domingo, 11 de setembro de 2016

LOUÇA SUJA

A gente se conheceu por conta do movimento estudantil: bem articulado, seguro de si, Henrique vivia interrompendo as aulas de todos os cursos da universidade pra dar informes do D.C.E. Os professores faziam caretas, bufavam até: mas nenhum deles ousava proibi-lo de dar seu recado.

Lembro-me de que na primeira vez que ele entrou na sala do primeiro ano da psico, apesar de tê-lo achado gato com aqueles longos cabelos cacheados e a barba por fazer, senti uma leve irritação. Estávamos no meio de uma aula expositiva cujo tema muito me interessava: o professor Aguiar nos guiava na análise dos debates sociológicos do século XX esmiuçando o “A dominação masculina”, do Bourdieu. Sociologia era, dentre as disciplinas obrigatórias do ciclo inicial, a que eu mais gostava. O recado do Henrique era sobre carteirinha estudantil.

Outras visitas à minha sala aconteceram (sem que eu me irritasse mais nenhuma vez) até que trocássemos nossas primeiras palavras, numa festa chamada “Chopp e Dança”, organizada pelo Diretório Central com o intuito (era o que se alegava) de arrecadar fundos que permitissem a aquisição de computadores pra sede do Centro Cultural Machado de Assis, do Diretório Acadêmico da Faculdade de Letras. Eu não era boa de forró (nem sou ainda) e resolvi me sentar numa mureta esperando a bebida choca esquentar no copo plástico que eu segurava na mão enquanto a galera se esfregava. Como não queria passar uma imagem de garota quadrada, tive a ideia de comprar um maço de Free antes de ir pra festa. Eu já tinha dado umas tragadas em cigarros de uma amiga lá de Ipaussu, mas nunca tinha tido um pra chamar de meu. Aliás, eu não gostava de cigarro: a minha garganta irritava, eu tossia alto e depois me incomodava com aquele fedor característico no cabelo. Mas achei de bom tom levar um cigarro pra festa, pra mostrar que era adulta, quase independente. Estava então naquela, avaliando se tirava o maço da bolsa e abria o invólucro, quando ele se aproximou.

- Também não tá curtindo?

Ri e perguntei se eu estava dando muito na cara.

- Não tá, não... É que eu não consegui parar de te olhar desde que você chegou... Daí ficou fácil perceber.

Claro que minha bochecha esquentou e eu não soube o que responder. Provavelmente fiquei vermelha. Gaguejei qualquer coisa e ele se apresentou, como se precisasse.

- Sou o Henrique, da história.

- Prazer, Henrique da História. Sou a Ana, da Psicologia.

O Henrique riu e eu fiquei feliz pela minha tirada: nunca fiz grandes coisas em termos de humor. Mas ele era melhor do que eu.

- Na verdade, nesse caso, eu sou o Henrique da Sociais. Quando eu disse, Ana da Psicologia, que era o Henrique da história, eu queria dizer que era o Henrique da história da Cinderela. O Príncipe Encantado.

Eu nunca soube que o Príncipe Encantado da Cinderela se chamava Henrique, mas aqueles olhos azuis me fitando não me deixaram fazer qualquer objeção.

- Sou a Cinderela, então?

- Não, você é a Ana da Psicologia. E ainda bem, porque eu não sei onde enfiei o sapatinho...

Uma amiga dele, que então eu não conhecia (a Larissa, vim a saber depois), chegou perto da gente, interrompendo e sem nem sequer olhar pra mim.

- Você não vem, Prince?

Prince? Putz, o Henrique já tinha jogado essa cantada de Príncipe Encantado antes!

- Quer vir também? A gente vai fumar um beck ali atrás...

Eu, que estava achando o máximo do descolamento acender um Free, dispensei.

- Tô de boa, obrigado. E já é quase meia-noite, minha carruagem tá me esperando.

Henrique quase gargalhou.

- A gente se fala então. Beijão.

Guardei meu maço de cigarros na bolsa, saltei da mureta e fui buscar a minha carruagem: algum táxi que passasse por ali naquela hora.

