão de utilizar um buffet infantil. Resolveram juntar os parentes em uma pizzaria.

Todos os mais próximos compareceram, tanto do lado da família de Ana Lívia como do lado de Rafael. Oito mesas foram reservadas pro evento: seis pros adultos e duas pras crianças. Rafael foi organizando os convidados e decidiu que as meninas (suas quatro sobrinhas) ficariam em uma mesa e que os meninos (os dois sobrinhos de Ana Lívia e mais Rafael Júnior) ficariam em outra. Rafael tinha sido bem claro em sua orientação e as crianças estavam bem atentas. Rafael Júnior nunca tinha tido problema de audição e fazia cara de quem estava concordando com a decisão do pai. Mas assim que seu progenitor disse “Então, vamos lá, criançada!”, ele se encaminhou pra mesa das meninas. Rafael teve que puxá-lo pra mesa correta e passou a desconfiar que seu filho não era tão inteligente quanto ele imaginava que fosse. Poxa, não conseguir entender uma instrução simples como essa...

Quando meses mais tarde a diretora da escolinha marcou uma reunião pra conversar com os dois sobre o Rafael Júnior, cresceu no pai o seu receio: será que além de fracote ele era mesmo burrinho?

*

Rafael estava, havia tempo, muito acima do peso e, embora ele não soubesse, sua faringe vivia irritada por conta do tabagismo. Somava-se a isso o fato de que seu queixo era levemente projetado pra trás e voilà: passava as noites roncando. Por conta da inapropriada sinfonia, e também porque desde que Ana Lívia engravidara nenhum dos dois voltara a se interessar pelo outro (eles que nunca foram muito animados mesmo pro sexo), o casal decidiu, em tempos já quase imemoriais, dormir em quartos separados. Mas na noite pós-reunião na escola, Rafael quis muito que Ana Lívia estivesse ao seu lado, pra dormirem abraçados. Não pôde ser. Ela passou a noite abraçada com a outra pessoa que vivia na casa.

Então, sozinho, ele chorou deitado enquanto relembrava a difícil conversa com a diretora, a psicóloga escolar e Ana Lívia.

*

A questão era que a escola suspeitava que Rafael Júnior tivesse nascido com transtorno de identidade de gênero. E também Ana Lívia – que foi quem pediu que a diretora marcasse o encontro com eles e a psicóloga, pois não tinha coragem, ou, como ela disse, não sabia a melhor forma de abordar o assunto se tivesse que fazer isso sozinha.

Não foi de supetão, claro, que as três lhe deram essa informação (que, aliás, como elas disseram, nem chegava a ser uma informação – era uma suspeita e o melhor talvez fosse que eles consultassem um especialista): antes enumeraram uma série de situações em que o comportamento de Rafael Júnior indicava que havia a possibilidade de ele se entender e se enxergar como uma menina. Agora  tudo reaparecia embaralhado em sua mente.

Rafael Júnior gosta de brincar de casinha. Ué, o que é que tem? Ele pode brincar de ser o pai! Rafael Júnior brinca de ser a mãe.

Rafael Júnior gosta de fingir que cozinha. Mas eu também cozinho, não é só você, Ana Lívia. Rafael Júnior me contou que tem medo de que um dia cresça barba no rosto dele como cresce no seu.

Rafael Júnior não gosta de pular na piscina sem camiseta. Rafael Júnior gosta de se sentar como as meninas. Rafael Júnior gosta de pegar emprestada a tiara de uma amiguinha. Rafael Júnior não gosta de se trocar na frente dos outros.

Eu vi o Rafael Júnior tomando banho lá em casa, Rafael! Abri o box e peguei ele lavando a cabeça... com uma mão ele passava xampu no cabelo e com a outra ele tapava o pinto: ele não quer ver o próprio corpo!

Rafael Júnior foi pego com uma tesoura da professora dele tentando cortar o próprio pênis.

Rafael Júnior gosta de assistir comigo os jogos da Ponte. Meninas também gostam de futebol, Rafael.

Rafael Júnior desenhou uma sereia quando pedi um autorretrato.

Rafael Júnior pediu pra professora chamá-lo de Rafaela.

Chamá-la.

Rafael Júnior pediu um leque de natal. E uma boneca. E um vestido. E pediu pra não ganhar carrinho.

Rafael Júnior me disse, Rafael, que não é o “meu garoto”.

Será que não é só uma fase?

O sono demorou, mas chegou. Eram três da manhã quando Rafael começou a roncar, com uma imagem resgatada de seis anos antes ocupando a sua mente:

Rafael estava no quarto da maternidade. Segurava o bebê que parara de chorar e acabava de lhe abrir um sorriso. A voz de Rafael agora ressoava em seu cérebro: eu nunca vou deixar que algo de ruim te aconteça. Nunca.

*
Às sete horas o despertador tocou. Da cozinha vinha o barulho do liquidificador batendo a vitamina de banana que sua companheira sempre lhe preparava e de uma conversa animada entre as mulheres de sua vida.


E foi assim que, naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Rafael deu por si na cama, transformado no pai de uma menina.

sábado, 8 de outubro de 2016

COMPOSITION VIII

Se aquele japonês e seu amigo brasileiro tivessem entrado no salão quinze dias antes, com certeza Fabiana já teria se transformado em Shirley e se encaminhado pra mesa deles usando todas as armas de sedução que julgava possuir – inclusive o sorriso.
           
No entanto, aquele japonês e seu amigo brasileiro entraram no salão na noite em que Fabiana despedia-se de Shirley – e Fabiana continuou sentada junto ao balcão, sem pressa de largar a acetona e o esmalte “vermelho paixão” de sua personagem, fingindo não ter escutado as três palmadas de Geraldo no ar, as mesmas que há duas semanas vinham lhe causando tantos sobressaltos.
           
