Tudo me irrita nesta merda de
lugar. O preço do café, a gordura do croissant,
o pato seco que comi no almoço grasnando na minha garganta e o garçom
uniformizado que espanta o petit garçon
que me pedia um trocado aqui nesta mesinha bamba em que tomo frio – mais do que
o conhaque – na calçada.
E pensar que foi por conta de Paris
que a gente se aproximou.
*
A Anne adolescente já chamava bem
a atenção da rapaziada por conta dos seus, digamos, atributos físicos – mas ela
era meio páreo duro: pros mais ousados da nossa turma que tentavam alguma
coisa, ela respondia que não saía com criança de oitava série. Eu achava meio
estranho essa resposta da Anne contra as investidas mais atrevidas, afinal ela
também estava na oitava série (e, portanto, se os meninos éramos crianças ela
também seria – aliás, até hoje me dou razão: oitava série é tudo criança), mas
o fato é que ela, naquele ano, tinha tido dois namorados – e os dois estavam no
colegial. Cada um foi namorado dela durante longos quatro meses, pouco mais,
pouco menos. Eu, que sequer de longe era dos mais ousados, não tentava nem dar
oi pra ela, quanto mais passar cantada.
Mas aí teve um trabalho de
Geografia, um seminário sobre cidades do mundo, e eu escolhi Paris. A gente
podia formar grupos, só que fui o único que escolheu a Cidade Luz. A escolhi
porque já estava apaixonado pela Anne, claro, e queria conhecer mais sobre o
lugar de onde ela tinha vindo. Meus amigos acabaram escolhendo Atenas, Roma,
Lisboa e Salvador – porque a gente já tinha estudado essas cidades na aula de
História no ano anterior e, imaginando que professores não se comunicam, eles
pensaram que poderiam usar o mesmo trabalho daquela disciplina na apresentação
(não seria algo como o “copiar e colar” tão comum nos dias de hoje, posto que
naquele tempo não tínhamos acesso a computador, mas pros padrões da época seria
a maior moleza: era só datilografar em uma folha nova a pesquisa feita pelo
Eugênio, e copiada por todos, mudando o cabeçalho HISTÓRIA – 7ª SÉRIE – 1989
pra GEOGRAFIA – 8ª SÉRIE – 1990 e depois ler lá na frente). Não sou o Eugênio,
só pra deixar claro. E também copiei o trabalho dele no ano anterior. Esse da
oitava série é que decidi fazer de verdade, por causa, repito, de minha, embora
platônica, avassaladora paixão pela Anne – que acabou fazendo dupla com uma
amiga pra falar de São Paulo mesmo.
Fiz um trabalho do caralho sobre
Paris (falei de Chasseanos, Lutécia, São Denis, Vikings, construção da Notre Dame, Peste Negra, Massacre da Noite
de São Bartolomeu, Dia das Barricadas, Queda da Bastilha, Comuna...), mas agora
constato que ele não serviu pra me fazer conhecer a cidade como eu achava que
tivesse servido. Ele só serviu mesmo pra fazer a Anne vir falar comigo. E pra
eu tirar o único dez da minha carreira estudantil pós-primário.
*
Esse petit garçon que foi escorraçado daqui pelo garçom deve ter os
mesmos treze anos que eu tinha naquela época – e duvido que ele saiba tanto
quanto eu sabia sobre o Barão Haussmann e a reforma urbana da cidade: mas se eu
conhecesse naquele tempo o que ele conhece sobre esta Paris de bosta, jamais eu
teria feito a cagada que eu fiz.
*
Assim que terminei minha
apresentação, abaixei a cabeça e retornei pra minha carteira. Senti minhas bochechas
e minha testa arderem enquanto ouvia o professor elogiando minha pesquisa antes
de chamar o grupo seguinte e, depois que a temperatura do meu rosto se
estabilizou, no final da aula, voltei a senti-lo em chamas quando percebi que
quem tocava o meu ombro era a Anne. Ela queria me contar que era de Paris, como
se eu não soubesse. E eu fiz de conta que não sabia, o que me deu alguns
segundos de conversa com ela, enquanto saíamos juntos da sala, mochila nas
costas e olhares (pelo menos o meu) pro chão. No portão da escola estava o
namorado dela (o segundo daquele ano), um cara que fazia musculação e, todos
sabem, já estava no colegial.
— Amor, Eugênio, Eugênio,
Ricardo.
Puta que o pariu: não sou o
Eugênio!
— Antônio – murmurei,
corrigindo-a sem muita convicção.
