sábado, 12 de novembro de 2016

BORBOLETA

Ana Lívia e Rafael já namoravam havia dois anos quando decidiram dividir um apartamento. Tinham hábitos parecidos, visões de mundo equivalentes e nutriam um carinho mútuo: não se incomodavam com a presença um do outro. O principal motivo pra juntarem os trapos, no entanto, foi a possibilidade de cortarem custos.

A gravidez ainda esperou mais três anos: foi só quando Rafael conseguiu sua promoção a gerente no banco e passou a ganhar mais do que Ana Lívia, então já estabelecida como professora na escola na qual estagiava na época em que os dois se conheceram num show do Paralamas, que eles se sentiram seguros pra dar esse passo.

Organizaram escalas de acordo com o período fértil de Ana Lívia e se esforçaram pra não marcar nenhum outro compromisso nos dias reservados ao coito sem preservativo (uma novidade pros dois). A fecundação dos óvulos, porém, custou um pouco mais do que haviam previsto.

Duas coisas atrapalhavam Rafael: a primeira é que ele não ficava confortável ao sentir o contato direto entre seu pinto e os fluidos que emergiam de Ana Lívia; a segunda é que, mesmo quando conseguia superar o incômodo, ele imediatamente perdia a ereção ao se lembrar de que estavam ali com o intuito de procriar. De pouco adiantavam as novas posições, os diferentes brinquedos, a variação dos ambientes – tudo isso, aliás, antes mais o atrapalhava do que ajudava: não conseguia verbalizar, mas sentia que o que faziam era sujo. E ele queria que houvesse algo de pureza na concepção. Queria que Ana Lívia fosse Maria.

Nessas condições, Rafael percebeu que sentia um prazer maior ao masturbar-se folheando as revistas da adolescência do que ao transar e passou a temer que talvez estivesse capacitado pra dar vida apenas a grãos de feijão acondicionados em pedaços de algodão humedecidos.

Mas Ana Lívia foi compreensiva e paciente como sempre – e, nessa empreitada, insistente e persuasiva como nunca.

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Pro Rafael, a emoção do anúncio de que o ultrassom indicava um menino foi diferente daquela provocada pela confirmação da gravidez. Sentiu-se feliz com as duas notícias que Ana Lívia lhe deu, mas não de maneira equivalente.

Quando chegou do serviço no final da tarde em que sua companheira lhe recebeu na porta, chacoalhando três tirinhas azuis, Rafael estava pensando em formas de alcançar a meta de abertura de contas que a cada dia parecia mais distante naquele seu quarto mês como gerente do banco. Saber que tinha conseguido cumprir essa outra tarefa que lhe havia sido imposta naquele momento de sua vida, trouxe-lhe imenso alívio.

Quando recebeu em seu celular, durante uma reunião, a mensagem “É menino”, não foi alívio o que ele sentiu – até porque não estava muito preocupado com isso. O que sentiu foi, de um jeito inesperado, um imenso entusiasmo.

E foi entusiasmado (muito mais entusiasmado do que Ana Lívia teria querido que ele ficasse) que Rafael passou os nove meses seguintes. Fotos da barriga crescendo foram várias: ao menos uma por dia a partir de então. Pessoas às quais ele apresentou a mulher que iria parir seu filho, inúmeras: colegas, clientes, desconhecidos. Presentinhos pro filho, um desmando: quase não cabiam no quarto de parede azul que montaram pra ele.

Ana Lívia sinalizava seu desconforto em várias das situações em que a excitação de Rafael passava dos limites, como quando, por exemplo, ele sugeria a algum amigo que tocasse em sua barriga para sentir os pontapés do futuro centroavante da Ponte Preta. Ele parecia não entender.

Mas ela, por outro lado, também contribuiu para o exagerado arrebatamento do companheiro ao lhe propor, um dia depois da confirmação de que teriam um menino, que o filho se chamasse Rafael Júnior. Foi quase uma epifania.

*

Rafael Júnior nasceu bem, de parto natural – um pouco menor e mais leve do que a média (40 centímetros cravados e 2kg600g), mas de resto nada assustava: boa tonicidade, testículos no interior do escroto, frequência cardíaca ok, respiração a contento, nenhuma fratura (e nem sequer um hematoma) no pescoço ou na clavícula, visão e audição perfeitas, motricidade global e reflexos em ordem. Foi o dia mais feliz da vida de Rafael, que sentia alívio e entusiasmo ao mesmo tempo.