As unhas já estavam prontas havia mais de meia hora. A moça, porém, ainda segurava o vidro do cosmético importado enquanto decidia se o jogava fora pra depois acabar com qualquer rastro da Shirley quando aquela noite chegasse ao fim ou se o guardava na bolsa – afinal nunca tinha gostado tanto de suas unhas quanto estava gostando naquele momento e talvez isso de dar cabo a tudo o que foi dela nas duas semanas em que foi outra não a ajudaria a se sentir mais limpa quando voltasse a ser quem era. Sabia, porém, que não voltaria a ser quem era.
           
Veio a segunda sequência de palmadas no ar de Geraldo, dessa vez mais incisivas. Não dava pra ficar enrolando: ela era a única das meninas que ainda estava por ali.
           
Guardou o esmalte na bolsa (e também a acetona) e dirigiu-se à mesa dos clientes.

- Hi, boys...

*
           
Shirley tinha sido concebida por Fabiana em Uberaba com outro nome: Vivian.
           
Era dezembro de 2015 quando um senhor, calvo e com um bigode cheio, bem aparado, aproximou-se da moça do caixa após dispensar a nota fiscal do perfume que acabara de comprar e, olhando pra baixo, com o suor brotando na testa apesar de o ar-condicionado da loja estar funcionando a todo vapor, perguntou-lhe, quase em silêncio, se a jovem aceitaria tomar um lanche após o expediente.
           
A diferença de idade entre os dois era bastante evidente. Alguém que os tivesse visto procurando mesa na praça de alimentação do shopping, ela de uniforme, ele vestido a la bancário, teria induzido que iriam tratar de questões profissionais. Só Fabiana pensou que essa conversa seria um flerte. Só Fabiana errou, apesar de o assunto do lanche ter a ver com sexo.
           
A oferta era a seguinte: passagem aérea de ida para o Rio e de volta, quinze dias depois, para Uberaba; hospedagem e alimentação no local, de graça; 5% do que era cobrado de entrada no salão, 5% do que fosse arrecadado com o aluguel dos quartos, 10% do que os seus clientes consumissem no bar e mais 70% do valor de cada programa. Em troca, ela trabalharia na boate oito horas por dia, durante duas semanas.  

- Em dinheiro dá quanto?

- A entrada custa R$100,00, ou seja, você ganha R$5,00 de qualquer um que entrar. O aluguel do quarto sai por outros R$100,00. Ou seja, mais R$5,00 por cliente – de qualquer uma das meninas – que seja convencido a fazer o programa.  No bar os caras vão consumir de R$300,00 a R$500,00 reais facinho. É capaz de os estrangeiros gastarem até uns R$1000,00, vai depender de você convencê-los. Ou seja, dá pra por aí na sua conta mais uns R$50,00 por cliente, se a gente for pessimista. O programa sai por R$300,00. Ou seja, R$210,00 inteirinhos pra você. A média das meninas no salão é de quatro programas por noite... Agora, com as olimpíadas, com certeza esse número vai mais do que dobrar... Você vai acabar ganhando, por baixo, uns R$2000,00. Uns R$2500,00 se trabalhar direitinho. Por dia. São catorze dias, ou seja...

Fabiana não tinha que responder naquela hora. Ganhou três dias pra pensar. Colocou o cartão no bolso e terminou de tomar o sundae que tinha escolhido de sobremesa. Geraldo recolheu as bandejas e eles se despediram com um até mais.

No terminal, à espera do ônibus, ela se irritou com o som que vinha de seu iPod. Desligou-o em seguida, mas não tirou o fone do ouvido – vai que alguém quisesse puxar papo. Viajou o trajeto todo em pé, como sempre – e, como de seu aparelho não estava saindo música nenhuma, ela escutou perfeitamente o motorista gritar “caralho” quando puxou a cordinha do sinal em cima da hora pra descer no seu ponto. 

Não quis assistir à novela: deixou seu pai sozinho no sofá e isolou-se no quarto. Desde outubro seu irmão, Fabiano, vinha trabalhando no turno da noite na fábrica de bebidas e isso dava a Fabiana o que mais ela precisava no momento: privacidade. Tirou o uniforme e vestiu uma camiseta longa. Apesar do calor, não tomou banho.

Abriu a janela pra refrescar e pro ar circular – o cheiro do inseticida que seu irmão tinha jogado antes de sair pro serviço empesteava o ambiente e Fabiana era da opinião de que era melhor ser picada por pernilongo do que morrer intoxicada.

Não conseguiu pegar no sono. Misturou as caretas e os trejeitos sensuais em frente ao espelho do armário com a lembrança de todos os trabalhos que já tivera na vida e do quão mal remunerada sempre fora. “Ralava”, como costumava dizer, desde os catorze anos. Já lá se iam então oito anos desde o dia em que distribuiu panfletos de uma imobiliária no semáforo a troco de condução, lanche e uma diária que não daria pra comprar um maço de cigarros. A partir daí, não parou mais: foi babá, auxiliar de recreação em buffet infantil, faxineira, atendente de call center, vendedora (primeiro na rua oferecendo os brigadeiros, as cocadas, os beijinhos e as línguas-de-sogra que sua vizinha fazia e, depois, trabalhando de carteira assinada numa loja de chocolates) e, por fim, caixa de uma loja de perfumes no shopping – esse emprego temporário com possibilidades de efetivação após o período de festas em que Geraldo a encontrou.

Passou a noite indo da gargalhada diante da própria imagem refletida (caricaturalmente lasciva) ao choro compulsivo com o rosto enfiado no travesseiro; do sorriso tímido imaginando-se desejada ao soluço doído temendo-se usada; da boba empolgação à aterrorizante angústia. No fim, lembrou-se do filme e quis um Edward Lewis para si. Seria Vivian.