*

Foi uma coincidência, com certeza, mas as interrupções às aulas pra recados do D.C.E., antes constantes (eu chutaria dizer que semanais), praticamente pararam de acontecer depois de minha conversa com o Henrique na “Chopp e Dança”. Sendo exata, até o final daquele semestre apenas duas vezes recebemos informes – e em nenhuma delas foi o Henrique quem apareceu pedindo licença ao professor e atenção aos estudantes: foi uma tal de Jeise, ou Jasy, ou Jasi, sei lá como se chamava a menina. Depois disso, sei que o D.C.E. foi assumido por um grupo de estudantes majoritariamente engajados com gestão de empresas e negócios. Pessoal da Administração, da Engenharia, Ciências da Computação, essas coisas. “Gente Nova”, era o nome da chapa 2, que acabou ganhando as eleições na justiça, após suposta fraude numa urna da Filosofia. Acho que estão lá até hoje, mas não posso garantir.

Nesse período sem vê-lo, primeiramente senti raiva de mim. O cara realmente tinha me balançado. Por que não aceitei ir lá dar um trago? Por que não dei um jeito de passar meu telefone pra ele? Eu precisava ter sido tão puritana? Depois, fiquei com dor-de-cotovelo. Prince... Eu podia apostar que a Larissa, de quem eu ainda não sabia o nome, já tinha aceitado a cantada dele – ridícula, aliás. Safada. E eu ficando vermelha, gaguejando (mesmo na fase dor-de-cotovelo eu continuei com raiva de mim mesma). Por fim acabei deixando o Henrique guardado com carinho num canto da memória e passei a me sentir melhor, menos infantil. Andei dando umas ficadas com uns quatro ou cinco caras que davam em cima de mim e passei a fumar cotidianamente – Free, não maconha.

*
              
Nosso reencontro foi em outra festa. Contra todos os prognósticos, foi ele quem me reconheceu primeiro. Embora eu tivesse entrado na faculdade dois anos depois do Henrique, estávamos nos formando juntos: e aquela era a festa do “Bota Fora”.

Sem barba nem madeixas, mas ainda com aqueles olhos azuis que tanto me impressionaram anos antes, ele me perguntou, sorrindo, se meu gosto musical havia evoluído ou se eu ainda não percebia a complexidade estética do forró universitário.

Diferentemente do nosso primeiro e curto bate-papo, neste eu não me senti em momento algum insegura: pelo contrário, mantive-me bem confortável – e não porque, tal qual Sansão, a força de Henrique residisse em seus cabelos, mas sim porque eu já tinha sacado que ele não era candidato ao posto de Príncipe Encantado da minha vida, já que a ideia de mulheres esperando seu Príncipe Encantado havia algum tempo me dava nojo.

Inclusive foi sobre questões de gênero que mais conversamos. Falei sem parar sobre o papel da mulher nesta nossa sociedade patriarcal – e ele me escutou com atenção. Ao invés de sair em busca da minha carruagem, quando a festa acabou fui pra casa dele em seu fusca amarelo.

Henrique morava sozinho, em um apartamento bem simpático cuja sala mais se parecia a um sebo, com inúmeros livros surrados bem organizados em prateleiras de ferro.

Transar com Henrique não foi nada de excepcional, se sou sincera. Nem pro bem e nem pro mal. A única coisa que me intrigou foi o fato de ele ter se levantado e ido ao banheiro se lavar depois de ter gozado, não voltando à cama, mas sim indo direto à mesinha onde ficava seu computador, ali no quarto mesmo.

- Preciso dar uma olhada na internet.

Como um dos assuntos sobre o qual tínhamos conversado na festa foi o machismo travestido de gentileza que existe no ato de o homem sempre pagar a conta do jantar, calculei que ele estivesse considerando a possibilidade de eu interpretar como também machista o fato de homem e mulher dormirem abraçadinhos depois do sexo. Puxei a coberta e, antes de me virar pra acabar com meu sono, percebi que o que ele precisava olhar na internet era um joguinho virtual.

