Ali, deitada, divagou:
se fosse eu,
teria escolhido lírios
Adriana Falcão
Seu semblante parecia atestar tranquilidade, mas era só mais um pouco do que sempre fizera em vida: um esforço para não desagradar os demais.
Não se conformava com o crucifixo acima de sua cabeça. Nem nessa hora respeitavam seu ateísmo! O conforto do caixão também a incomodava: gastarem dinheiro com madeira almofadada? Onde estavam com a cabeça?
Só de uma ou outra pessoa gostou de receber a visita final. De Adriana, sem dúvidas: uma querida, amicíssima de longa data! E decoradora de mão cheia... Como é que não pensaram em chamá-la para arrumar o velório? Com certeza não estaria esta cafonice!
Após o beijo na testa que recebeu de sua querida, sentiu-se cansada e parou de prestar atenção ao entra e sai de gente e aos pormenores da decoração. Passou a pensar no programa que a GNT transmitiria naquela noite, no livro que não conseguiria terminar de ler, na torta de amêndoas da Maria que nunca mais provaria e só na hora que iam fechar o caixão voltou a si e aos detalhes do evento.
Sentiu o nefasto perfume dos crisântemos, recebeu os lábios molhados dos parentes chorosos e ali, deitada, divagou: se fosse eu, teria escolhido lírios.
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