A
gente se conheceu por conta do movimento estudantil: bem articulado, seguro de
si, Henrique vivia interrompendo as aulas de todos os cursos da universidade
pra dar informes do D.C.E. Os professores faziam caretas, bufavam até: mas
nenhum deles ousava proibi-lo de dar seu recado.
Lembro-me
de que na primeira vez que ele entrou na sala do primeiro ano da psico, apesar
de tê-lo achado gato com aqueles longos cabelos cacheados e a barba por fazer,
senti uma leve irritação. Estávamos no meio de uma aula expositiva cujo tema
muito me interessava: o professor Aguiar nos guiava na análise dos debates
sociológicos do século XX esmiuçando o “A dominação masculina”, do Bourdieu.
Sociologia era, dentre as disciplinas obrigatórias do ciclo inicial, a que eu
mais gostava. O recado do Henrique era sobre carteirinha estudantil.
Outras
visitas à minha sala aconteceram (sem que eu me irritasse mais nenhuma vez) até
que trocássemos nossas primeiras palavras, numa festa chamada “Chopp e Dança”,
organizada pelo Diretório Central com o intuito (era o que se alegava) de
arrecadar fundos que permitissem a aquisição de computadores pra sede do Centro
Cultural Machado de Assis, do Diretório Acadêmico da Faculdade de Letras. Eu
não era boa de forró (nem sou ainda) e resolvi me sentar numa mureta esperando
a bebida choca esquentar no copo plástico que eu segurava na mão enquanto a
galera se esfregava. Como não queria passar uma imagem de garota quadrada, tive
a ideia de comprar um maço de Free antes
de ir pra festa. Eu já tinha dado umas tragadas em cigarros de uma amiga lá de
Ipaussu, mas nunca tinha tido um pra chamar de meu. Aliás, eu não gostava de
cigarro: a minha garganta irritava, eu tossia alto e depois me incomodava com
aquele fedor característico no cabelo. Mas achei de bom tom levar um cigarro
pra festa, pra mostrar que era adulta, quase independente. Estava então naquela,
avaliando se tirava o maço da bolsa e abria o invólucro, quando ele se
aproximou.
-
Também não tá curtindo?
Ri
e perguntei se eu estava dando muito na cara.
-
Não tá, não... É que eu não consegui parar de te olhar desde que você chegou...
Daí ficou fácil perceber.
Claro
que minha bochecha esquentou e eu não soube o que responder. Provavelmente
fiquei vermelha. Gaguejei qualquer coisa e ele se apresentou, como se
precisasse.
-
Sou o Henrique, da história.
-
Prazer, Henrique da História. Sou a Ana, da Psicologia.
O
Henrique riu e eu fiquei feliz pela minha tirada: nunca fiz grandes coisas em
termos de humor. Mas ele era melhor do que eu.
-
Na verdade, nesse caso, eu sou o Henrique da Sociais. Quando eu disse, Ana da
Psicologia, que era o Henrique da história, eu queria dizer que era o Henrique
da história da Cinderela. O Príncipe Encantado.
Eu
nunca soube que o Príncipe Encantado da Cinderela se chamava Henrique, mas
aqueles olhos azuis me fitando não me deixaram fazer qualquer objeção.
-
Sou a Cinderela, então?
-
Não, você é a Ana da Psicologia. E ainda bem, porque eu não sei onde enfiei o
sapatinho...
Uma
amiga dele, que então eu não conhecia (a Larissa, vim a saber depois), chegou
perto da gente, interrompendo e sem nem sequer olhar pra mim.
-
Você não vem, Prince?
Prince?
Putz, o Henrique já tinha jogado essa cantada de Príncipe Encantado antes!
-
Quer vir também? A gente vai fumar um beck
ali atrás...
Eu,
que estava achando o máximo do descolamento acender um Free, dispensei.
-
Tô de boa, obrigado. E já é quase meia-noite, minha carruagem tá me esperando.
Henrique
quase gargalhou.
-
A gente se fala então. Beijão.
Guardei
meu maço de cigarros na bolsa, saltei da mureta e fui buscar a minha carruagem:
algum táxi que passasse por ali naquela hora.