Não gastou os três dias a que teria direito: ligou pro Geraldo antes de Fabiano voltar e pôs Pretty Woman pra tocar no iPod

*

Shirley não entendeu o que o japonês disse. Ela percebeu que foi em Inglês, respondendo a seu cumprimento, mas não foi capaz de decifrar o que saía da boca do cliente. Algo como “Not now, ruquer”. Era “hooker”, mas as aulas e mais aulas na escola de idiomas em Uberaba, durante quase meio ano, pareciam não estar lhe servindo pra muita coisa. O brasileiro era só sorrisos e não estava a fim de ajudá-la. Os dois rapazes ficaram conversando, sem dar muita bola pra ela, que, ali, em pé, fazia, sem muita força, e com a mão esquerda um tanto trêmula, um misto de massagem e carinho (na verdade algo como um aperto desajeitado) no ombro do oriental: nada que excitasse alguém.

Tinha frequentado as aulas de Inglês no ano anterior, pra ter um diferencial no currículo. Estudava no período da manhã, quatro vezes por semana, e de lá saía pra loja de chocolates, onde ficava das 14h às 22h e ganhava pouca coisa a mais que o valor da mensalidade do curso.

Sua turma, a “Básico 1 – Intensivo”, era pequena: ela, duas meninas bastante agitadas e um garoto caladão – todos com 12 anos de idade e cujos pais eram amigos entre si. Nenhuma das crianças estava ligando muito pras aulas e Fabiana era a única que parecia estar aprendendo alguma coisa – embora apresentasse tanta dificuldade nas atividades orais que tinha se tornado alvo de piadinhas maldosas das duas fedelhas. Pra completar, o garoto caladão não tirava os olhos de seus seios e a ideia de que ele se masturbasse pensando nela deixava-a aflita.

Foi Thiago, o professor de Inglês, quem passou o contato de Fabiana pro Geraldo, ela veio a saber quando telefonou pra ele naquela manhã de dezembro aceitando a proposta.

- Ele me disse que você era muito linda e que talvez estivesse precisando de dinheiro, ou seja...

Fabiana sabia que o professor de Inglês a achava bonita: foram inúmeras as suas investidas, com cantadas bem espirituosas e convites animados – e realmente era bem provável que ele pensasse que “talvez ela estivesse precisando de dinheiro”, já que ela sempre justificava suas recusas e negativas contando-lhe que estava cansada com a correria e economizando qualquer trocado, precisando ficar em casa, dormindo, pra poder acordar no dia seguinte.

Quando o japonês apertou com força sua bunda e o brasileiro se levantou dirigindo-se ao bar, ela entendeu que era hora.

*

O cliente, que não era um frequentador habitual da casa, não sabia que todos os dez quartos estavam vagos e nem passou por sua cabeça que poderia escolher em qual iriam transar. Consciente disso, Shirley encaminhou-se com ele para a suíte 4, evitando a suíte 1, em tese a melhor de todas. Ela tomou essa decisão pensando em si própria, mas também ele saiu ganhando: na suíte 1 com certeza Shirley não conseguiria trabalhar.

Nada de errado havia na suíte 1, realmente a melhor de todas: espaçosa, arejada, com banheira de hidromassagem, televisão LED de 32’’, cama king size com molas ensacadas... A decoração era simples, quase clean: apenas uma tela, uma réplica da Composition VIII, do Kandinsky, sem moldura, dependurada na parede em que a cabeceira da cama ficava encostada. Não fosse o que foi, Shirley teria levado o japonês pra lá.

Não. Na verdade, não fosse o que foi, Shirley não estaria trabalhando ainda: por conta do que aconteceu na suíte 1 em sua primeira noite de trabalho, em seu segundo dia no Rio a jovem mineira não conseguiu sair do quarto da pensão em que viveu aquelas duas semanas na companhia de uma estudante de fisioterapia, de uma auxiliar de necropsia, de uma empregada doméstica e de uma comissária de voo (as demais meninas novatas contratadas pra se juntarem ao time de profissionais da casa de prostituição gerenciada por Geraldo durante os XXXI Jogos Olímpicos da Era Moderna) e, por isso, teve que compensar a falta comparecendo ao salão na última noite do bordel – última noite mesmo, pra todos, já que, em razão dos altos investimentos e do frustrante retorno financeiro com a procura muito abaixo das sinceras expectativas do calvo bigodudo, o prostíbulo estava falindo. Todas as meninas tinham sido dispensadas – menos ela, pra não sair devendo.

- Você vem trabalhar que eu não gosto de ser passado pra trás, ou seja...

Enfim, na suíte 4 o trabalho foi feito. Nada de espetacular, que a Shirley parecia estar no automático – como sempre, aliás. Só depois de o cliente se aproximar da porta, já vestido, dizendo “Thank you” e, quando ela fez menção de se levantar, “Keep sleeping”, foi que Fabiana voltou a assumir seu próprio corpo e se deu conta de que tinha acabado de perder a oportunidade de matar sua curiosidade sobre o tamanho do pinto dos japoneses: ela não tinha prestado atenção.

*

O primeiro trabalho de Shirley foi o último dela na suíte 1.

Naquela noite, por conta da hierarquia (as meninas mais antigas da casa eram as primeiras a irem atender às palmadas no ar de Geraldo), ela estava sozinha no bar – como na derradeira, embora com outro estado de ânimo: uma mistura de alegria com ansiedade, medo e tesão.

Não foram as três palmadas de Geraldo que a convocaram para o serviço: ela foi ser buscada por uma de suas colegas – a Ana, justamente a culpada por Shirley não ser Vivian.