Emendando suas férias à exígua licença paternidade, o bom bancário conseguiu afastar a sogra de sua casa nas primeiras semanas que viveu como pai. E, Ana Lívia concordava, isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido: se, mesmo estando longe, Dona Lurdes os enchia de conselhos (“Só teu leite não basta”, “Se ele tá chorando é que tá com fome”, “Bebê tem que dormir agasalhado”, “Fralda de pano não dá assadura”), estando perto seria um trator.  

Rafael Júnior sorria muito ao ver o pai, que acabava se comovendo a cada vez que o pegava no colo, trocava uma fralda ou o fazia embalar no sono. Ana Lívia se surpreendia com a capacidade de amar que seu companheiro demonstrava, nitidamente sem nenhum esforço, possuir.

A licença e o período de férias não duraram pra sempre, obviamente, e Rafael teve que voltar a trabalhar. Pela primeira vez desde que entrara como escriturário no banco, chegou atrasado. Passou o primeiro dia longe de seu filho olhando pro relógio, como se assim pudesse adiantar as horas. Voltou pra casa na hora do almoço e quase enforcou a tarde. Separar-se de Rafael Júnior era muito sofrido.

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Tudo correu dentro dos conformes com o bebê, que acabou se transformando em uma criança saudável e sorridente. A única coisa que chamava a atenção é que ele era menor e mais magrinho que os demais pimpolhos de sua idade – mesmo sendo filho de uma mãe e de um pai grandes e pesados.

Talvez não tenha sido por conta de tal característica, mas o certo é que Rafael Júnior continuou mantendo vivo em seu pai um proceder altamente protetor – até que um dia (quando um vizinho perguntou a Rafael sobre o “Chaveirinho” e ele respondeu de atravessado) Ana Lívia pontuou a seu companheiro esse excesso de zelo e ele começou a tentar se controlar. Não queria que o filho sofresse, Ana Lívia entendia isso, mas seria impossível estarem sempre ao lado dele, e, se quisesse ser feliz, o menino deveria aprender desde cedo a se valer.

*

E parecia que sim, que Rafael Júnior foi aprendendo a superar os obstáculos. Sua perspicácia surpreendeu a todos, por exemplo, quando aos quatro anos, na casa de Dona Lurdes, foi posar pruma foto na companhia de seus dois priminhos – um mais velho e o outro mais novo. Estavam os três com roupinha social e alguém encasquetou que fizessem uma escadinha. O problema é que ou faziam uma escadinha por idade (o que para Ana Lívia e Rafael seria o natural), ou se organizavam por altura (o que para a cunhada e o concunhado de Rafael seria o correto) – e Rafael Júnior era menor do que seu primo mais novo. Enquanto os pais discutiam por esse detalhe besta, o menino correu pro quarto da avó e voltou de lá calçando um par de sapatos de salto alto, rindo e dizendo “pronto”.

Percebendo que Rafael Júnior nunca seria o fortão de nenhuma turma, o bancário passou a contar pra todo mundo como seu filho era inteligente. Mas essa fase quase acabou no aniversário de seis anos do garoto.

Por estarem sempre correndo com seus afazeres profissionais, Ana Lívia e Rafael decidiram não organizar uma festinha pro filho em casa. Sem muita grana sobrando, porém, abriram mão de utilizar um buffet infantil. Resolveram juntar os parentes em uma pizzaria.

Todos os mais próximos compareceram, tanto do lado da família de Ana Lívia como do lado de Rafael. Oito mesas foram reservadas pro evento: seis pros adultos e duas pras crianças. Rafael foi organizando os convidados e decidiu que as meninas (suas quatro sobrinhas) ficariam em uma mesa e que os meninos (os dois sobrinhos de Ana Lívia e mais Rafael Júnior) ficariam em outra. Rafael tinha sido bem claro em sua orientação e as crianças estavam bem atentas. Rafael Júnior nunca tinha tido problema de audição e fazia cara de quem estava concordando com a decisão do pai. Mas assim que seu progenitor disse “Então, vamos lá, criançada!”, ele se encaminhou pra mesa das meninas. Rafael teve que puxá-lo pra mesa correta e passou a desconfiar que seu filho não era tão inteligente quanto ele imaginava que fosse. Poxa, não conseguir entender uma instrução simples como essa...