*
Foi
uma coincidência, com certeza, mas as interrupções às aulas pra recados do
D.C.E., antes constantes (eu chutaria dizer que semanais), praticamente pararam
de acontecer depois de minha conversa com o Henrique na “Chopp e Dança”. Sendo
exata, até o final daquele semestre apenas duas vezes recebemos informes – e em
nenhuma delas foi o Henrique quem apareceu pedindo licença ao professor e
atenção aos estudantes: foi uma tal de Jeise, ou Jasy, ou Jasi, sei lá como se
chamava a menina. Depois disso, sei que o D.C.E. foi assumido por um grupo de
estudantes majoritariamente engajados com gestão de empresas e negócios.
Pessoal da Administração, da Engenharia, Ciências da Computação, essas coisas.
“Gente Nova”, era o nome da chapa 2, que acabou ganhando as eleições na
justiça, após suposta fraude numa urna da Filosofia. Acho que estão lá até
hoje, mas não posso garantir.
Nesse
período sem vê-lo, primeiramente senti raiva de mim. O cara realmente tinha me
balançado. Por que não aceitei ir lá dar um trago? Por que não dei um jeito de
passar meu telefone pra ele? Eu precisava ter sido tão puritana? Depois, fiquei
com dor-de-cotovelo. Prince... Eu podia apostar que a Larissa, de quem eu ainda
não sabia o nome, já tinha aceitado a cantada dele – ridícula, aliás. Safada. E
eu ficando vermelha, gaguejando (mesmo na fase dor-de-cotovelo eu continuei com
raiva de mim mesma). Por fim acabei deixando o Henrique guardado com carinho
num canto da memória e passei a me sentir melhor, menos infantil. Andei dando
umas ficadas com uns quatro ou cinco caras que davam em cima de mim e passei a
fumar cotidianamente – Free, não
maconha.
*
Nosso
reencontro foi em outra festa. Contra todos os prognósticos, foi ele quem me
reconheceu primeiro. Embora eu tivesse entrado na faculdade dois anos depois do
Henrique, estávamos nos formando juntos: e aquela era a festa do “Bota Fora”.
Sem
barba nem madeixas, mas ainda com aqueles olhos azuis que tanto me
impressionaram anos antes, ele me perguntou, sorrindo, se meu gosto musical
havia evoluído ou se eu ainda não percebia a complexidade estética do forró
universitário.
Diferentemente
do nosso primeiro e curto bate-papo, neste eu não me senti em momento algum
insegura: pelo contrário, mantive-me bem confortável – e não porque, tal qual
Sansão, a força de Henrique residisse em seus cabelos, mas sim porque eu já
tinha sacado que ele não era candidato ao posto de Príncipe Encantado da minha
vida, já que a ideia de mulheres esperando seu Príncipe Encantado havia algum
tempo me dava nojo.
Inclusive
foi sobre questões de gênero que mais conversamos. Falei sem parar sobre o
papel da mulher nesta nossa sociedade patriarcal – e ele me escutou com
atenção. Ao invés de sair em busca da minha carruagem, quando a festa acabou
fui pra casa dele em seu fusca amarelo.
Henrique
morava sozinho, em um apartamento bem simpático cuja sala mais se parecia a um
sebo, com inúmeros livros surrados bem organizados em prateleiras de ferro.
Transar
com Henrique não foi nada de excepcional, se sou sincera. Nem pro bem e nem pro
mal. A única coisa que me intrigou foi o fato de ele ter se levantado e ido ao
banheiro se lavar depois de ter gozado, não voltando à cama, mas sim indo
direto à mesinha onde ficava seu computador, ali no quarto mesmo.
-
Preciso dar uma olhada na internet.
Como
um dos assuntos sobre o qual tínhamos conversado na festa foi o machismo travestido
de gentileza que existe no ato de o homem sempre pagar a conta do jantar,
calculei que ele estivesse considerando a possibilidade de eu interpretar como
também machista o fato de homem e mulher dormirem abraçadinhos depois do sexo.
Puxei a coberta e, antes de me virar pra acabar com meu sono, percebi que o que
ele precisava olhar na internet era um joguinho virtual.