Ana era a única com quem Fabiana não estava se dando naquele começo: ex-farmacêutica de quase quarenta anos, grossa e desbocada, ela, por ser a mais antiga da casa, sentia-se no direito de usufruir de regalias como, por exemplo, deixar reservada pra si a suíte 1 mesmo antes de os clientes chegarem.

Do alto de sua autoridade mais imposta do que conquistada, Ana proibiu Fabiana de ser Vivian porque achava que esse nome não pegava.

- Mas eu escolhi por causa da prostituta mais famosa do mundo!

- Que prostituta?

- A do filme da Julia Roberts...

- Se você gosta de puta de filme, então você vai ser a Shirley.

- Shirley?

- É, minha filha. Irma la Douce. E me agradece. O dia que você ver esse filme, você vai saber quem é que a puta boa do cinema.

*

Ana – que era Ana na certidão e na noite porque achava muita frescura isso de escolher nome de guerra – aproximou-se de Shirley com cara de poucos amigos e, apesar da pequena distância, perguntou em altos decibéis:

- Você que é de Uberaba, né?

O cara da primeira mesa da noite queria uma menina específica – e de nada adiantaram os cinquenta minutos de agrados e beijinhos e sentadas no colo e mordidinhas na orelha que Ana lhe infligiu. Ele foi irredutível:

- Você é mesmo muito gostosa, querida. Mas eu quero a menina nova que veio de Uberaba.

*

Não foi propriamente o desfile da Gisele Bündchen na abertura das olimpíadas do Rio o que a novata fez entre o bar e a mesa do cliente, na outra ponta do salão: se, por um lado, assim que entendeu que o homem tinha dispensado a mais experiente da casa pra passar a noite com ela, Fabiana levantou-se rapidamente da banqueta alta, repassou as armas de sedução que treinara em Uberaba, inclusive o sorriso, incorporou Shirley de forma confiante para a estreia, fez o sinal da cruz e saiu conquistar a passarela imaginária com passadas firmes e graciosas, por outro lado estancou, na metade do caminho, assim que percebeu que conhecia quem requeria seus serviços.

As palmadas insistentes e raivosas de Geraldo ao pé de seu ouvido fizeram Fabiana abandonar a paralisia e terminar o trajeto, mas não foram capazes de fazê-la voltar à personagem. Foi como Fabiana mesmo que ela chegou à mesa de seu primeiro cliente.

- Oi, Thiago.

Fosse mais perspicaz e talvez Fabiana não se surpreendesse tanto com o fato de seu antigo professor de Inglês ser frequentador da casa pra qual ele a indicara.

- Espertinho você, hein? Hoje vai ter o que sempre quis, né?

Mas a canalhice não tem limites. Thiago não foi até o Rio de Janeiro pra comer a menina que sempre lhe dera tocos. Ele foi até lá pra terminar a vingança que preparou pra vadia que um dia se achou no direito de recusar suas investidas.

- Não sou eu quem vai te traçar não, Fabi. Um amigo meu que duvidou que você tinha vindo pro Rio pra dar a bunda é que vai te comer. Ele tá pra chegar.

*

Fabiana não conseguiu falar nada naquela noite: tampouco conseguiu escolher o que fazer. Apenas seguiu as ordens de Fabiano, movimentando-se maquinalmente. Na suíte 1, vaga por Ana ter sido recusada, ele a mandou ficar pelada enquanto lhe dizia que, se ousasse voltar pra Uberaba, o pai ia ficar sabendo que tipo de estágio ela tinha ido fazer na capital carioca.

Fabiano colocou-a de quatro e, com estocadas firmes e constantes, sem camisinha, sem nenhum lubrificante, estraçalhou o ânus da irmã que, indiferente à dor física, não tirou a vista do quadro dependurado na parede, nem quando o coito acabou e o animal que a machucava cuspiu em suas costas. Ela pensava no quadro.

“Esses círculos devem ser o sol que aparece toda hora. Esses triângulos devem ser as montanhas. Esses quadrados meio tortos um em cima do outro devem ser os prédios. Ali são os anéis olímpicos. Acho que tá faltando um. Ali são as nuvens. O jogo da velha acho que são as calçadas. Isto daqui deve ser o Rio de Janeiro. O meu Rio de Janeiro”. 

domingo, 11 de setembro de 2016

LOUÇA SUJA

A gente se conheceu por conta do movimento estudantil: bem articulado, seguro de si, Henrique vivia interrompendo as aulas de todos os cursos da universidade pra dar informes do D.C.E. Os professores faziam caretas, bufavam até: mas nenhum deles ousava proibi-lo de dar seu recado.

Lembro-me de que na primeira vez que ele entrou na sala do primeiro ano da psico, apesar de tê-lo achado gato com aqueles longos cabelos cacheados e a barba por fazer, senti uma leve irritação. Estávamos no meio de uma aula expositiva cujo tema muito me interessava: o professor Aguiar nos guiava na análise dos debates sociológicos do século XX esmiuçando o “A dominação masculina”, do Bourdieu. Sociologia era, dentre as disciplinas obrigatórias do ciclo inicial, a que eu mais gostava. O recado do Henrique era sobre carteirinha estudantil.

