domingo, 14 de maio de 2017

CAMISA 9

Ninguém esperava por uma nova colega em outubro. E muito menos por uma nova colega como a Ana Helena.

No dia em que ela chegou à escola, garoava desde manhãzinha e eu, filho único de precavido pai machista em desconstrução, estava molhado (mais de suor do que chuva, já que me encontrava enfiado em camiseta, blusa, casaco, duas calças, luvas e meias grossas, paramentado para enfrentar o que meu pai julgou se tratar de um dia de inverno na Rússia).

As lentes embaçadas dos meus óculos atrapalharam um pouco minha visão e eu, mesmo estando sentado em uma carteira posicionada na diagonal de quem fala na frente da sala, meio que não notei que a menina que a professora, dona Márcia, pedia pra se apresentar pra turma, tinha os cabelos raspados nas laterais.  

― Bom, sou a Ana Helena, tenho 12 anos e sou centroavante.

Após um silêncio da turma como resposta, a menina se dirigiu à carteira indicada pela professora e a lousa começou a ser preenchida com informações sobre fotossíntese. Tive vontade de ficar olhando pra nova colega, mas minha vergonha me impediu e eu acabei fixando o meu olhar na planta que a professora desenhou.

Na minha escola as turmas estavam organizadas da seguinte maneira: na “A” ficavam os alunos que tiravam as melhores notas; na “B”, os que tiravam as piores. Até hoje não sei quem foi o gênio que teve essa ideia, mas o resultado imediato disso é que nunca tivemos chance de ganhar um único desafio interclasse de esportes: éramos a “6ª Série Tarde A” e nossos troféus vinham das olimpíadas de matemática, dos torneios de xadrez e dos concursos de contos. Em basquete, vôlei, atletismo, handebol, queimada e, principalmente, futebol, perdíamos de goleada.

Digo isso pra explicar que o silêncio que se seguiu à auto apresentação da Ana Helena se deveu mais à perplexidade que a chegada de uma nova aluna naquela altura do ano causou naqueles alunos (que não se desesperam diante da regra de três, mas que se embananam com um “olá, como vai?”), do que a um desinteresse coletivo ou ao céu cinza do dia.

Eu suspeitava estar na turma A não por ser tão bom em notas, mas sim por ser péssimo em esportes. Meus setes e oitos eram suficientes para passar de ano, mas me tornavam diferente do restante da classe, que, quando tirava um nove, parecia que tinha perdido um parente. Assim que a chegada de alguém se apresentando como centroavante me animou, e eu fiquei bem contente de a turma “B” estar lotada enquanto sobravam vagas na turma “A” – era quase inacreditável que no dia seguinte iríamos finalmente entrar em campo com um time completo no desafio do futebol, justo no último jogo da temporada: Ana Helena seria a décima primeira jogadora e receberia a camisa 9, já que era a centroavante.

Como gentileza de boas-vindas, na hora do intervalo me apresentei à garota e lhe disse que cedia a ela meu posto de capitão do time de futebol. E também, se ela quisesse, meu posto de capitão do time de basquete, do de vôlei, do de atletismo e do de handebol.

Comentei depois com meu colega Gabriel que o sorriso que ela me deu ao aceitar a proposta foi a coisa mais linda que já tinha visto na vida e ele me disse que apesar do meu corpo de Sancho Pança eu estava me parecendo mais com o Dom Quixote falando da Dulcineia. Não entendi, mas suspeitei que fosse uma crítica.

Mesmo com a estreia de nossa capitã, porém, perdemos o jogo. Em parte por culpa dela (que, por exemplo, não se dispôs a, como capitã, ficar lembrando o Augusto de que o goleiro pode pegar a bola com as mãos), mas também por conta do juiz, o professor de educação física, que a expulsou depois de ela ter berrado “Porra!” na comemoração do gol que fez de fora da área – o único gol da história da “6ª Série Tarde A”.

Perdemos por honrosos 7 a 1.



  


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