*
Apesar
de não nomearmos a nossa relação (caso?, namoro?, amizade colorida?), passei a
frequentar mais o apartamento dele do que o meu – o que acabou me trazendo
alguns problemas, especialmente no que diz respeito a roupas e itens de higiene
pessoal. Muitas vezes quis escovar os dentes e minha escova não estava no
armarinho do meu banheiro, por exemplo. Ou então quis usar um vestido vermelho
e ele não estava no armário do Henrique. Et
cetera.
Com
os dois em início de carreira (ele dando aulas como substituto em uma escola da
rede estadual e eu atendendo pouquíssima gente em uma sala porcamente adaptada
de um prédio comercial que me comia 40% do valor da consulta), tivemos a ideia
de juntar os trapos e rachar algumas despesas. Ok, eu tive a ideia. No entanto,
demorei um pouco pra apresentá-la ao Henrique: com tudo o que eu já tinha
ouvido da boca dele sobre Engels e a origem da família, tive medo de perder o
que tínhamos (seja lá que nome isso que tínhamos tivesse) se simplesmente
mencionasse a possibilidade de ele e meus pais se conhecerem – mas, por outro
lado, sei que não haveria chance de não se armar uma guerra se meus pais
soubessem que eu pretendia, primeiro, não renovar o contrato de aluguel do
apartamento que eles me ajudaram a encontrar quando me mudei pra Campinas e,
segundo, ir morar com um “desconhecido”.
O
Henrique curtiu a ideia, no entanto. De maneira que fomos passar um fim de
semana em Ipaussu e meus pais se encantaram com ele. Dei muita risada com o
quão puxa-saco meu namorado (assim ele se apresentou aos meus coroas) conseguiu
chegar a ser. O bolo formigueiro da minha mãe foi o melhor que ele comeu na
vida e combinou divinamente (divinamente!) com o licor de jabuticaba. Pescar é
o seu passatempo preferido e a dica da isca que meu pai deu é sensacional,
“coisa de profissional”. As novelas de hoje em dia estão muito apelativas (a
Janete Clair faz uma falta tremenda à nossa televisão) e desde 82 nenhuma
seleção brasileira foi capaz de jogar o futebol arte (nem mesmo as que ganharam
a Copa do Mundo de lá pra cá).
*
Contei
pro Henrique, numa pizzaria, na noite em que comemorávamos o nosso segundo ano
juntos, que o proprietário da sala que eu usava como consultório a tinha pedido
de volta.
-
Você nunca gostou de lá mesmo.
Era
verdade. Porém, também era verdade que a localização do prédio, num bairro
central, era um grande diferencial que eu podia oferecer aos interessados em me
contar suas queixas, suas decepções, suas angústias e seus problemas
existenciais. Eu temia perder clientes se meu consultório ficasse fora de mão.
-
Pô, mas vamos combinar que se alguém deixar de ir à terapia porque tem que
andar um pouco mais pra chegar no consultório... É que ela não tá funcionando
direito, né?
Claro.
Contudo, quatro pessoas preferiram trocar de psicólogo a trocar de bairro. E
essas quatro significavam 50% da minha renda – não eram do convênio.
Evidentemente,
precisaríamos cortar custos. A primeira medida que tomei foi reorganizar o
esquema que tínhamos com o carro (aquele mesmo fusca amarelo do Henrique): ao
invés de eu levá-lo à escola de manhã, ir ao consultório e depois buscá-lo no
fim da tarde, pra então voltarmos juntos pro apartamento, passei a usar o
ônibus que passa na nossa rua e que tem um ponto a duas quadras do consultório
novo. Minha ideia era que também o Henrique fosse de busão pro emprego, mas ele
não aceitou – e no fim do primeiro mês de implementado esse nosso novo esquema,
ele ainda quis me cobrar metade da conta da gasolina. Fiquei meio chocada
quando ele me pediu o dinheiro e estupefata quando o vi sair do apartamento
batendo a porta depois de berrar que eu estava empatando a vida dele.
Naquela
noite me dispus a esperá-lo voltar pra conversarmos e acertarmos as coisas, uma
besteira daquelas, não tinha por que ficarmos brigados. Acontece que no dia
seguinte eu tinha cliente no primeiro horário e, com essa de pegar ônibus, não
dava pra enrolar de manhã – de maneira que não pude ir dormir muito tarde... À
uma e meia fui pra cama, contar carneirinhos.