Outras visitas à minha sala aconteceram (sem que eu me irritasse mais nenhuma vez) até que trocássemos nossas primeiras palavras, numa festa chamada “Chopp e Dança”, organizada pelo Diretório Central com o intuito (era o que se alegava) de arrecadar fundos que permitissem a aquisição de computadores pra sede do Centro Cultural Machado de Assis, do Diretório Acadêmico da Faculdade de Letras. Eu não era boa de forró (nem sou ainda) e resolvi me sentar numa mureta esperando a bebida choca esquentar no copo plástico que eu segurava na mão enquanto a galera se esfregava. Como não queria passar uma imagem de garota quadrada, tive a ideia de comprar um maço de Free antes de ir pra festa. Eu já tinha dado umas tragadas em cigarros de uma amiga lá de Ipaussu, mas nunca tinha tido um pra chamar de meu. Aliás, eu não gostava de cigarro: a minha garganta irritava, eu tossia alto e depois me incomodava com aquele fedor característico no cabelo. Mas achei de bom tom levar um cigarro pra festa, pra mostrar que era adulta, quase independente. Estava então naquela, avaliando se tirava o maço da bolsa e abria o invólucro, quando ele se aproximou.

- Também não tá curtindo?

Ri e perguntei se eu estava dando muito na cara.

- Não tá, não... É que eu não consegui parar de te olhar desde que você chegou... Daí ficou fácil perceber.

Claro que minha bochecha esquentou e eu não soube o que responder. Provavelmente fiquei vermelha. Gaguejei qualquer coisa e ele se apresentou, como se precisasse.

- Sou o Henrique, da história.

- Prazer, Henrique da História. Sou a Ana, da Psicologia.

O Henrique riu e eu fiquei feliz pela minha tirada: nunca fiz grandes coisas em termos de humor. Mas ele era melhor do que eu.

- Na verdade, nesse caso, eu sou o Henrique da Sociais. Quando eu disse, Ana da Psicologia, que era o Henrique da história, eu queria dizer que era o Henrique da história da Cinderela. O Príncipe Encantado.

Eu nunca soube que o Príncipe Encantado da Cinderela se chamava Henrique, mas aqueles olhos azuis me fitando não me deixaram fazer qualquer objeção.

- Sou a Cinderela, então?

- Não, você é a Ana da Psicologia. E ainda bem, porque eu não sei onde enfiei o sapatinho...

Uma amiga dele, que então eu não conhecia (a Larissa, vim a saber depois), chegou perto da gente, interrompendo e sem nem sequer olhar pra mim.

- Você não vem, Prince?

Prince? Putz, o Henrique já tinha jogado essa cantada de Príncipe Encantado antes!

- Quer vir também? A gente vai fumar um beck ali atrás...

Eu, que estava achando o máximo do descolamento acender um Free, dispensei.

- Tô de boa, obrigado. E já é quase meia-noite, minha carruagem tá me esperando.

Henrique quase gargalhou.

- A gente se fala então. Beijão.

Guardei meu maço de cigarros na bolsa, saltei da mureta e fui buscar a minha carruagem: algum táxi que passasse por ali naquela hora.

*

Foi uma coincidência, com certeza, mas as interrupções às aulas pra recados do D.C.E., antes constantes (eu chutaria dizer que semanais), praticamente pararam de acontecer depois de minha conversa com o Henrique na “Chopp e Dança”. Sendo exata, até o final daquele semestre apenas duas vezes recebemos informes – e em nenhuma delas foi o Henrique quem apareceu pedindo licença ao professor e atenção aos estudantes: foi uma tal de Jeise, ou Jasy, ou Jasi, sei lá como se chamava a menina. Depois disso, sei que o D.C.E. foi assumido por um grupo de estudantes majoritariamente engajados com gestão de empresas e negócios. Pessoal da Administração, da Engenharia, Ciências da Computação, essas coisas. “Gente Nova”, era o nome da chapa 2, que acabou ganhando as eleições na justiça, após suposta fraude numa urna da Filosofia. Acho que estão lá até hoje, mas não posso garantir.

Nesse período sem vê-lo, primeiramente senti raiva de mim. O cara realmente tinha me balançado. Por que não aceitei ir lá dar um trago? Por que não dei um jeito de passar meu telefone pra ele? Eu precisava ter sido tão puritana? Depois, fiquei com dor-de-cotovelo. Prince... Eu podia apostar que a Larissa, de quem eu ainda não sabia o nome, já tinha aceitado a cantada dele – ridícula, aliás. Safada. E eu ficando vermelha, gaguejando (mesmo na fase dor-de-cotovelo eu continuei com raiva de mim mesma). Por fim acabei deixando o Henrique guardado com carinho num canto da memória e passei a me sentir melhor, menos infantil. Andei dando umas ficadas com uns quatro ou cinco caras que davam em cima de mim e passei a fumar cotidianamente – Free, não maconha.

*
              
Nosso reencontro foi em outra festa. Contra todos os prognósticos, foi ele quem me reconheceu primeiro. Embora eu tivesse entrado na faculdade dois anos depois do Henrique, estávamos nos formando juntos: e aquela era a festa do “Bota Fora”.

Sem barba nem madeixas, mas ainda com aqueles olhos azuis que tanto me impressionaram anos antes, ele me perguntou, sorrindo, se meu gosto musical havia evoluído ou se eu ainda não percebia a complexidade estética do forró universitário.

Diferentemente do nosso primeiro e curto bate-papo, neste eu não me senti em momento algum insegura: pelo contrário, mantive-me bem confortável – e não porque, tal qual Sansão, a força de Henrique residisse em seus cabelos, mas sim porque eu já tinha sacado que ele não era candidato ao posto de Príncipe Encantado da minha vida, já que a ideia de mulheres esperando seu Príncipe Encantado havia algum tempo me dava nojo.

Inclusive foi sobre questões de gênero que mais conversamos. Falei sem parar sobre o papel da mulher nesta nossa sociedade patriarcal – e ele me escutou com atenção. Ao invés de sair em busca da minha carruagem, quando a festa acabou fui pra casa dele em seu fusca amarelo.

Henrique morava sozinho, em um apartamento bem simpático cuja sala mais se parecia a um sebo, com inúmeros livros surrados bem organizados em prateleiras de ferro.