*

Apesar de não nomearmos a nossa relação (caso?, namoro?, amizade colorida?), passei a frequentar mais o apartamento dele do que o meu – o que acabou me trazendo alguns problemas, especialmente no que diz respeito a roupas e itens de higiene pessoal. Muitas vezes quis escovar os dentes e minha escova não estava no armarinho do meu banheiro, por exemplo. Ou então quis usar um vestido vermelho e ele não estava no armário do Henrique. Et cetera.

Com os dois em início de carreira (ele dando aulas como substituto em uma escola da rede estadual e eu atendendo pouquíssima gente em uma sala porcamente adaptada de um prédio comercial que me comia 40% do valor da consulta), tivemos a ideia de juntar os trapos e rachar algumas despesas. Ok, eu tive a ideia. No entanto, demorei um pouco pra apresentá-la ao Henrique: com tudo o que eu já tinha ouvido da boca dele sobre Engels e a origem da família, tive medo de perder o que tínhamos (seja lá que nome isso que tínhamos tivesse) se simplesmente mencionasse a possibilidade de ele e meus pais se conhecerem – mas, por outro lado, sei que não haveria chance de não se armar uma guerra se meus pais soubessem que eu pretendia, primeiro, não renovar o contrato de aluguel do apartamento que eles me ajudaram a encontrar quando me mudei pra Campinas e, segundo, ir morar com um “desconhecido”.

O Henrique curtiu a ideia, no entanto. De maneira que fomos passar um fim de semana em Ipaussu e meus pais se encantaram com ele. Dei muita risada com o quão puxa-saco meu namorado (assim ele se apresentou aos meus coroas) conseguiu chegar a ser. O bolo formigueiro da minha mãe foi o melhor que ele comeu na vida e combinou divinamente (divinamente!) com o licor de jabuticaba. Pescar é o seu passatempo preferido e a dica da isca que meu pai deu é sensacional, “coisa de profissional”. As novelas de hoje em dia estão muito apelativas (a Janete Clair faz uma falta tremenda à nossa televisão) e desde 82 nenhuma seleção brasileira foi capaz de jogar o futebol arte (nem mesmo as que ganharam a Copa do Mundo de lá pra cá).

*

Contei pro Henrique, numa pizzaria, na noite em que comemorávamos o nosso segundo ano juntos, que o proprietário da sala que eu usava como consultório a tinha pedido de volta.

- Você nunca gostou de lá mesmo.

Era verdade. Porém, também era verdade que a localização do prédio, num bairro central, era um grande diferencial que eu podia oferecer aos interessados em me contar suas queixas, suas decepções, suas angústias e seus problemas existenciais. Eu temia perder clientes se meu consultório ficasse fora de mão.

- Pô, mas vamos combinar que se alguém deixar de ir à terapia porque tem que andar um pouco mais pra chegar no consultório... É que ela não tá funcionando direito, né?

Claro. Contudo, quatro pessoas preferiram trocar de psicólogo a trocar de bairro. E essas quatro significavam 50% da minha renda – não eram do convênio.

Evidentemente, precisaríamos cortar custos. A primeira medida que tomei foi reorganizar o esquema que tínhamos com o carro (aquele mesmo fusca amarelo do Henrique): ao invés de eu levá-lo à escola de manhã, ir ao consultório e depois buscá-lo no fim da tarde, pra então voltarmos juntos pro apartamento, passei a usar o ônibus que passa na nossa rua e que tem um ponto a duas quadras do consultório novo. Minha ideia era que também o Henrique fosse de busão pro emprego, mas ele não aceitou – e no fim do primeiro mês de implementado esse nosso novo esquema, ele ainda quis me cobrar metade da conta da gasolina. Fiquei meio chocada quando ele me pediu o dinheiro e estupefata quando o vi sair do apartamento batendo a porta depois de berrar que eu estava empatando a vida dele.

Naquela noite me dispus a esperá-lo voltar pra conversarmos e acertarmos as coisas, uma besteira daquelas, não tinha por que ficarmos brigados. Acontece que no dia seguinte eu tinha cliente no primeiro horário e, com essa de pegar ônibus, não dava pra enrolar de manhã – de maneira que não pude ir dormir muito tarde... À uma e meia fui pra cama, contar carneirinhos.