Não
vi a que horas ele chegou, mas quando acordei percebi que tínhamos feito as
pazes sem nem mesmo ter tido uma conversa sobre o assunto: em cima do
travesseiro dele havia um Sonho de Valsa e um bilhete em que ele me dizia
qualquer coisa sobre eu ser a gasolina que mantinha acesa a paixão dele. Apesar
de brega no último, aquilo me acalmou. Ouvi barulho na cozinha e percebi que
era ele arrumando um café-da-manhã pra mim. Levantei, tomei um banho de gato e
fui pra sala, onde a mesa posta servia de anteparo a um garotão de charmoso sorriso
que me chamou de linda e perguntou se eu queria o café puro ou com leite.
Não
gostei da forma como “resolvemos” a discussão, mas não tive ânimo de reavivá-la
– e o episódio ficou por isso mesmo. Lembro-me de que tive vontade de buscar
uma terapia pra mim, pra me fortalecer, pra entender o porquê de eu deixar
passar uma mancada assim dele (justo eu que saía em defesa da minha mãe a cada
vez que meu pai soltava algum comentário idiota). Evidentemente acabei não indo
atrás de terapia nenhuma: o momento era de cortar custos – não de ampliá-los.
*
A
mais dolorosa das contenções de gastos que consegui nos impor foi a Dona Maria.
Dona Maria era a faxineira que mantinha o apartamento simpático desde os tempos
em que Henrique morava sozinho. Ela aparecia duas vezes por semana: às segundas
e às sextas. Limpava, aspirava, varria, lavava, encerava, passava, guardava e
ainda deixava prontas nossas marmitazinhas no congelador. Não conversava muito
com o “patrão”, mas comigo era só papo. O Henrique não sabia, por exemplo, que
ela tinha duas filhas da nossa idade – muito menos que já fora avó e que seu
netinho morrera um ano depois de ela começar a fazer faxina pro estudante da
Sociais tão interessado na classe trabalhadora. Quando contei pra ela que
teríamos que demiti-la, emocionei-me um pouco e minha voz saiu embargada.
-
Não te preocupa, minha filha. Eu sei que isso é coisa do Seu Henrique.
Não
tive coragem de desmentir, mas o fato é que, por ele, ela ficava. Não adiantava
eu argumentar que não tínhamos dinheiro pra nos dar esse luxo de ter alguém
cuidando dos nossos afazeres domésticos: ele sempre armava a retranca e me indagava
como é que podia ser que quando ele estava solteiro não faltava dinheiro pra
faxineira.
Eu
não sabia responder, claro, mas hoje percebo que ele conhecia a resposta e que,
ao me fazer essa pergunta, me induzia a pensar que era eu a gastona responsável
pela caótica situação financeira em que nos encontrávamos. Agora, olhando
praquele episódio sabendo de como vem se encaminhando nosso relacionamento,
tenho pra mim que, de duas, uma (ou talvez até de duas, duas): ou ele aumentou
os gastos ou alguma fonte de renda (tipo os pais dele, que vivem na Irlanda e
que eu nunca conheci) secou. A segunda é a alternativa em que mais acredito: é
bem factível os pais terem decidido parar de mandar uma hipotética mesada assim
que ele se formou (ele que tanto demorou pra pegar o canudo) e, além disso,
fora algumas vezes que senti cheiro de bebida alcoólica em seu hálito,
normalmente às sextas-feiras, não o percebi gastando muito – ele continua com
pouca roupa, não vai a teatro, cinema, balada... Vive lendo aquele monte de
livro usado e está cada vez mais magro.
Porém, vai saber, né? De vez em quando me pareceu ouvir a Larissa (de
quem já sei o nome!) agradecendo por um presente ou um mimo ou um favor, “ai
que fofo, não precisava”. Umas duas ou três vezes perguntei pro Henrique sobre a
qual presente ela se referia, mas ele me diz que não sabe do que é que eu estou
falando.
-
Você tá ouvindo vozes, não é possível.
Ele não usa cartão de crédito e então eu nunca
tive fatura pra bisbilhotar: comecei a achar que eu precisava mesmo de terapia.
