Já havia anos que não se sentava para escrever sua lista de
resoluções de ano novo: como quase nunca as cumpria (na verdade, integralmente
não havia cumprido nenhuma delas) e normalmente em julho sequer se lembrava de
quais haviam sido as promessas e decisões do dezembro anterior, ele desistira
de fazê-las. Não tinha sido uma resolução: acabara parando de escrever sua
lista meio que sem perceber... Um ano não se animou a pô-la no papel, no
seguinte não se lembrou, no subsequente não deu tempo... e assim parou.
Então foi meio sem jeito que se sentou à escrivaninha, em
seu primeiro 31 de dezembro solitário, para recuperar aquele hábito por tanto
tempo deixado de lado. Escolheu escrever em letra de forma, tamanho grande, na
parte de cima da folha sulfite, centralizado, um título: PARA 2018. Usou uma
caneta azul, que descartou em seguida: as promessas seriam feitas a lápis – o
avançar da idade costuma trazer consigo certas sabedorias.
Afiou a ponta do lápis no estilete e, dois dedos abaixo do
título, à esquerda da página, também em letra de forma, mas menor, escreveu 1ª
RESOLUÇÃO:
Deixou-a em branco: não se arriscava a colocar no papel algo
que não fosse cumprir – porque sim, havia decidido que esta lista cumpriria. E
ficou sendo essa a primeira resolução para 2018: cumprir as resoluções que
estivessem naquele documento. Mas, como eu disse, deixou-a em branco, não a
escreveu: essa era uma resolução muito difícil de cumprir e, como sua coordenação
fina já não estava tão boa quanto antes (também dessas coisas tem a idade), ele
temeu empregar muita força no lápis e acabar deixando marcas na folha que uma
borracha não fosse capaz de apagar no caso de desistir de cumpri-la.
Passou, portanto, para a 2ª RESOLUÇÃO, que escreveu meio
dedo abaixo da primeira, sem subidas nem descidas, como se a folha sulfite
tivesse linhas para orientar o caminho das letras. Ah, sim, que pilantra: agora
vejo bem! Ele colocou uma folha pautada embaixo da folha sulfite e, na
contraluz do abajur da escrivaninha, as linhas transpareciam. Malandragem de
macaco velho!
Porém... o que era aquilo que tinha escrito? O que pode
resolver para o ano novo um velho novato em viuvez?
Só uma coisa não lhe saía da cabeça: precisava voltar a
viver com sua Ana. Se as coisas tivessem saído como deveriam ter saído, como
seria o justo, o natural, quem estivesse escrevendo esta lista não teria esse
problema a resolver: seria ele, cinco anos mais velho do que ela, quem estaria
morto – e isso de viverem o ano seguinte lado a lado não seria uma decisão a
ser tomada, posto que o suicídio impede a ida ao céu. Muito católica a Ana.
Ele, no entanto, era o vivo. E não era muito católico: tinha
suas desconfianças, não acreditava em pecado. Por outro lado, no entanto,
tampouco lhe parecia algo dado haver vida após a morte – e matar-se não lhe
garantiria cumprir essa decisão de ano novo (caso ela fosse mesmo para o
papel): viver 2018 ao lado de Ana. Assim, encontrar-se com Ana não foi a resolução,
como poderiam julgar aqueles que encontraram seu corpo estatelado, inerte, no
chão da calçada após a queda livre do décimo andar.
O que estava escrito ao lado de 2ª RESOLUÇÃO, em letra
cursiva e bem firme, embora fina, era: Pagar pra ver.
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