Não vi a que horas ele chegou, mas quando acordei percebi que tínhamos feito as pazes sem nem mesmo ter tido uma conversa sobre o assunto: em cima do travesseiro dele havia um Sonho de Valsa e um bilhete em que ele me dizia qualquer coisa sobre eu ser a gasolina que mantinha acesa a paixão dele. Apesar de brega no último, aquilo me acalmou. Ouvi barulho na cozinha e percebi que era ele arrumando um café-da-manhã pra mim. Levantei, tomei um banho de gato e fui pra sala, onde a mesa posta servia de anteparo a um garotão de charmoso sorriso que me chamou de linda e perguntou se eu queria o café puro ou com leite.

Não gostei da forma como “resolvemos” a discussão, mas não tive ânimo de reavivá-la – e o episódio ficou por isso mesmo. Lembro-me de que tive vontade de buscar uma terapia pra mim, pra me fortalecer, pra entender o porquê de eu deixar passar uma mancada assim dele (justo eu que saía em defesa da minha mãe a cada vez que meu pai soltava algum comentário idiota). Evidentemente acabei não indo atrás de terapia nenhuma: o momento era de cortar custos – não de ampliá-los.

*

A mais dolorosa das contenções de gastos que consegui nos impor foi a Dona Maria. Dona Maria era a faxineira que mantinha o apartamento simpático desde os tempos em que Henrique morava sozinho. Ela aparecia duas vezes por semana: às segundas e às sextas. Limpava, aspirava, varria, lavava, encerava, passava, guardava e ainda deixava prontas nossas marmitazinhas no congelador. Não conversava muito com o “patrão”, mas comigo era só papo. O Henrique não sabia, por exemplo, que ela tinha duas filhas da nossa idade – muito menos que já fora avó e que seu netinho morrera um ano depois de ela começar a fazer faxina pro estudante da Sociais tão interessado na classe trabalhadora. Quando contei pra ela que teríamos que demiti-la, emocionei-me um pouco e minha voz saiu embargada.

- Não te preocupa, minha filha. Eu sei que isso é coisa do Seu Henrique.

Não tive coragem de desmentir, mas o fato é que, por ele, ela ficava. Não adiantava eu argumentar que não tínhamos dinheiro pra nos dar esse luxo de ter alguém cuidando dos nossos afazeres domésticos: ele sempre armava a retranca e me indagava como é que podia ser que quando ele estava solteiro não faltava dinheiro pra faxineira.

Eu não sabia responder, claro, mas hoje percebo que ele conhecia a resposta e que, ao me fazer essa pergunta, me induzia a pensar que era eu a gastona responsável pela caótica situação financeira em que nos encontrávamos. Agora, olhando praquele episódio sabendo de como vem se encaminhando nosso relacionamento, tenho pra mim que, de duas, uma (ou talvez até de duas, duas): ou ele aumentou os gastos ou alguma fonte de renda (tipo os pais dele, que vivem na Irlanda e que eu nunca conheci) secou. A segunda é a alternativa em que mais acredito: é bem factível os pais terem decidido parar de mandar uma hipotética mesada assim que ele se formou (ele que tanto demorou pra pegar o canudo) e, além disso, fora algumas vezes que senti cheiro de bebida alcoólica em seu hálito, normalmente às sextas-feiras, não o percebi gastando muito – ele continua com pouca roupa, não vai a teatro, cinema, balada... Vive lendo aquele monte de livro usado e está cada vez mais magro.  Porém, vai saber, né? De vez em quando me pareceu ouvir a Larissa (de quem já sei o nome!) agradecendo por um presente ou um mimo ou um favor, “ai que fofo, não precisava”. Umas duas ou três vezes perguntei pro Henrique sobre a qual presente ela se referia, mas ele me diz que não sabe do que é que eu estou falando.

- Você tá ouvindo vozes, não é possível.

Ele não usa cartão de crédito e então eu nunca tive fatura pra bisbilhotar: comecei a achar que eu precisava mesmo de terapia.