— Beleza, Eugênio? – e o Ricardo
quase esmaga minha mão.
*
Pela vidraça deste café/bistrô de
Saint-Germain, bairro ao qual venho uma vez por mês pra tirar selfie e postar no Facebook, vejo que o casal sentado ao meu lado, mas na parte de
dentro, calafetada, pediu um prato de escargot.
São oito da noite, e ainda não digeri o almoço. Estou enrolando aqui, tomando
um conhaque e fingindo que vou jantar.
*
Praquele trabalho da oitava
série, obviamente pesquisei a culinária francesa – e me foi de ótima ajuda
pensar em nojentos caramujos passeando pela boca da Anne toda vez que eu a via
beijando o tal do Ricardo: uma maneira meio torta de encontrar alguma vantagem em
ser um tímido e sem graça quatro-olhos fadado à solidão – fadado a uma vida sem
a Anne.
No entanto, surpreendentemente, minha vida teve a Anne – e eu a troquei por outro caramujo. Pela casca de outro caramujo, pra ser mais exato, posto que, confesso, o que consegui aqui foi viver no 20º arrondissement, apenas. Eu que morava no Higienópolis.
*
O namoro da Anne com o Ricardo já
estava se aproximando do fim naquela tarde em que eu fui apresentado ao rapaz:
ele tinha ido buscá-la na saída do ginásio pra tomarem um lanche e comemorarem
o centésimo dia deles juntos – foi isso o que o garotão me explicou, talvez
tentando me dar tchau logo após ter me dado oi.
Acontece que aqueles poucos
segundos de conversa sobre meu trabalho (e também a imagem que criei em minha
cabeça dos caramujos passeando pelos lábios da Anne), meio que me ajudaram a
tirar minha francesinha do pedestal em que eu próprio e toda a torcida do
Corinthians a havíamos colocado – o que, não de uma hora pra outra, claro, mas,
outrossim, de maneira constante, foi acertando o compasso das minhas batidas
cardíacas, regulando a temperatura do meu rosto e engrossando a minha voz a
cada vez que a tornava a ver – e olha que ela passou a se dirigir a mim com
frequência. Ainda estava, no entanto, apaixonado por ela – o que me impelia a tentar
impressioná-la com o único assunto sobre o qual eu possivelmente tivesse alguma
coisa de seu interesse pra dizer: França e, especialmente, Paris (meus outros
assuntos na época eram Engenheiros do Hawaii, lições de casa e cartuchos de videogame).
Foi assim que, fingindo falar de
improviso, disse pra Anne, numa tarde em que seu estado civil já indicava a
opção “solteira”, que tinha pensado nela na noite anterior. Ela abriu um
sorriso inesquecível e me perguntou o porquê.
— É que eu tava vendo um filme do
Truffaut e tinha uma atriz parecida com você.
— Jura? Nossa, você vai ter que
conhecer o meu pai! Ele adora o Truffaut!
Minha cara quase foi ao chão
quando ela me disse onde morava, como eu fazia pra chegar lá e que eu poderia
ir almoçar sábado com eles. Era quinta-feira. Cheguei a pensar em recusar o
convite, não por que tivesse algum compromisso (não tinha, nunca tinha), mas
porque a verdade é que eu apenas havia decorado o nome do diretor durante a
pesquisa – não tinha assistido a nenhum filme dele. No entanto, não me senti
capaz de recusar um convite desses. Respondi que iria almoçar com eles, sim.
Sorrindo e jogando uma piscadinha de olho, ela me perguntou:
— É a Fanny Ardant, né?
Eu assenti e corri pra locadora,
onde aluguei os cinco filmes que vi de madrugada, com o som no mínimo,
escondido em meu quarto: Os incompreendidos; Beijos proibidos; A noite
americana; De repente, num domingo e A mulher do lado. Porra, ela era mesmo a
cara da Fanny Ardant!
No fim das contas minhas noites em claro não serviram pra que eu alcançasse meu objetivo (que era não passar vergonha na frente do Jean-Pierre, o pai da Anne), posto que o velho falou o tempo todo durante o almoço, não me deixando nenhuma brecha – e, por certo, segundo ele, o filme fundamental do Truffaut é o Farenheit 451. Porém, essas noites serviram pra outra coisa: além de ter ficado maravilhado com o que havia conhecido da filmografia do gênio da Nouvelle Vague, o entusiasmo do meu mais novo e improvável compagnon acabou me fascinando e, quando voltei à locadora pra devolver os filmes, aluguei, além do Farenheit 451, Jules e Jim, O amor em fuga, Domicílio conjugal e Masculino, Feminino – que é do Godard, mas acontece que a locadora não tinha mais nenhum do Truffaut.