Transar com Henrique não foi nada de excepcional, se sou sincera. Nem pro bem e nem pro mal. A única coisa que me intrigou foi o fato de ele ter se levantado e ido ao banheiro se lavar depois de ter gozado, não voltando à cama, mas sim indo direto à mesinha onde ficava seu computador, ali no quarto mesmo.

- Preciso dar uma olhada na internet.

Como um dos assuntos sobre o qual tínhamos conversado na festa foi o machismo travestido de gentileza que existe no ato de o homem sempre pagar a conta do jantar, calculei que ele estivesse considerando a possibilidade de eu interpretar como também machista o fato de homem e mulher dormirem abraçadinhos depois do sexo. Puxei a coberta e, antes de me virar pra acabar com meu sono, percebi que o que ele precisava olhar na internet era um joguinho virtual.

*

Apesar de não nomearmos a nossa relação (caso?, namoro?, amizade colorida?), passei a frequentar mais o apartamento dele do que o meu – o que acabou me trazendo alguns problemas, especialmente no que diz respeito a roupas e itens de higiene pessoal. Muitas vezes quis escovar os dentes e minha escova não estava no armarinho do meu banheiro, por exemplo. Ou então quis usar um vestido vermelho e ele não estava no armário do Henrique. Et cetera.

Com os dois em início de carreira (ele dando aulas como substituto em uma escola da rede estadual e eu atendendo pouquíssima gente em uma sala porcamente adaptada de um prédio comercial que me comia 40% do valor da consulta), tivemos a ideia de juntar os trapos e rachar algumas despesas. Ok, eu tive a ideia. No entanto, demorei um pouco pra apresentá-la ao Henrique: com tudo o que eu já tinha ouvido da boca dele sobre Engels e a origem da família, tive medo de perder o que tínhamos (seja lá que nome isso que tínhamos tivesse) se simplesmente mencionasse a possibilidade de ele e meus pais se conhecerem – mas, por outro lado, sei que não haveria chance de não se armar uma guerra se meus pais soubessem que eu pretendia, primeiro, não renovar o contrato de aluguel do apartamento que eles me ajudaram a encontrar quando me mudei pra Campinas e, segundo, ir morar com um “desconhecido”.

O Henrique curtiu a ideia, no entanto. De maneira que fomos passar um fim de semana em Ipaussu e meus pais se encantaram com ele. Dei muita risada com o quão puxa-saco meu namorado (assim ele se apresentou aos meus coroas) conseguiu chegar a ser. O bolo formigueiro da minha mãe foi o melhor que ele comeu na vida e combinou divinamente (divinamente!) com o licor de jabuticaba. Pescar é o seu passatempo preferido e a dica da isca que meu pai deu é sensacional, “coisa de profissional”. As novelas de hoje em dia estão muito apelativas (a Janete Clair faz uma falta tremenda à nossa televisão) e desde 82 nenhuma seleção brasileira foi capaz de jogar o futebol arte (nem mesmo as que ganharam a Copa do Mundo de lá pra cá).

*

Contei pro Henrique, numa pizzaria, na noite em que comemorávamos o nosso segundo ano juntos, que o proprietário da sala que eu usava como consultório a tinha pedido de volta.

- Você nunca gostou de lá mesmo.

Era verdade. Porém, também era verdade que a localização do prédio, num bairro central, era um grande diferencial que eu podia oferecer aos interessados em me contar suas queixas, suas decepções, suas angústias e seus problemas existenciais. Eu temia perder clientes se meu consultório ficasse fora de mão.

- Pô, mas vamos combinar que se alguém deixar de ir à terapia porque tem que andar um pouco mais pra chegar no consultório... É que ela não tá funcionando direito, né?

Claro. Contudo, quatro pessoas preferiram trocar de psicólogo a trocar de bairro. E essas quatro significavam 50% da minha renda – não eram do convênio.

Evidentemente, precisaríamos cortar custos. A primeira medida que tomei foi reorganizar o esquema que tínhamos com o carro (aquele mesmo fusca amarelo do Henrique): ao invés de eu levá-lo à escola de manhã, ir ao consultório e depois buscá-lo no fim da tarde, pra então voltarmos juntos pro apartamento, passei a usar o ônibus que passa na nossa rua e que tem um ponto a duas quadras do consultório novo. Minha ideia era que também o Henrique fosse de busão pro emprego, mas ele não aceitou – e no fim do primeiro mês de implementado esse nosso novo esquema, ele ainda quis me cobrar metade da conta da gasolina. Fiquei meio chocada quando ele me pediu o dinheiro e estupefata quando o vi sair do apartamento batendo a porta depois de berrar que eu estava empatando a vida dele.

Naquela noite me dispus a esperá-lo voltar pra conversarmos e acertarmos as coisas, uma besteira daquelas, não tinha por que ficarmos brigados. Acontece que no dia seguinte eu tinha cliente no primeiro horário e, com essa de pegar ônibus, não dava pra enrolar de manhã – de maneira que não pude ir dormir muito tarde... À uma e meia fui pra cama, contar carneirinhos.

Não vi a que horas ele chegou, mas quando acordei percebi que tínhamos feito as pazes sem nem mesmo ter tido uma conversa sobre o assunto: em cima do travesseiro dele havia um Sonho de Valsa e um bilhete em que ele me dizia qualquer coisa sobre eu ser a gasolina que mantinha acesa a paixão dele. Apesar de brega no último, aquilo me acalmou. Ouvi barulho na cozinha e percebi que era ele arrumando um café-da-manhã pra mim. Levantei, tomei um banho de gato e fui pra sala, onde a mesa posta servia de anteparo a um garotão de charmoso sorriso que me chamou de linda e perguntou se eu queria o café puro ou com leite.