Quando meses mais tarde a diretora da escolinha marcou uma reunião pra conversar com os dois sobre o Rafael Júnior, cresceu no pai o seu receio: será que além de fracote ele era mesmo burrinho?

*

Rafael estava, havia tempo, muito acima do peso e, embora ele não soubesse, sua faringe vivia irritada por conta do tabagismo. Somava-se a isso o fato de que seu queixo era levemente projetado pra trás e voilà: passava as noites roncando. Por conta da inapropriada sinfonia, e também porque desde que Ana Lívia engravidara nenhum dos dois voltara a se interessar pelo outro (eles que nunca foram muito animados mesmo pro sexo), o casal decidiu, em tempos já quase imemoriais, dormir em quartos separados. Mas na noite pós-reunião na escola, Rafael quis muito que Ana Lívia estivesse ao seu lado, pra dormirem abraçados. Não pôde ser. Ela passou a noite abraçada com a outra pessoa que vivia na casa.

Então, sozinho, ele chorou deitado enquanto relembrava a difícil conversa com a diretora, a psicóloga escolar e Ana Lívia.

*

A questão era que a escola suspeitava que Rafael Júnior tivesse nascido com transtorno de identidade de gênero. E também Ana Lívia – que foi quem pediu que a diretora marcasse o encontro com eles e a psicóloga, pois não tinha coragem, ou, como ela disse, não sabia a melhor forma de abordar o assunto se tivesse que fazer isso sozinha.

Não foi de supetão, claro, que as três lhe deram essa informação (que, aliás, como elas disseram, nem chegava a ser uma informação – era uma suspeita e o melhor talvez fosse que eles consultassem um especialista): antes enumeraram uma série de situações em que o comportamento de Rafael Júnior indicava que havia a possibilidade de ele se entender e se enxergar como uma menina. Agora  tudo reaparecia embaralhado em sua mente.

Rafael Júnior gosta de brincar de casinha. Ué, o que é que tem? Ele pode brincar de ser o pai! Rafael Júnior brinca de ser a mãe.

Rafael Júnior gosta de fingir que cozinha. Mas eu também cozinho, não é só você, Ana Lívia. Rafael Júnior me contou que tem medo de que um dia cresça barba no rosto dele como cresce no seu.

Rafael Júnior não gosta de pular na piscina sem camiseta. Rafael Júnior gosta de se sentar como as meninas. Rafael Júnior gosta de pegar emprestada a tiara de uma amiguinha. Rafael Júnior não gosta de se trocar na frente dos outros.

Eu vi o Rafael Júnior tomando banho lá em casa, Rafael! Abri o box e peguei ele lavando a cabeça... com uma mão ele passava xampu no cabelo e com a outra ele tapava o pinto: ele não quer ver o próprio corpo!

Rafael Júnior foi pego com uma tesoura da professora dele tentando cortar o próprio pênis.

Rafael Júnior gosta de assistir comigo os jogos da Ponte. Meninas também gostam de futebol, Rafael.

Rafael Júnior desenhou uma sereia quando pedi um autorretrato.

Rafael Júnior pediu pra professora chamá-lo de Rafaela.

Chamá-la.

Rafael Júnior pediu um leque de natal. E uma boneca. E um vestido. E pediu pra não ganhar carrinho.

Rafael Júnior me disse, Rafael, que não é o “meu garoto”.

Será que não é só uma fase?

O sono demorou, mas chegou. Eram três da manhã quando Rafael começou a roncar, com uma imagem resgatada de seis anos antes ocupando a sua mente:

Rafael estava no quarto da maternidade. Segurava o bebê que parara de chorar e acabava de lhe abrir um sorriso. A voz de Rafael agora ressoava em seu cérebro: eu nunca vou deixar que algo de ruim te aconteça. Nunca.

*
Às sete horas o despertador tocou. Da cozinha vinha o barulho do liquidificador batendo a vitamina de banana que sua companheira sempre lhe preparava e de uma conversa animada entre as mulheres de sua vida.


E foi assim que, naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Rafael deu por si na cama, transformado no pai de uma menina.

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