quarta-feira, 4 de maio de 2016

Não existo porque os outros existem

Campinas, 04 de maio de 2016

Prezado Henry e demais participantes da oficina virtual de escrita, tudo bem?

Vocês não me conhecem e provavelmente não terão a chance de algum dia vir a me conhecer: sou (ou seria) a protagonista do conto que o Antônio teria que escrever até o dia 05 de maio para cumprir a última das atividades que ele vem encarando – com entusiasmo, dito seja de passagem – há dois meses e meio. No entanto, hoje já é dia 04 e ele ainda não pensou em nenhum conflito a ser resolvido por mim. Não escolheu o ambiente em que a narrativa transcorreria, não se decidiu pelo meu antagonista, não sabe em que época situaria a história. Enfim, o conto não vai sair. Enfim, não sou ninguém – afinal, protagonista de conto que não existe, também não existe. E isso é uma pena.

Isso é uma pena por dois motivos, principalmente.

Primeiro, porque sou uma personagem deveras interessante e minha existência certamente lhes agradaria: tenho senso de humor, bom papo, viajo pra caramba, vivo me metendo em confusões e gosto de dar showzinhos, armar barracos. Sou boa conselheira, sei ouvir, danço bem e sou sexy – além de bem vulgar. Sou muito elegante, como uva com garfo e faca. Tenho olhos verdes, azuis e castanhos. Sou loira, ruiva e morena. Alta, baixa e de estatura média. Sou carnuda, magrinha e musculosa. Sou mulher e sou homem. Velha, jovem e criança. Ricaça e pobretona. Pena mesmo eu não existir.

Segundo, porque a minha não existência se dá pela falta do Antônio (a única em toda esta oficina) em atender a um dos desígnios do orientador (justamente o último!). Olha, vou ser sincera: machuca ver quem me criou ficar chateado, desapontado... O Antônio é um cara bacana, pessoal – ele me faz do jeito que eu quero que ele me faça, não impõe suas vontades – e é bem ruim vê-lo assim, amuado. Claro, eu sei: quando a gente erra é dessa forma que tem que ser – tem que sentir o golpe, pensar sobre o assunto, repensar, viver o luto e, só então, levantar a cabeça. Mas é que a falha (não entregar o conto no prazo) não é bem culpa dele... E é em defesa do Antônio, esse cara gente boa, organizado, responsável, estudioso, esforçado e corintiano que eu resolvi escrever esta pequena carta a vocês. 

Pretendo explicar-lhes a situação e justificar o não envio do exercício. Digo-lhes, com toda a sinceridade do mundo, que o Antônio merece que vocês leiam o que virá a seguir: não seria certo vocês pensarem que ele não quis ou não se esforçou suficientemente para criar o conto que eu protagonizaria.

Muito bem, vamos lá então.

Pra começo de conversa, cumpre contar-lhes algo que talvez não saibam: o Antônio é professor. Para poder fazer as atividades desta oficina, desde março ele passou a preparar aos sábados e domingos as aulas que dá durante a semana, a fim de aproveitar as manhãs das segundas-feiras (que tem livres) para se dedicar à criação literária. Porém... Neste último final de semana ele tinha que, além de se dedicar à preparação de tais aulas, corrigir uma bagatela de provas: não nos esqueçamos de que estamos em final de trimestre. O Antônio tentou dar conta das duas coisas: no sábado pulou cedo da cama, fez alongamento, trancou-se em seu quarto, arrumou sua escrivaninha, organizou seus materiais, mas... Seus novos vizinhos finalmente chegaram, depois de meses ameaçando efetuar sua mudança. Armários, estantes, camas, colchões, sofá, poltronas, mesas, mesinhas, cadeiras, banquetas, utensílios domésticos, televisores, luminárias, roupas, caixas... Tudo foi descarregado do caminhão e carregado nas costas residência adentro por uma rapaziada, ao que tudo indica, desleixada – e sob, portanto, as ordens da histérica nova dona da casa, que fez estardalhaço pra cada descuido e pra cada possibilidade de descuido dos amigos do marido. Sim, amigos do marido: meu criador pôde comprovar isso à noite, quando enfim tudo ficou pronto: o maridão ofereceu um churrasco pra galera ao som do mais fino pagode.

Antônio é de libra e, embora não acredite na força dos astros, preza pela justiça – o que caracteriza os librianos. E não há como ser justo ao corrigir provas se não é possível se concentrar. Ele preparou as aulas, mas deixou as provas pra corrigir no domingo.