Não gostei da forma como “resolvemos” a discussão, mas não tive ânimo de reavivá-la – e o episódio ficou por isso mesmo. Lembro-me de que tive vontade de buscar uma terapia pra mim, pra me fortalecer, pra entender o porquê de eu deixar passar uma mancada assim dele (justo eu que saía em defesa da minha mãe a cada vez que meu pai soltava algum comentário idiota). Evidentemente acabei não indo atrás de terapia nenhuma: o momento era de cortar custos – não de ampliá-los.

*

A mais dolorosa das contenções de gastos que consegui nos impor foi a Dona Maria. Dona Maria era a faxineira que mantinha o apartamento simpático desde os tempos em que Henrique morava sozinho. Ela aparecia duas vezes por semana: às segundas e às sextas. Limpava, aspirava, varria, lavava, encerava, passava, guardava e ainda deixava prontas nossas marmitazinhas no congelador. Não conversava muito com o “patrão”, mas comigo era só papo. O Henrique não sabia, por exemplo, que ela tinha duas filhas da nossa idade – muito menos que já fora avó e que seu netinho morrera um ano depois de ela começar a fazer faxina pro estudante da Sociais tão interessado na classe trabalhadora. Quando contei pra ela que teríamos que demiti-la, emocionei-me um pouco e minha voz saiu embargada.

- Não te preocupa, minha filha. Eu sei que isso é coisa do Seu Henrique.

Não tive coragem de desmentir, mas o fato é que, por ele, ela ficava. Não adiantava eu argumentar que não tínhamos dinheiro pra nos dar esse luxo de ter alguém cuidando dos nossos afazeres domésticos: ele sempre armava a retranca e me indagava como é que podia ser que quando ele estava solteiro não faltava dinheiro pra faxineira.

Eu não sabia responder, claro, mas hoje percebo que ele conhecia a resposta e que, ao me fazer essa pergunta, me induzia a pensar que era eu a gastona responsável pela caótica situação financeira em que nos encontrávamos. Agora, olhando praquele episódio sabendo de como vem se encaminhando nosso relacionamento, tenho pra mim que, de duas, uma (ou talvez até de duas, duas): ou ele aumentou os gastos ou alguma fonte de renda (tipo os pais dele, que vivem na Irlanda e que eu nunca conheci) secou. A segunda é a alternativa em que mais acredito: é bem factível os pais terem decidido parar de mandar uma hipotética mesada assim que ele se formou (ele que tanto demorou pra pegar o canudo) e, além disso, fora algumas vezes que senti cheiro de bebida alcoólica em seu hálito, normalmente às sextas-feiras, não o percebi gastando muito – ele continua com pouca roupa, não vai a teatro, cinema, balada... Vive lendo aquele monte de livro usado e está cada vez mais magro.  Porém, vai saber, né? De vez em quando me pareceu ouvir a Larissa (de quem já sei o nome!) agradecendo por um presente ou um mimo ou um favor, “ai que fofo, não precisava”. Umas duas ou três vezes perguntei pro Henrique sobre a qual presente ela se referia, mas ele me diz que não sabe do que é que eu estou falando.

- Você tá ouvindo vozes, não é possível.

Ele não usa cartão de crédito e então eu nunca tive fatura pra bisbilhotar: comecei a achar que eu precisava mesmo de terapia.

*

Convencer o Henrique de que tínhamos que dispensar a Dona Maria não foi fácil. Ele sempre se alterava quando eu tocava no assunto e acabava me fazendo ver que vivia melhor quando era solteiro.

Um dia, porém, ele aceitou conversar.

- Olha, Ana, a gente senta e vê a situação; mas que fique claro que eu só tô aceitando falar sobre isso por conta do imenso amor que sinto por você.

Mostrei meus extratos bancários, os boletos a pagar, as contas atrasadas. Falei do quanto poderíamos fazer e onde poderíamos alocar o dinheiro que pouparíamos sem precisar entregar as entre oito e dez diárias pra Dona Maria todos os meses.

- Olha, Ana, tá bom. Eu vou então abrir mão de um conforto que me acompanha desde quando eu tava na facul. Triste, sabe? Até pensando na Dona Maria, entendeu? Esse dinheiro é muito mais importante pra ela do que pra você. Mas tudo bem, se é assim que você quer, que seja feito. Só que eu não vou ter coragem de falar com ela, você fale quando eu não estiver por aqui.

Apresentei pra ele um plano com divisão de tarefas pro “pós-Dona Maria”. Assumi grande parte dos afazeres, não era ingênua de acreditar que ele aceitaria de boa assumir muita coisa. Pra ele deixei coisas como colocar a própria roupa suja no cesto (!), tirar o lixo e lavar a louça. Feira e supermercado eu marquei como função conjunta do casal. O resto, deixei pra mim. Ele topou.

*

Meses depois da partida da Dona Maria, vi um bilhete em cima da mesinha da cozinha.

“Ana, por favor, não vá dormir antes de eu chegar. Precisamos conversar sobre a gente. Beijos, Henrique.”

Já havia semanas que eu caía morta de sono todas as noites antes das 23h, depois de passar o dia enfrentando o total de uma hora e meia (ou duas horas se computarmos o tempo médio de espera no ponto) em dois ônibus, geralmente lotados, e dando conta de atender os clientes, estudar e repassar minimamente o caso de cada um e cumprir as tarefas de casa – as minhas, as do casal (sozinha) e as dele. O que eu não assumia, ficava sem fazer.

Jantava sozinha e deixava o prato do Henrique preparado: ele só precisava esquentar no aparelho de micro-ondas e, teoricamente, lavar o prato, o copo e os talheres que usasse: os que eu tinha usado eu mesma já deixava lavados, secos e guardados. 