*

Convencer o Henrique de que tínhamos que dispensar a Dona Maria não foi fácil. Ele sempre se alterava quando eu tocava no assunto e acabava me fazendo ver que vivia melhor quando era solteiro.

Um dia, porém, ele aceitou conversar.

- Olha, Ana, a gente senta e vê a situação; mas que fique claro que eu só tô aceitando falar sobre isso por conta do imenso amor que sinto por você.

Mostrei meus extratos bancários, os boletos a pagar, as contas atrasadas. Falei do quanto poderíamos fazer e onde poderíamos alocar o dinheiro que pouparíamos sem precisar entregar as entre oito e dez diárias pra Dona Maria todos os meses.

- Olha, Ana, tá bom. Eu vou então abrir mão de um conforto que me acompanha desde quando eu tava na facul. Triste, sabe? Até pensando na Dona Maria, entendeu? Esse dinheiro é muito mais importante pra ela do que pra você. Mas tudo bem, se é assim que você quer, que seja feito. Só que eu não vou ter coragem de falar com ela, você fale quando eu não estiver por aqui.

Apresentei pra ele um plano com divisão de tarefas pro “pós-Dona Maria”. Assumi grande parte dos afazeres, não era ingênua de acreditar que ele aceitaria de boa assumir muita coisa. Pra ele deixei coisas como colocar a própria roupa suja no cesto (!), tirar o lixo e lavar a louça. Feira e supermercado eu marquei como função conjunta do casal. O resto, deixei pra mim. Ele topou.

*

Meses depois da partida da Dona Maria, vi um bilhete em cima da mesinha da cozinha.

“Ana, por favor, não vá dormir antes de eu chegar. Precisamos conversar sobre a gente. Beijos, Henrique.”

Já havia semanas que eu caía morta de sono todas as noites antes das 23h, depois de passar o dia enfrentando o total de uma hora e meia (ou duas horas se computarmos o tempo médio de espera no ponto) em dois ônibus, geralmente lotados, e dando conta de atender os clientes, estudar e repassar minimamente o caso de cada um e cumprir as tarefas de casa – as minhas, as do casal (sozinha) e as dele. O que eu não assumia, ficava sem fazer.

Jantava sozinha e deixava o prato do Henrique preparado: ele só precisava esquentar no aparelho de micro-ondas e, teoricamente, lavar o prato, o copo e os talheres que usasse: os que eu tinha usado eu mesma já deixava lavados, secos e guardados. 

Na conversa, Henrique foi muito carinhoso. Afirmou que me amava imensamente, mas disse que sentia saudades da Ana que conheceu e pela qual se apaixonou. Lembrou-me de nosso início, quando saíamos juntos, bebíamos conversando sobre tudo, passeávamos de mãos dadas e transávamos como se não houvesse amanhã (com esse último ponto, especificamente, eu não concordava muito, mas tudo bem, se era assim que ele se sentia em relação ao que fazíamos na cama... melhor!). Depois, com bastante cuidado, fez uma comparação entre o que eu já tinha sido e o que eu era agora: uma mulher desanimada, sempre pra baixo, reclamando de tudo e que estava roncando quando ele chegava cheio de amor pra dar. Prometi melhorar e ele me deu uma nova chance.

Após o papo, ele quis transar e eu achei melhor não contar que não estava afim. Naquela noite apenas meus olhos umedeceram: terminado o que mais me pareceu um ataque de britadeira do que qualquer outra coisa, Henrique foi se lavar e, na volta pro quarto, dirigindo-se à mesa do computador, ele me perguntou se eu tinha dado uma engordadinha.

- Acho que sim – foi o que consegui responder.

*

Fiquei livre do Free. Inacreditável o esforço que me custou: se alguém me contasse antes daquela “Chopp e Dança” que um dia eu teria tremedeiras e pesadelos ao passar 24h sem dar uma tragada naquele treco que irritava minha garganta, me fazia tossir e ainda deixava meu cabelo imensamente fedido, eu diria que era mentira.

O dinheiro que deixei de gastar com o cigarro, eu resolvi usar pra comprar pó de guaraná e pastilhas de vitamina B: queria ver se conseguia ficar mais disposta. Voltei a usar batom e passei a jantar só salada. Queria que o Henrique tivesse a mulher que merecia.