Mas domingo ele não corrigiu prova nenhuma: não por preguiça, ou leseira, ou algo do tipo. Não. Antônio adiou a correção por outro motivo: a faxina. Já havia duas semanas que estava agendada para aquela noite a visita de um amigo querido, Ricardo, que acabou de voltar ao Brasil após um ano em Nova Iorque, onde sobreviveu com uma parca bolsa de estudos graças às valiosas dicas que obteve no site mãosdevaca.com. Assim que combinaram o encontro, Antônio passou a planejar o cardápio do jantar de recepção: castanhas, pistaches e amêndoas acompanhadas de um espumante para a entrada; gaspacho de primeiro prato, também ladeado pelo espumante; risoto de funghi como prato principal, casando com um Rioja; e pudim de mel de sobremesa, antecipando o licor. A casa estava muito suja, o aspirador travou, o balde furou, a faxina tardou mais do que o previsto. Só que não dava para desmarcar o reencontro após doze meses de saudades e duas semanas de combinado e Antônio acabou pedindo uma pizza pros dois – mas, mesmo sem o jantar que o simpático professor que tenta ser escritor imaginou para a noite, seu convidado tinha muitas coisas para contar e acabou indo embora apenas quando o sol raiou. Reforço que Antônio é de libra: ele tem horror a conflito e, assim, não deu conta de expulsar o amigo numa hora decente.

Segunda-feira começou então com meu criador zonzo de sono. Ele assistiu ao vídeo do Henry, não entendeu direito a proposta, num primeiro momento, e encarou as provas que tinha sobre a escrivaninha, sedentas por correção. Muito café e algumas horas depois, todo mundo ganhou nota. Antônio tomou banho, vestiu sua roupa amassada e foi para o ponto esperar o ônibus que lhe levaria para a escola – sem almoço. Quando chegou de volta, após la noche en vela e com a barriga roncando horrores (o salgado comprado na cantina que comeu em três mordidas não serviu propriamente para forrar o estômago do coitado), Antônio comeu um pão com manteiga e desabou na cama.

O conto ficou para a terça. Para a terça à noite, porque é só às segundas que de manhã ele não dá aula. É bem verdade que no ônibus matutino, em pé, segurando a mochila para criar mais espaço atrás de si, meu criador pôs-se a pensar no texto que escreveria. Até chegou a me esboçar: pele clara, sardas espalhadas pelo corpo, uma jovem charmosa. Gracinha, o Antônio. Contudo, o mau cheiro provindo das bocas sonolentas dos adolescentes preguiçosos que o rodeavam no coletivo o impediram de seguir pensando na ficção e o forçaram a encarar a dura realidade que o castigava. E que continuaria castigando-o: Antônio não se lembrava (anda esquecido mesmo o cara – será a idade?), mas praquela noite estava marcada reunião pedagógica. E a reunião demorou. E o professor chegou mais tarde do que o costume em casa – e o conto ficou pra hoje.

Mas hoje teve jogo na Copa Libertadores. Antônio cogitou usar a partida como ensejo para seu texto: a história de uma jovem charmosa de pele clara, com sardas espalhadas pelo corpo, que enfrenta diversos problemas e supera inúmeras dificuldades para assistir à disputa no Itaquerão e, no fim, conseguir invadir o campo e comemorar com os jogadores a classificação alvinegra. No entanto, o desastre: o Corinthians foi eliminado e a ideia abortada.

E é isso, moçada. O prazo expirou e o conto não nasceu.

Confesso que a tentação de me oferecer a vocês, cuja escrita o Antônio tanto admira, foi grande. Até pensei em algumas frases para convencê-los a dar-me existência... Cheguei, inclusive, a enumerar umas condições (tipo meu nome: meu nome não pode ser alterado, pois adorei o que ele me deu) – mas o Antônio é tão ponta firme que desisti da traição. Sou só dele mesmo. Ele é um céu de pessoa. O inferno são os outros.


Um beijo a todos e, como diria outro cara bacana, dê um joinha se você gostou, deixe seu comentário e a gente se vê por aí. Abraços e até mais... Tchau! 

P.S.: O Antônio está estatelado na cama, roncando alto. Se eu não postasse logo esta carta, era capaz de ele ficar dois dias revisando e xingando essa salada de "pras" e "paras" que eu salpiquei pelo texto.

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