Aprender com Jean-Pierre sobre
Truffaut, Godard, Chabrol, Resnais e Rohmer virou o maior prazer da minha vida
e transformou Anne, naquele momento, numa simples garota de recados: o que me
desestabilizava não eram mais suas longas pernas, nem seu cabelo perfumado, nem
muito menos sua postura ereta – o que me deixava ansioso era saber se seu pai
estaria ou não disponível pra me receber no sábado.
*
Já paguei a conta e saí da
mesinha de fora do café/bistrô. Ainda estou em Saint-Germain: vou chutando uma
latinha amassada de Coca-Cola (Coca-Cola!) enquanto desço a Rue Bonaparte,
desviando dos turistas que fazem fila na porta da confeitaria (gente, já está
na hora de jantar!) e busco alguma coisa que me ajude a enrolar o máximo
possível pra postergar a minha indesejada chegada à estação do metrô. Chegar ao
metrô significa voltar pra casa – voltar pra casca do caramujo. Faz frio e meu
casaco me protege menos do que a casca protege o escargot. Mas no Saint-Germain pelo menos tem gente comendo escargot.
*
Talvez por ter passado a ser o
único, ou ao menos o primeiro, garoto da escola, do bairro, da cidade, quiçá do
país, que lhe olhava sem externar uma excitação de cunho sexual, a Anne se
apaixonou por mim. Sabe aquilo de querermos o que é difícil de ser conquistado?
Pois é, acho que aconteceu com ela. E comigo também, mas ao contrário: quando
ela me disse que estava bem afim de mim, eu, um garoto da oitava série, dei-lhe um beijo na boca só pra não
perder a chance. Confesso que não pensei em caramujos na hora, o beijo foi bom
pra cacete, meu primeiro beijo de língua, mas também admito que começamos a
namorar só pra eu poder passar na sua casa mais de uma vez por semana, sem que
isso significasse incômodo pro Jean-Pierre.
Nosso namoro durou bem mais do
que os longos quatro meses dos fortões. Foram anos. Moramos juntos quando jovens, na
casa que era do pai dela: Jean-Pierre morreu aqui, assassinado, na frente da
Anne, na manhã do dia 31 de dezembro do ano 2000, enquanto os dois procuravam uma
loja que vendesse Champagne. Eles queriam
uma Moët Chandon pra estourar na casa da família da mãe da Anne, família com a
qual mantinham uma relação amena, apesar de distante. No entanto, o mesmo homem
que tinha sido acusado por Jean-Pierre de haver assassinado a Charlotte, sua esposa, estourou seus miolos com um tiro seco, que produziu um pequeno
estampido e muita gritaria.
— Este sim fui eu! – disse o cara,
quando os policiais se aproximaram.
Seria o quinto réveillon consecutivo
que eles passariam junto à família de Charlotte e desde o primeiro eles
quebravam a promessa de me trazer junto.
*
Em 2005, quando finalmente minha
poupança chegou a uma quantia que bancaria umas duas semanas aqui em Paris,
Anne me disse que nunca mais viria pra cá – não queria nem saber do lugar em
que perdera mãe e pai.
— Aliás, não saio de São Paulo.
Amo esta cidade.
Não era à toa que ela tinha feito
o trabalho sobre São Paulo na oitava série. Enfim.
*
Em 2008, quando eu, incauto,
imaginava que a minha poupança já era suficiente pra me sustentar mais do que
seis meses como turista por aqui, voltei a tocar no assunto de uma viagem por
estas terras tão fedorentas e ao mesmo tempo tão perfumadas. Anne me disse que
era Paris ou ela.
*
Fiz a escolha errada. Não só
porque abri mão de seguir vivendo ao lado da Anne, minha primeira paixão, o
amor da minha adolescência, mas também porque a alternativa que escolhi era
outra. Eu optei por uma Paris que nunca existiu na minha vida: esta Paris de
piqueniques no Champs-de-Mars tão próxima e tão distante de mim. Desde que
cheguei economizo o que não tenho e trabalho noite e dia pra poder usufruir da
cidade dos meus sonhos – ou dos meus macarons,
que seja. São nove os anos que conto como imigrante clandestino.
Ao me decidir por Paris, eu, sem
saber, escolhi viver em um apartamento apertado no primeiro andar de um prédio horizontalmente
enorme, cuja fachada apresenta ao desavisado visitante inúmeras e minúsculas janelas.
Estou indo pra lá agora: cheguei à estação.
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