sábado, 20 de janeiro de 2018

ANO NOVO COM ANA

Já havia anos que não se sentava para escrever sua lista de resoluções de ano novo: como quase nunca as cumpria (na verdade, integralmente não havia cumprido nenhuma delas) e normalmente em julho sequer se lembrava de quais haviam sido as promessas e decisões do dezembro anterior, ele desistira de fazê-las. Não tinha sido uma resolução: acabara parando de escrever sua lista meio que sem perceber... Um ano não se animou a pô-la no papel, no seguinte não se lembrou, no subsequente não deu tempo... e assim parou.

Então foi meio sem jeito que se sentou à escrivaninha, em seu primeiro 31 de dezembro solitário, para recuperar aquele hábito por tanto tempo deixado de lado. Escolheu escrever em letra de forma, tamanho grande, na parte de cima da folha sulfite, centralizado, um título: PARA 2018. Usou uma caneta azul, que descartou em seguida: as promessas seriam feitas a lápis – o avançar da idade costuma trazer consigo certas sabedorias.

Afiou a ponta do lápis no estilete e, dois dedos abaixo do título, à esquerda da página, também em letra de forma, mas menor, escreveu 1ª RESOLUÇÃO:

Deixou-a em branco: não se arriscava a colocar no papel algo que não fosse cumprir – porque sim, havia decidido que esta lista cumpriria. E ficou sendo essa a primeira resolução para 2018: cumprir as resoluções que estivessem naquele documento. Mas, como eu disse, deixou-a em branco, não a escreveu: essa era uma resolução muito difícil de cumprir e, como sua coordenação fina já não estava tão boa quanto antes (também dessas coisas tem a idade), ele temeu empregar muita força no lápis e acabar deixando marcas na folha que uma borracha não fosse capaz de apagar no caso de desistir de cumpri-la.

Passou, portanto, para a 2ª RESOLUÇÃO, que escreveu meio dedo abaixo da primeira, sem subidas nem descidas, como se a folha sulfite tivesse linhas para orientar o caminho das letras. Ah, sim, que pilantra: agora vejo bem! Ele colocou uma folha pautada embaixo da folha sulfite e, na contraluz do abajur da escrivaninha, as linhas transpareciam. Malandragem de macaco velho!

Porém... o que era aquilo que tinha escrito? O que pode resolver para o ano novo um velho novato em viuvez?

Só uma coisa não lhe saía da cabeça: precisava voltar a viver com sua Ana. Se as coisas tivessem saído como deveriam ter saído, como seria o justo, o natural, quem estivesse escrevendo esta lista não teria esse problema a resolver: seria ele, cinco anos mais velho do que ela, quem estaria morto – e isso de viverem o ano seguinte lado a lado não seria uma decisão a ser tomada, posto que o suicídio impede a ida ao céu. Muito católica a Ana.

Ele, no entanto, era o vivo. E não era muito católico: tinha suas desconfianças, não acreditava em pecado. Por outro lado, no entanto, tampouco lhe parecia algo dado haver vida após a morte – e matar-se não lhe garantiria cumprir essa decisão de ano novo (caso ela fosse mesmo para o papel): viver 2018 ao lado de Ana. Assim, encontrar-se com Ana não foi a resolução, como poderiam julgar aqueles que encontraram seu corpo estatelado, inerte, no chão da calçada após a queda livre do décimo andar.


O que estava escrito ao lado de 2ª RESOLUÇÃO, em letra cursiva e bem firme, embora fina, era: Pagar pra ver.