*
Convencer
o Henrique de que tínhamos que dispensar a Dona Maria não foi fácil. Ele sempre
se alterava quando eu tocava no assunto e acabava me fazendo ver que vivia
melhor quando era solteiro.
Um
dia, porém, ele aceitou conversar.
-
Olha, Ana, a gente senta e vê a situação; mas que fique claro que eu só tô
aceitando falar sobre isso por conta do imenso amor que sinto por você.
Mostrei
meus extratos bancários, os boletos a pagar, as contas atrasadas. Falei do
quanto poderíamos fazer e onde poderíamos alocar o dinheiro que pouparíamos sem
precisar entregar as entre oito e dez diárias pra Dona Maria todos os meses.
-
Olha, Ana, tá bom. Eu vou então abrir mão de um conforto que me acompanha desde
quando eu tava na facul. Triste, sabe? Até pensando na Dona Maria, entendeu?
Esse dinheiro é muito mais importante pra ela do que pra você. Mas tudo bem, se
é assim que você quer, que seja feito. Só que eu não vou ter coragem de falar
com ela, você fale quando eu não estiver por aqui.
Apresentei pra ele um plano com divisão de
tarefas pro “pós-Dona Maria”. Assumi grande parte dos afazeres, não era ingênua
de acreditar que ele aceitaria de boa assumir muita coisa. Pra ele deixei
coisas como colocar a própria roupa suja no cesto (!), tirar o lixo e lavar a
louça. Feira e supermercado eu marquei como função conjunta do casal. O resto,
deixei pra mim. Ele topou.
*
Meses
depois da partida da Dona Maria, vi um bilhete em cima da mesinha da cozinha.
“Ana,
por favor, não vá dormir antes de eu chegar. Precisamos conversar sobre a
gente. Beijos, Henrique.”
Já
havia semanas que eu caía morta de sono todas as noites antes das 23h, depois
de passar o dia enfrentando o total de uma hora e meia (ou duas horas se
computarmos o tempo médio de espera no ponto) em dois ônibus, geralmente
lotados, e dando conta de atender os clientes, estudar e repassar minimamente o
caso de cada um e cumprir as tarefas de casa – as minhas, as do casal (sozinha)
e as dele. O que eu não assumia, ficava sem fazer.
Jantava
sozinha e deixava o prato do Henrique preparado: ele só precisava esquentar no
aparelho de micro-ondas e, teoricamente, lavar o prato, o copo e os talheres
que usasse: os que eu tinha usado eu mesma já deixava lavados, secos e
guardados.
Na
conversa, Henrique foi muito carinhoso. Afirmou que me amava imensamente, mas
disse que sentia saudades da Ana que conheceu e pela qual se apaixonou.
Lembrou-me de nosso início, quando saíamos juntos, bebíamos conversando sobre
tudo, passeávamos de mãos dadas e transávamos como se não houvesse amanhã (com esse
último ponto, especificamente, eu não concordava muito, mas tudo bem, se era
assim que ele se sentia em relação ao que fazíamos na cama... melhor!). Depois,
com bastante cuidado, fez uma comparação entre o que eu já tinha sido e o que
eu era agora: uma mulher desanimada, sempre pra baixo, reclamando de tudo e que
estava roncando quando ele chegava cheio de amor pra dar. Prometi melhorar e
ele me deu uma nova chance.
Após
o papo, ele quis transar e eu achei melhor não contar que não estava afim.
Naquela noite apenas meus olhos umedeceram: terminado o que mais me pareceu um
ataque de britadeira do que qualquer outra coisa, Henrique foi se lavar e, na
volta pro quarto, dirigindo-se à mesa do computador, ele me perguntou se eu
tinha dado uma engordadinha.
-
Acho que sim – foi o que consegui responder.
*
Fiquei
livre do Free. Inacreditável o
esforço que me custou: se alguém me contasse antes daquela “Chopp e Dança” que
um dia eu teria tremedeiras e pesadelos ao passar 24h sem dar uma tragada
naquele treco que irritava minha garganta, me fazia tossir e ainda deixava meu
cabelo imensamente fedido, eu diria que era mentira.
O
dinheiro que deixei de gastar com o cigarro, eu resolvi usar pra comprar pó de
guaraná e pastilhas de vitamina B: queria ver se conseguia ficar mais disposta.