Na conversa, Henrique foi muito carinhoso. Afirmou que me amava imensamente, mas disse que sentia saudades da Ana que conheceu e pela qual se apaixonou. Lembrou-me de nosso início, quando saíamos juntos, bebíamos conversando sobre tudo, passeávamos de mãos dadas e transávamos como se não houvesse amanhã (com esse último ponto, especificamente, eu não concordava muito, mas tudo bem, se era assim que ele se sentia em relação ao que fazíamos na cama... melhor!). Depois, com bastante cuidado, fez uma comparação entre o que eu já tinha sido e o que eu era agora: uma mulher desanimada, sempre pra baixo, reclamando de tudo e que estava roncando quando ele chegava cheio de amor pra dar. Prometi melhorar e ele me deu uma nova chance.

Após o papo, ele quis transar e eu achei melhor não contar que não estava afim. Naquela noite apenas meus olhos umedeceram: terminado o que mais me pareceu um ataque de britadeira do que qualquer outra coisa, Henrique foi se lavar e, na volta pro quarto, dirigindo-se à mesa do computador, ele me perguntou se eu tinha dado uma engordadinha.

- Acho que sim – foi o que consegui responder.

*

Fiquei livre do Free. Inacreditável o esforço que me custou: se alguém me contasse antes daquela “Chopp e Dança” que um dia eu teria tremedeiras e pesadelos ao passar 24h sem dar uma tragada naquele treco que irritava minha garganta, me fazia tossir e ainda deixava meu cabelo imensamente fedido, eu diria que era mentira.

O dinheiro que deixei de gastar com o cigarro, eu resolvi usar pra comprar pó de guaraná e pastilhas de vitamina B: queria ver se conseguia ficar mais disposta. Voltei a usar batom e passei a jantar só salada. Queria que o Henrique tivesse a mulher que merecia.

Não é que do sono eu também tenha conseguido me libertar, mas fui conseguindo me manter acordada até mais tarde. Henrique chegava, me dava um beijo na testa e ia tomar banho enquanto eu esquentava o prato dele e preparava a minha salada. Jantávamos juntos e eu me esforçava horrores pra não bocejar enquanto ele falava sobre coisas que eu não queria que ele percebesse que eu não estava acompanhando: Durkheim, a Escola Francesa e a coesão social; Weber, a ética protestante e a cínica defesa da busca da riqueza como um dever moral por meio da dedicação ao trabalho; Norbert Elias e a diferença entre os conceitos de civilização e cultura... Enfim. Ele parecia o professor e eu a aluna – mas nem de longe ele o competente professor Aguiar e nem eu, muito menos, a entusiasmada Ana da Psicologia.

*

Raramente Henrique falava de alguém do seu convívio. Nada de fofocas, nada de indiscrições. Mais do que uma vez, porém, fez referência a um casal de colegas, professores, os dois, de Português: a Gisele e o Antônio. Sempre de maneira elogiosa. Dentro da minha luta por agradá-lo, sugeri de convidá-los pra jantar em casa uma noite.

- Parece que você gosta desses dois...

Henrique abriu um sorriso na hora. Ficou empolgado. Falou maravilhas deles.

- Você vai adorá-los.

Era sábado, Henrique contatou-os via whatsapp. O encontro ficou agendado pra sexta-feira seguinte: ontem. Viriam os três juntos, direto da escola.

*

Elaborei o cardápio e fiz sozinha a compra no supermercado. Além disso, dei cabo de tudo o que me cabia na nossa divisão de tarefas, dentre as quais se destacavam a faxina geral e a preparação do jantar.

Uma meia hora antes do horário programado pra eles chegarem, com tudo pronto, eu tive uma ideia. Pensei que se o Henrique se sentisse constrangido diante de pessoas que admirava, talvez percebesse quão importante seria cumprir as obrigações que acordamos serem dele – e que estas não se tratavam apenas de chatices de uma mulher cricri e infeliz. Coloquei de volta no sofá a roupa usada que ele havia deixado jogada na noite anterior: camiseta, calça, meias e cueca.

Henrique recolheu a roupa assim que a viu, talvez antes de que os convidados tivessem se dado conta. Pra minha surpresa, ele serviu o jantar – e mais: com desenvoltura. Conversou animadamente, todo sorrisos, sempre solícito e esbanjando carinhos. Recebi até cafuné em determinado momento.

Gostei do casal, sim. Mais dela, talvez. Não que eu não tenha gostado do cara, mas a Gisele é mesmo encantadora. O Antônio, perto dela, me pareceu um pouco bobo. Talvez eu esteja sendo injusta. Mas, sei lá, acho que ela é tipo o sol e ele a lua. Bem, não interessa.

Depois que os dois foram embora, mais de uma da manhã, fui retirar os pratos de sobremesa da mesa e levá-los à pia, enquanto Henrique os acompanhava na espera pelo elevador. Assim que ele fechou a porta, veio resoluto em minha direção. Eu já estava diante da pia, de costas pra ele, com aquela louça nas mãos. Acho que teria dado tempo de escapar, mas fiquei paralisada com a bronca.

- Sua vaca, acha que eu não percebi?

Foi isso o que ele disse, antes de me empurrar. Bati a cabeça no armário que fica em cima da pia e caí, com os pratinhos de bolo, que se estilhaçaram ferindo meus braços. Não sei se desmaiei ou se dormi depois de tanto chorar.

Acordei há pouco, com o sol de sábado invadindo a cozinha. O Henrique não está em casa. Fez-se um galo na minha testa e acabei de passar merthiolate nos cortes que as lascas dos pratos da sobremesa me proporcionaram. Vou recolher os cacos e depois passar o esfregão no chão, pra limpar o sangue.

Depois só vai me restar lavar o resto da louça do jantar.