Não é que do sono eu também tenha conseguido me libertar, mas fui conseguindo me manter acordada até mais tarde. Henrique chegava, me dava um beijo na testa e ia tomar banho enquanto eu esquentava o prato dele e preparava a minha salada. Jantávamos juntos e eu me esforçava horrores pra não bocejar enquanto ele falava sobre coisas que eu não queria que ele percebesse que eu não estava acompanhando: Durkheim, a Escola Francesa e a coesão social; Weber, a ética protestante e a cínica defesa da busca da riqueza como um dever moral por meio da dedicação ao trabalho; Norbert Elias e a diferença entre os conceitos de civilização e cultura... Enfim. Ele parecia o professor e eu a aluna – mas nem de longe ele o competente professor Aguiar e nem eu, muito menos, a entusiasmada Ana da Psicologia.

*

Raramente Henrique falava de alguém do seu convívio. Nada de fofocas, nada de indiscrições. Mais do que uma vez, porém, fez referência a um casal de colegas, professores, os dois, de Português: a Gisele e o Antônio. Sempre de maneira elogiosa. Dentro da minha luta por agradá-lo, sugeri de convidá-los pra jantar em casa uma noite.

- Parece que você gosta desses dois...

Henrique abriu um sorriso na hora. Ficou empolgado. Falou maravilhas deles.

- Você vai adorá-los.

Era sábado, Henrique contatou-os via whatsapp. O encontro ficou agendado pra sexta-feira seguinte: ontem. Viriam os três juntos, direto da escola.

*

Elaborei o cardápio e fiz sozinha a compra no supermercado. Além disso, dei cabo de tudo o que me cabia na nossa divisão de tarefas, dentre as quais se destacavam a faxina geral e a preparação do jantar.

Uma meia hora antes do horário programado pra eles chegarem, com tudo pronto, eu tive uma ideia. Pensei que se o Henrique se sentisse constrangido diante de pessoas que admirava, talvez percebesse quão importante seria cumprir as obrigações que acordamos serem dele – e que estas não se tratavam apenas de chatices de uma mulher cricri e infeliz. Coloquei de volta no sofá a roupa usada que ele havia deixado jogada na noite anterior: camiseta, calça, meias e cueca.

Henrique recolheu a roupa assim que a viu, talvez antes de que os convidados tivessem se dado conta. Pra minha surpresa, ele serviu o jantar – e mais: com desenvoltura. Conversou animadamente, todo sorrisos, sempre solícito e esbanjando carinhos. Recebi até cafuné em determinado momento.

Gostei do casal, sim. Mais dela, talvez. Não que eu não tenha gostado do cara, mas a Gisele é mesmo encantadora. O Antônio, perto dela, me pareceu um pouco bobo. Talvez eu esteja sendo injusta. Mas, sei lá, acho que ela é tipo o sol e ele a lua. Bem, não interessa.

Depois que os dois foram embora, mais de uma da manhã, fui retirar os pratos de sobremesa da mesa e levá-los à pia, enquanto Henrique os acompanhava na espera pelo elevador. Assim que ele fechou a porta, veio resoluto em minha direção. Eu já estava diante da pia, de costas pra ele, com aquela louça nas mãos. Acho que teria dado tempo de escapar, mas fiquei paralisada com a bronca.

- Sua vaca, acha que eu não percebi?

Foi isso o que ele disse, antes de me empurrar. Bati a cabeça no armário que fica em cima da pia e caí, com os pratinhos de bolo, que se estilhaçaram ferindo meus braços. Não sei se desmaiei ou se dormi depois de tanto chorar.

Acordei há pouco, com o sol de sábado invadindo a cozinha. O Henrique não está em casa. Fez-se um galo na minha testa e acabei de passar merthiolate nos cortes que as lascas dos pratos da sobremesa me proporcionaram. Vou recolher os cacos e depois passar o esfregão no chão, pra limpar o sangue.

Depois só vai me restar lavar o resto da louça do jantar.
               


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