Voltei a usar batom e passei a jantar só salada. Queria que o Henrique tivesse
a mulher que merecia.
Não
é que do sono eu também tenha conseguido me libertar, mas fui conseguindo me
manter acordada até mais tarde. Henrique chegava, me dava um beijo na testa e
ia tomar banho enquanto eu esquentava o prato dele e preparava a minha salada.
Jantávamos juntos e eu me esforçava horrores pra não bocejar enquanto ele
falava sobre coisas que eu não queria que ele percebesse que eu não estava acompanhando:
Durkheim, a Escola Francesa e a coesão social; Weber, a ética protestante e a
cínica defesa da busca da riqueza como um dever moral por meio da dedicação ao
trabalho; Norbert Elias e a diferença entre os conceitos de civilização e
cultura... Enfim. Ele parecia o professor e eu a aluna – mas nem de longe ele o
competente professor Aguiar e nem eu, muito menos, a entusiasmada Ana da Psicologia.
*
Raramente
Henrique falava de alguém do seu convívio. Nada de fofocas, nada de
indiscrições. Mais do que uma vez, porém, fez referência a um casal de colegas,
professores, os dois, de Português: a Gisele e o Antônio. Sempre de maneira
elogiosa. Dentro da minha luta por agradá-lo, sugeri de convidá-los pra jantar
em casa uma noite.
-
Parece que você gosta desses dois...
Henrique
abriu um sorriso na hora. Ficou empolgado. Falou maravilhas deles.
-
Você vai adorá-los.
Era
sábado, Henrique contatou-os via whatsapp.
O encontro ficou agendado pra sexta-feira seguinte: ontem. Viriam os três
juntos, direto da escola.
*
Elaborei
o cardápio e fiz sozinha a compra no supermercado. Além disso, dei cabo de tudo
o que me cabia na nossa divisão de tarefas, dentre as quais se destacavam a
faxina geral e a preparação do jantar.
Uma
meia hora antes do horário programado pra eles chegarem, com tudo pronto, eu
tive uma ideia. Pensei que se o Henrique se sentisse constrangido diante de
pessoas que admirava, talvez percebesse quão importante seria cumprir as
obrigações que acordamos serem dele – e que estas não se tratavam apenas de
chatices de uma mulher cricri e infeliz. Coloquei de volta no sofá a roupa
usada que ele havia deixado jogada na noite anterior: camiseta, calça, meias e
cueca.
Henrique
recolheu a roupa assim que a viu, talvez antes de que os convidados tivessem se
dado conta. Pra minha surpresa, ele serviu o jantar – e mais: com desenvoltura.
Conversou animadamente, todo sorrisos, sempre solícito e esbanjando carinhos.
Recebi até cafuné em determinado momento.
Gostei
do casal, sim. Mais dela, talvez. Não que eu não tenha gostado do cara, mas a
Gisele é mesmo encantadora. O Antônio, perto dela, me pareceu um pouco bobo.
Talvez eu esteja sendo injusta. Mas, sei lá, acho que ela é tipo o sol e ele a
lua. Bem, não interessa.
Depois
que os dois foram embora, mais de uma da manhã, fui retirar os pratos de
sobremesa da mesa e levá-los à pia, enquanto Henrique os acompanhava na espera
pelo elevador. Assim que ele fechou a porta, veio resoluto em minha direção. Eu
já estava diante da pia, de costas pra ele, com aquela louça nas mãos. Acho que
teria dado tempo de escapar, mas fiquei paralisada com a bronca.
-
Sua vaca, acha que eu não percebi?
Foi
isso o que ele disse, antes de me empurrar. Bati a cabeça no armário que fica
em cima da pia e caí, com os pratinhos de bolo, que se estilhaçaram ferindo
meus braços. Não sei se desmaiei ou se dormi depois de tanto chorar.
Acordei
há pouco, com o sol de sábado invadindo a cozinha. O Henrique não está em casa.
Fez-se um galo na minha testa e acabei de passar merthiolate nos cortes que as lascas dos pratos da sobremesa me
proporcionaram. Vou recolher os cacos e depois passar o esfregão no chão, pra
limpar o sangue.
Depois só vai me restar lavar o resto da louça do jantar.